
Meu Casamento: Um Milhão de Mentiras
Capítulo 2
Ponto de Vista de Clarice Viana:
Meu celular vibrou, uma trepidação dissonante contra o tampo de mármore frio. Ignorei, meu olhar fixo no espaço vazio onde Enzo estivera momentos antes. Minha mente era um turbilhão de memórias estilhaçadas, cada uma uma nova ferroada. A vasectomia. A farsa calculada. Kiara.
A revelação da vasectomia secreta de Enzo não foi apenas uma traição; foi uma amputação brutal do meu futuro, um futuro que eu ignorantemente teci com ele, sonhos de filhos e família agora em frangalhos. Eu suportei as cutucadas incessantes de sua família, seus insultos velados sobre meu estado "estéril", tudo enquanto Enzo, meu suposto marido, sabia da verdade e me deixava sofrer. A dor desse conhecimento torceu minhas entranhas, uma agonia física que espelhava o vazio em meu peito.
O celular vibrou novamente, persistente. Era Enzo. Quase deixei tocar, mas um lampejo de algo novo — frio, afiado e totalmente determinado — se agitou dentro de mim. Eu precisava agir, e a ação exigia informação. Atendi, minha voz um monótono cuidadosamente construído.
"Clarice? Onde você está?" Seu tom era ríspido, exigente. Nenhuma preocupação, apenas impaciência.
"Estou aqui", respondi, minha voz soando estranhamente oca para meus próprios ouvidos. "O que você quer?"
"Há um problema com o Jonas. Ele fez bagunça de novo. Kiara está arrasada." Suas palavras saíram atropeladas, revelando o mesmo velho padrão: Jonas, seu irmão mais novo e imprudente, causando problemas, e Kiara, sua cunhada 'frágil', precisando de proteção. A mesma velha história, mas agora com um buraco de verdade rasgado nela.
"E você vai consertar, como sempre", afirmei, não uma pergunta, mas uma observação amarga.
"Claro. Alguém tem que fazer. Ela é delicada, Clarice. Não como você." Suas palavras eram um elogio indireto, ou talvez, em sua mente, uma justificativa. Não como você. Ele estava certo. Eu não era delicada. Eu era uma arma sendo forjada no fogo.
Ele desligou abruptamente, já em movimento, provavelmente correndo para o lado de Kiara. Ele nem esperou minha resposta, não notou a mudança sísmica que acabara de ocorrer dentro de mim. Ele era tão cego, tão completamente consumido por sua ilusão de dever e proteção.
Um momento depois, meu celular apitou novamente. Uma mensagem de Enzo: "Me encontre. Não saia da cobertura." Uma ordem, como sempre.
Fui até a janela, o horizonte cintilante de São Paulo um contraste gritante com os escombros da minha vida. Minha mente acelerou, juntando fragmentos do passado. O escrutínio implacável de Elisa sobre minha falta de filhos, a evasividade de Enzo, as "preocupações" aparentemente inocentes de Kiara sobre meu comportamento "imprudente". Tudo se encaixou com uma clareza doentia.
Eu era o para-raios. Minha reputação de alto perfil e selvagem, cuidadosamente cultivada pela família de Enzo para absorver a ira e o escrutínio longe de Kiara. Kiara, a cunhada frágil, que era casada com seu irmão irresponsável Jonas. Kiara, que era o verdadeiro objeto de sua proteção distorcida. Kiara, a verdadeira vilã, que provavelmente orquestrou muitas das humilhações públicas que eu simplesmente suportei.
Lembrei-me da vez em que meu amado papagaio de estimação, Eco, misteriosamente voou por uma janela aberta em nossa cobertura bem segura. Enzo simplesmente deu de ombros, dizendo: "Ele era um pássaro selvagem de coração, Clarice. Ele encontrou sua liberdade." Kiara ofereceu um sacarino "Sinto muito, querida", enquanto seus olhos brilhavam com algo que agora reconheci como alegria maliciosa. Chorei por dias, e Enzo não ofereceu conforto, apenas uma observação distante sobre minha "natureza excessivamente emocional". Agora, eu sabia. Não foi um acidente.
