
Meu Casamento: Um Milhão de Mentiras
Capítulo 3
Ponto de Vista de Clarice Viana:
As palavras do meu pai, "começaremos", eram um eco arrepiante no silêncio ensurdecedor da cobertura. O peso de seu consentimento, a promessa implícita de liberar os formidáveis recursos da família Viana, me aterrorizava e me excitava. Estava feito. A decisão estava tomada. Não havia volta.
Minhas mãos, ainda tremendo levemente, se fecharam em punhos. Fechei os olhos, imaginando o rosto impassível de Enzo, suas palavras desdenhosas. Forte o suficiente para aguentar. Eu lhe mostraria o quão forte eu realmente era, forte o suficiente para desmontar seu mundo cuidadosamente construído, peça por peça.
Eu precisava clarear a cabeça, anestesiar as bordas cruas da minha dor, mesmo que por algumas horas. Peguei meu celular novamente, rolei pelos contatos e liguei para Lina, minha amiga mais antiga, uma colega artista que entendia meu espírito volátil melhor do que ninguém. "Lina, preciso de uma bebida. Uma bem forte. Me encontre no Velvet Club, agora."
Uma hora depois, cercada pela batida pulsante da música e pela conversa de estranhos, senti uma frágil sensação de alívio. O álcool queimava, mas era um fogo bem-vindo em comparação com o gelo em minhas veias. Lina, com os olhos arregalados de preocupação, ouviu enquanto eu contava os pontos principais da minha decisão.
"Você vai mesmo terminar?", ela perguntou, sua voz mal audível sobre a música, mas seu choque era palpável. Ela sabia o quanto eu havia investido neste casamento, o quão desesperadamente eu queria que desse certo.
"Nunca foi real, Lina", eu disse, as palavras com gosto de cinzas. "Apenas uma farsa. Um escudo para a preciosa Kiara dele."
Ela ofegou, a mão voando para a boca. "Clarice... sinto muito."
"Não sinta", eu disse, minha voz mais firme do que eu me sentia. "Fique com raiva. Esteja pronta para assistir aos fogos de artifício."
De repente, a música parou. As luzes piscaram, depois diminuíram, banhando o lounge em um brilho vermelho e sinistro. Um silêncio caiu sobre a multidão, substituído por sussurros urgentes. Uma figura alta e imponente em um terno escuro e impecável atravessou a multidão que se abria, seus olhos varrendo a sala com uma intensidade desconcertante. Era o Sr. Dantas, o chefe de segurança de Enzo.
Seu olhar pousou em mim, afiado e inabalável. "Sra. Almeida, o Sr. Almeida exige sua presença imediata."
Meu maxilar se contraiu. Enzo. Sempre Enzo. Mesmo agora, ele buscava controlar. "Eu não sou a Sra. Almeida", retruquei, minha voz soando com um desafio recém-descoberto. "E não vou a lugar nenhum."
O rosto do Sr. Dantas permaneceu impassível, mas sua postura endureceu. Mais dois homens, igualmente imponentes, materializaram-se atrás dele. "Com todo o respeito, Sra. Almeida, isto não é um pedido."
Lina começou a protestar, mas apertei seu braço, um comando silencioso para que ela ficasse fora disso. "Você acha que pode simplesmente entrar aqui e me arrastar para fora?", zombei, uma risada amarga borbulhando. "É assim que ele 'protege' sua flor delicada? Mandando seus capangas?"
Antes que eu pudesse terminar, o Sr. Dantas se moveu, rápido e eficiente. Ele agarrou meu braço, seu aperto como aço. Lutei, minha raiva explodindo, mas seu domínio era inquebrável. O lounge, antes um refúgio, agora parecia uma jaula. Eu estava sendo removida à força, não uma escolta gentil, mas um sequestro à vista de todos. Sussurros nos seguiram, olhares de julgamento. A humilhação era um gosto familiar e amargo.
Fui empurrada para dentro de um SUV preto que esperava, a porta batendo atrás de mim. A última coisa que vi foi o rosto horrorizado de Lina, depois o borrão das luzes da cidade.
Acordei com o cheiro de antisséptico e madeira velha. Minha cabeça latejava, e uma dor surda ressoava pelo meu corpo. Eu estava deitada em uma cama estreita em um quarto mal iluminado, as paredes nuas e frias. A porta rangeu ao abrir, e Elisa Almeida, a mãe de Enzo, apareceu na soleira, seu rosto uma máscara de desaprovação.
"Clarice", ela disse, sua voz uma repreensão baixa e arrepiante. "Seu comportamento é inaceitável. Uma mulher Almeida não causa cenas públicas. Você está trazendo vergonha para esta família."
