
Meu Destino Descoberto na Esteira da Traição
Capítulo 2
Alícia Mendes POV:
Os olhos de Heitor, como se queimados pela minha silenciosa rebeldia, brilharam com uma fúria desconhecida. Sua culpa anterior havia desaparecido, substituída por uma raiva fria e dura. Ele me olhou como se eu tivesse pessoalmente arruinado sua farsa perfeita. O ar mudou, tornando-se pesado com ameaças não ditas.
Camila, ainda agarrada ao braço dele, soltou um gemido suave e teatral. "Oh, querido", ela sussurrou, agarrando o estômago. "Meu coração... é muita emoção. Essa agitação." Heitor imediatamente voltou toda a sua atenção para ela, sua preocupação anterior comigo completamente esquecida. Ele esfregou o braço dela, seu rosto marcado pela preocupação. "Você está bem, meu amor? Alícia, para que foi isso?" ele estalou, sua voz afiada com acusação.
Camila, com um fungado delicado, pegou o pingente da minha mão. Seus dedos perfeitamente cuidados brincaram com a corrente de prata por um momento, seus olhos brilhando com um divertimento malicioso. "É um pouco... brega, não é, Heitor?" ela disse, sua voz escorrendo desdém. Ela o ergueu, deixando-o balançar zombeteiramente, como se fosse uma bugiganga barata.
Antes que eu pudesse processar suas palavras, ela simplesmente o deixou cair. O pingente bateu no chão de mármore polido com um clique quase inaudível, rolando uma vez antes de parar perto da perna de uma mesa de champanhe. Ficou ali, esquecido e abandonado, um símbolo do meu amor descartado. Meu sangue gelou, solidificando-se em minhas veias. Não foi apenas o pingente que ela jogou fora; foram cinco anos da minha vida, minhas esperanças, meus sonhos.
Heitor, alheio ou indiferente, simplesmente apertou o braço em volta de Camila. "Vamos, pessoal!" ele bradou, uma alegria forçada em sua voz. "Não vamos deixar um pequeno mal-entendido estragar a celebração! A noite é uma criança!" Ele gesticulou expansivamente, instando os músicos a tocarem mais alto, os garçons a servirem mais champanhe.
"Não", eu disse, minha voz cortando o barulho, plana e resoluta. "Eu não vou ficar." Minhas pernas pareciam de chumbo, mas me forcei a me mover. Eu não estava correndo; estava me afastando, de cabeça erguida, deixando para trás os destroços do meu passado.
O rosto de Heitor escureceu, uma tempestade se formando em seus olhos. Ele me observou ir, sua expressão uma mistura de incredulidade e raiva fervente. A fachada de noivo perfeito escorregou, revelando o tirano por baixo. Mas eu me recusei a encontrar seu olhar. Sua raiva não tinha mais poder sobre mim.
Saí do salão de festas, pelos corredores dourados, e para o ar fresco da noite. Meu celular vibrou na minha mão. Eu o verifiquei, um pingo de esperança irracional piscando dentro de mim. Nada. Nenhuma ligação, nenhuma mensagem de Heitor. Nem uma única palavra. Ele nem mesmo tentou me parar, explicar, se desculpar. O silêncio era ensurdecedor, confirmando o que eu já sabia: eu estava totalmente sozinha nisso.
Mais tarde naquela noite, enquanto eu olhava fixamente para o teto do meu apartamento vazio, uma notificação apareceu no meu celular. Era Heitor. Um vídeo. Ele e Camila, dançando intimamente, a cabeça dela aninhada contra o peito dele, o braço dele firmemente em volta da cintura dela. Ele estava sussurrando algo para ela, algo que a fez rir, um som genuíno e alegre. Meu estômago se revirou. Aquela dança lenta e íntima, aqueles sussurros suaves, a maneira como ele a segurava... era tudo tão familiar. Eram nossos momentos, nossas danças, nossas palavras. Ele simplesmente as transferiu, sem esforço, para ela.
Uma risada amarga escapou dos meus lábios. Eu não conseguia mais nem sentir raiva. Apenas um vazio profundo e doloroso permaneceu. Toquei no ícone de 'coração', curtindo a postagem. Uma bênção final e sarcástica para a vida pública e perfeita deles.
Na manhã seguinte, com uma dor surda no peito, embalei meticulosamente meus pertences do apartamento moderno e elegante que Heitor e eu compartilhávamos. Cada item que eu tocava trazia uma nova onda de memórias, fragmentos de uma vida que nunca foi verdadeiramente minha. As fotos emolduradas, as canecas de café combinando, os livros que líamos em voz alta. Eu os separei, mantendo apenas o que era inequivocamente meu, deixando para trás o fantasma de um futuro compartilhado.