Depois, houve o incidente com meu ateliê de arte, onde um aquecedor defeituoso causou um pequeno incêndio, resultando na necessidade de um enxerto de pele no meu braço. Kiara, sempre a imagem da preocupação, foi quem "descobriu" o incêndio, mas seus olhos continham um brilho estranho, quase triunfante, enquanto os paramédicos trabalhavam em mim. Enzo ficou furioso com os danos à propriedade, mas sua raiva foi direcionada à "negligência" da equipe, não ao dano potencial a mim. Mais tarde, ele descartou minha dor persistente com um aceno de mão, dizendo: "Artistas são dramáticos, Clarice. Uma cicatriz só adicionará caráter." Ele via meu sofrimento como uma estética, não uma ferida.
E os crimes financeiros. Os documentos forjados, as contas manipuladas que colocaram minha reputação e os negócios da minha família em risco. Enzo também bancou o herói, intervindo para "limpar meu nome", mas não antes de me deixar enfrentar a humilhação pública, as acusações. Ele usou minha reputação selvagem como uma cortina de fumaça, tornando fácil para o público acreditar que eu era capaz de tal imprudência. Ele orquestrou tudo meticulosamente, garantindo que eu arcasse com o peso do descontentamento de sua família e do julgamento do público, tudo para manter Kiara segura.
As peças do quebra-cabeça não estavam apenas se encaixando; estavam explodindo em minha mente, cada fragmento de verdade cortando mais fundo que o anterior. Ele acreditava que eu era forte o suficiente para aguentar. Ele acreditava que eu simplesmente absorveria os golpes e continuaria de pé. Ele estava prestes a aprender o quão errado estava.
Minhas mãos tremiam, mas não de medo. De raiva pura e incandescente. Isso não era mais desespero; era uma fúria fria e calculada. Meu amor por ele se transformou em veneno, um coquetel potente de ódio e um desejo inflexível por justiça. Ele tirou tudo de mim: meu afeto, minha confiança, meu futuro. Ele me usou como um escudo, um bode expiatório, uma distração.
Peguei meu celular, meus dedos voando pela tela. Liguei para meu pai, Fernando Neves. Ele era um poderoso magnata dos negócios do Rio, emocionalmente distante, mas ferozmente protetor dos seus. Ele me avisou sobre Enzo, desaprovou o casamento, mas eu estava cega de amor.
"Pai", eu disse, minha voz firme, não traindo nenhum do tumulto que se agitava dentro de mim. "Preciso da sua ajuda. Quero o divórcio. E quero queimar o império Almeida até o chão."
Houve um longo silêncio do outro lado, depois um suspiro profundo. "Clarice, o que aquele homem fez agora?" Sua voz estava tingida com uma exasperação familiar, mas por baixo dela, detectei uma centelha de preocupação, uma pitada do apoio inabalável que eu sabia que ele possuía, mesmo que raramente mostrasse.
"Tudo", eu disse, minha voz caindo para um sussurro perigoso. "Ele fez tudo. E vou fazê-lo se arrepender."
"Você tem certeza disso, Clarice? Os Almeida são dinheiro antigo, poder antigo. Isso não será fácil", ele advertiu, sua voz agora séria, o tom casual desaparecido.
"Tenho certeza. Quero que ele perca tudo. Seu império, sua reputação, sua paz. Tudo o que ele preza", afirmei, as palavras jorrando com uma convicção arrepiante. "E se você não me ajudar, farei isso sozinha, e garantirei que o nome Viana afunde com os Almeida."
Outro silêncio, mais pesado desta vez. Meu pai sabia que eu era capaz disso. Ele conhecia o fogo que ardia dentro de mim, o mesmo fogo que ele próprio possuía. Ele sempre o viu, mesmo quando não aprovava sua direção.
"Tudo bem, Clarice", ele finalmente disse, sua voz sombria. "Conte-me tudo. E então, começaremos."
Um sorriso frio tocou meus lábios. "Ah, estamos apenas começando, pai. Ele pensou que eu era um defletor. Ele está prestes a aprender que sou uma destruidora."
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