
Minha Vingança, Nosso Amor Renasce
Capítulo 2
O cheiro de hospital.
Desinfetante e uma tristeza antiga, impregnada nas paredes brancas.
Abri os olhos e a luz artificial do teto me cegou por um instante. Minha cabeça doía, uma dor latejante que parecia vir de dentro do crânio.
A última coisa que eu lembrava era do fogo.
As chamas lambendo o metal retorcido do carro, o grito da minha mãe, o silêncio súbito do meu pai. E a dor, uma dor que consumiu tudo antes da escuridão.
Mas agora... eu estava viva.
Olhei para minhas mãos. Elas estavam intactas, sem queimaduras, sem sangue. Passei a mão pelo meu rosto, sentindo a pele lisa. Não havia cicatrizes.
Uma enfermeira entrou no quarto, seu rosto era familiar.
"Luana, você acordou. Teve um pesadelo feio, gritou bastante."
Pesadelo.
Meu corpo gelou. Não foi um pesadelo. Foi real. Eu senti o calor do fogo, ouvi o som dos ossos do meu irmão Pedro quebrando.
"Que dia é hoje?", perguntei, a voz rouca.
"12 de abril de 2023", ela respondeu, checando meu soro.
Meu coração parou.
12 de abril de 2023. Um ano. Exatamente um ano antes do acidente.
Naquela primeira vida, eu fui uma tola.
Completamente cega pela minha paixão por Marcos, o filho do político mais influente da cidade. Ele era charmoso, rico, e me prometia o mundo.
Eu acreditei.
Ignorei os avisos dos meus pais, que viam a frieza por trás do seu sorriso.
"Luana, essa família não é para nós", meu pai me disse uma vez, sua voz carregada de preocupação. "Eles são perigosos."
Eu não ouvi. Estava apaixonada, acreditando que o amor conquistava tudo.
Meu primeiro grande erro foi apresentar Marcos à minha família como meu futuro marido. Ele veio para o jantar, trouxe um vinho caro, elogiou a comida da minha mãe.
Mas seus olhos nunca esquentavam. Eles avaliavam nossa casa, nossos móveis, como um predador inspeciona sua presa.
Naquele mesmo jantar, Clara apareceu.
Clara era minha amiga de infância, mas sua amizade sempre teve um tom de obsessão. Onde eu ia, ela ia. O que eu queria, ela queria.
Quando ela viu Marcos, algo em seus olhos mudou. A obsessão que ela tinha por mim foi transferida para ele, mas mil vezes mais intensa.
Eu, na minha ingenuidade, achei que era admiração. Não vi a loucura que começava a crescer ali.
Meus pais viram.
Eles tentaram me afastar de Marcos e, por consequência, da sombra de Clara. Meu pai, um empresário honesto, se recusou a fechar um negócio com a empresa do pai de Marcos, um contrato que seria vantajoso para nós, mas que nos amarraria à corrupção deles.
"Eu não vendo minha alma, Luana", ele disse, firme.
A retaliação foi rápida.
Nossa empresa começou a perder clientes. Contratos foram cancelados misteriosamente. Fornecedores pararam de entregar. O político usou sua influência para nos sufocar, para nos punir pela ousadia do meu pai.
Nossas economias foram se esvaindo. Tivemos que vender o carro da minha mãe e depois a casa de praia que meus avós deixaram.
Tudo para me proteger, para nos manter longe daquela família.
E eu? Eu culpava meu pai pela sua "teimosia". Eu ainda me encontrava com Marcos secretamente, acreditando que ele não tinha nada a ver com as ações do pai dele.
"Meu pai é complicado, Luana, mas eu te amo", ele dizia. "Vamos superar isso juntos."
Eu acreditava em cada palavra.
A obsessão de Clara por Marcos cresceu a níveis doentios.
Ela o seguia. Aparecia nos mesmos lugares que nós, com um sorriso que não alcançava os olhos. Ela começou a se vestir como eu, a usar o mesmo perfume.
Eu tentei falar com ela, pedi para ela se afastar.
"Eu só quero ser sua amiga, Luana. E amiga de Marcos também", ela dizia com uma falsa inocência que me dava calafrios.
Marcos, por sua vez, parecia gostar da atenção. Ele alimentava a obsessão dela com pequenos flertes, olhares demorados. Era um jogo para ele. Um jogo doentio.