Quantas vezes eu pedi a ele, implorei a ele, para apenas nos assumir? "Heitor, quando podemos contar às pessoas?" "Meus amigos estão começando a fazer perguntas." "Meus pais querem te conhecer direito." Cada vez, ele tinha uma nova desculpa, uma nova promessa. "Em breve, meu amor. Só mais um pouco de tempo. A empresa está em uma fase crítica. Meus investidores são conservadores." Suas palavras, antes reconfortantes, agora pareciam uma decepção cruel.
Ele nunca esteve indisposto a se tornar público; ele apenas esteve indisposto a se tornar público comigo. A percepção me atingiu com a força de um golpe físico. Ele não tinha medo de compromisso; ele tinha medo de se comprometer comigo. A dor era aguda, mas com ela veio uma estranha e estimulante sensação de liberdade. A ilusão foi quebrada. Eu estava finalmente livre.
Dirigi de volta para o meu pequeno apartamento, aquele que eu mantive mesmo depois de me mudar com Heitor, uma pequena parte de mim sempre sabendo que eu poderia precisar de uma rota de fuga. As paredes familiares, os móveis gastos, pareciam um abraço caloroso. Isso era verdadeiramente meu. Sem segredos, sem mentiras, apenas eu.
Meu telefone tocou, me assustando. Era minha mãe, sua voz brilhante e alegre. "Alícia, querida! Seu pai e eu estávamos falando de você. Lembra do Caio Sampaio? Dos Sampaios do outro lado da rua? Uma família tão adorável. A mãe dele mencionou que ele está de volta à cidade, querendo se estabelecer. Nós falamos tudo sobre você para ele." Ela tagarelava, alheia à tempestade que se formava dentro de mim.
Eu me lembrava de Caio. Um garoto quieto e intenso, alguns anos mais velho que eu. Meus pais tentaram nos apresentar uma vez, anos atrás, quando eu tinha dezesseis anos, antes de Heitor. Eu recusei educadamente, meu coração já batendo mais forte pelo carismático e ambicioso Heitor Azevedo. Que irônico.
"Mãe", interrompi, uma calma estranha se instalando sobre mim. "Diga ao Caio que eu adoraria conhecê-lo." Minha mãe ofegou de alegria. "Oh, Alícia! Que notícia maravilhosa! Vou contar para a mãe dele agora mesmo!" Desliguei, um sorriso pequeno e resoluto no rosto. Um novo capítulo. Um novo começo.
Na manhã seguinte, digitei minha carta de demissão. Curta, concisa, profissional. "Por favor, aceite esta carta como notificação formal da minha demissão do cargo de Assistente Executiva na Azevedo Tech, com efeito imediato." Anexei-a a um e-mail, meu dedo pairando sobre o botão de enviar. Minha mente vagou de volta aos primeiros dias, quando Heitor me contratou, com apenas dezoito anos, recém-saída do ensino médio. Ele tinha sido tão charmoso, tão atencioso. Ele me ensinou tudo, me cobrindo de elogios, me tratando com uma deferência especial que deixava os outros no escritório verdes de inveja. Eu acreditei que era amor, um romance arrebatador com meu chefe brilhante e poderoso.
Uma risada oca me escapou. Todos aqueles "privilégios especiais", a atenção extra, as sessões de trabalho noturnas que se transformavam em momentos roubados de intimidade. Não era sobre meu talento; era sobre controle, sobre me ter exatamente onde ele queria: perto o suficiente para ser dele, mas distante o suficiente para ser descartável. Eu sabia, com uma certeza doentia, que todos aqueles "benefícios" seriam agora transferidos para Camila. Ela não seria apenas sua esposa; ela seria sua nova "assistente executiva", assumindo o papel que eu tão amorosamente, tão ingenuamente, criei para mim mesma.
Meu telefone tocou novamente. Era Heitor. Sua voz era fria, seca. "Alícia. O que é isso?" ele exigiu, pulando qualquer formalidade. "Meu RH acabou de me encaminhar sua demissão. Que diabos você pensa que está fazendo?"
"Estou me demitindo, Heitor", afirmei, minha voz calma, inabalável. "Acho que isso está bem claro."
"Se demitindo?" ele zombou. "Depois de tudo? Você acha que pode simplesmente ir embora? O que, está tentando me punir? É a sua maneira de chamar a atenção?" Suas palavras estavam cheias de um desprezo familiar, uma pitada do homem controlador que eu aprendi a temer. "Se você tentar me deixar, Alícia, eu juro, você vai se arrepender."
Suas ameaças, antes tão potentes, agora não tinham poder sobre mim. Eu sempre fui a que recuava, pedia desculpas, amenizava as coisas. Mas não mais. "Heitor", eu disse, minha voz firme, "não estou tentando te punir. Estou indo embora. E não há nada que você possa fazer a respeito." As palavras pareceram libertadoras, uma declaração de independência. Meu coração, embora ainda machucado, batia com um novo ritmo, um ritmo de liberdade. "Acabou."
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