O fim veio no dia do meu aniversário de noivado com Marcos. Meus pais, exaustos de lutar, finalmente cederam. Fariam uma pequena festa para oficializar.
Naquela noite, eu estava radiante. Acreditava que a partir dali, tudo melhoraria.
No caminho para o restaurante, um carro em alta velocidade nos atingiu na lateral. A batida foi brutal.
A última coisa que vi antes do carro capotar foi o rosto de Clara no volante do outro veículo. Um rosto distorcido pelo ódio e pelo triunfo.
Ela não conseguiu o que queria, então decidiu destruir tudo.
Ela sobreviveu. Sem um arranhão. O pai de Marcos, o político, moveu seus pauzinhos. A culpa foi jogada em um motorista de caminhão que nem estava na estrada.
Clara saiu impune.
Meus pais morreram na hora. Meu irmão Pedro, que estava no banco de trás, teve a coluna esmagada. Paraplégico.
E eu, eu morri no hospital, dias depois, sentindo o cheiro de desinfetante e o peso do meu fracasso.
Agora, estou de volta.
Neste quarto de hospital, um ano antes. O pesadelo não foi meu, foi um vislumbre do inferno que me espera se eu não fizer nada.
Recebi alta no mesmo dia. O médico disse que foi apenas uma crise de estresse.
Cheguei em casa e vi meus pais. Vivos. Saudáveis. Minha mãe estava na cozinha, fazendo meu bolo favorito. Meu pai lia o jornal na poltrona da sala.
Corri e os abracei com tanta força que eles se assustaram.
"O que foi, minha filha?", minha mãe perguntou, afagando meu cabelo.
As lágrimas escorriam pelo meu rosto sem controle.
Meu irmão Pedro desceu as escadas, andando. Ele me olhou preocupado.
"Luana, você está bem?"
Abracei meu irmão, sentindo suas pernas fortes, sua coluna intacta. Eu soluçava, uma mistura de alívio e pavor.
Naquela noite, reuni minha família na sala.
"Eu preciso que vocês me escutem. E preciso que acreditem em mim, não importa o quão louco pareça."
Contei tudo. O noivado com Marcos, a obsessão de Clara, a ruína financeira, o acidente, as mortes, a paralisia de Pedro.
Contei com uma clareza de detalhes que os deixou pálidos. Descrevi a roupa que minha mãe usaria no dia do acidente, o presente que meu pai me daria, a nota que Pedro tiraria em uma prova que ele ainda não tinha feito.
Meu pai, um homem cético e prático, me olhava com uma intensidade assustadora. Minha mãe segurava minha mão, tremendo.
"Isso foi um pesadelo, filha. Um pesadelo terrível", ela disse, tentando se convencer.
"Não foi, mãe. Foi um aviso", eu disse, minha voz firme pela primeira vez. "Temos uma segunda chance. E não vamos desperdiçá-la. A partir de hoje, a família de Marcos, o político, e Clara, são nossos inimigos. Não vamos mais ser vítimas. Desta vez, vamos lutar."
Um silêncio pesado caiu sobre a sala.
Meu pai se levantou e foi até a janela. Ele ficou olhando para a rua escura por um longo tempo.
Então, ele se virou. Seus olhos, que antes eram cheios de preocupação, agora ardiam com uma nova determinação.
"Tudo bem, Luana", ele disse. "Nós acreditamos em você. Diga-nos o que fazer."
Naquele momento, a TV da sala, que estava ligada em um canal de notícias local, chamou nossa atenção.
A repórter falava sobre um pequeno tumulto em um evento de caridade.
"A jovem Clara Antunes causou uma cena ao tentar se aproximar do empresário Marcos Valente, filho do Deputado Valente. Testemunhas dizem que ela parecia transtornada."
Meu corpo inteiro se arrepiou.
Eu lembrava daquele dia. Na minha vida passada, eu estava com Marcos naquele evento. Eu defendi Clara, disse que ela só estava animada.
Agora, vendo a cena na TV, eu via a verdade. Os olhos dela, a forma como ela se agarrava a ele. Era o começo de tudo.
Meus pais e Pedro olharam da TV para mim, seus rostos uma máscara de choque e compreensão.
A realidade da minha história tinha acabado de se materializar na tela da nossa sala.
A guerra havia começado.
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