Eu me levantei, gemendo enquanto meus músculos protestavam. "Vergonha? Você quer falar sobre vergonha?", retruquei, uma nova onda de fúria me invadindo. "E a vergonha de uma família construída sobre mentiras e manipulação? E a vergonha de um marido que se castra secretamente e usa sua esposa como escudo humano?"
Seus olhos se arregalaram ligeiramente, uma rara rachadura em sua compostura gélida, mas rapidamente desapareceu. "Você está histérica. Precisa entender seu lugar. Kiara é vulnerável. Ela precisa de proteção. Você, Clarice, é um animal selvagem. Sempre foi, sempre será."
Uma risada fria e sem alegria escapou dos meus lábios. Animal selvagem. Eles sempre me viram assim. Uma criatura a ser domada ou, se isso falhasse, exilada. "Um animal selvagem, de fato", murmurei, meu olhar endurecendo. "E animais selvagens revidam."
"Enzo está ocupado lidando com sua última desgraça", Elisa continuou, ignorando minhas palavras. "Ele não tem tempo para seus histerismos. Você ficará aqui até aprender a se comportar."
"Quero ver o Enzo", exigi, minha voz tremendo com uma mistura de raiva e uma necessidade perversa de confronto.
"Ele se recusa a vê-la. Você já causou problemas suficientes", ela retrucou, seu tom desdenhoso. "Agora, fique quieta. Talvez um pouco de solidão lhe ensine o valor da obediência." Ela se virou para sair, suas costas retas como uma vara.
Minha mente girava. Todos aqueles anos, todas as vezes que engoli seus insultos, acreditei em suas mentiras. Eu o amei, amei de verdade, apesar de tudo. Lutei pelo nosso amor, pelo meu lugar nesta família, apenas para ser descartada como um brinquedo quebrado. A injustiça de tudo isso era um peso sufocante.
"Eu disse, quero ver o Enzo!", gritei, minha voz rouca. Saí da cama, minhas pernas instáveis, e me lancei em direção a ela. Eu não me importava mais com as consequências. Só me importava em fazê-los ver, fazê-los sentir.
Elisa se virou, seus olhos ardendo de fúria. "Como ousa! Sua ingrata miserável!" Ela levantou a mão, pronta para me bater.
Encarei seu olhar, sem vacilar. "Vá em frente. Me bata. Não seria a primeira vez que esta família põe as mãos em mim." Minhas palavras eram um desafio direto, o clímax de anos de raiva reprimida.
Sua mão caiu, mas seus olhos se estreitaram com um brilho perigoso. "Você requer medidas mais... persuasivas." Ela latiu ordens para os guardas que apareceram de repente atrás dela, seus rostos sombrios. "Ensinem-lhe respeito. Ensinem-lhe obediência."
As horas seguintes foram um borrão de dor. Meu corpo se tornou uma tela para suas lições, cada golpe um lembrete gritante de seu poder, de sua crueldade. Recusei-me a gritar, recusei-me a dar-lhes a satisfação. Meus dentes cravaram em meu lábio, o gosto metálico do meu próprio sangue um pequeno conforto na tempestade. Eu não quebraria. Eu não cederia.
Finalmente, a escuridão me reivindicou. Eu a acolhi, uma fuga temporária da agonia física e do desespero esmagador.
Acordei lentamente, o som distante de vozes abafadas filtrando em minha consciência. Meu corpo doía com uma pulsação surda e persistente. Senti gosto de ferro na boca. Eu ainda estava no mesmo quarto estéril, mas senti uma presença diferente. Abri lentamente os olhos, gemendo com as luzes fortes, semelhantes às de um hospital.
As vozes estavam mais claras agora, vindo de fora da porta. Enzo. E Kiara.
"Ela é um canhão solto, Enzo. Você tem que controlá-la", a voz de Kiara, geralmente suave, estava tingida com um veneno que eu conhecia muito bem.
"Eu sei, Kiara. Estou cuidando disso. Ela está... sendo disciplinada", respondeu Enzo, sua voz calma, distante. Disciplinada. Era assim que ele chamava? Meu corpo gritava em protesto, um testemunho de sua "disciplina".
"Mas e se ela contar? E se ela nos expor?", Kiara choramingou, sua fachada frágil mal se sustentando. "Ela é tão volátil. Tão dramática."
"Shhh", Enzo acalmou, sua voz de repente espessa com uma ternura que ele nunca me ofereceu. "Está tudo bem, minha querida. Eu cuidarei de tudo. Eu prometi que cuidaria. Você é minha prioridade. Sempre."
Ouvi seus dedos traçando o braço dela, um gesto de conforto, de intimidade. Meu fôlego engasgou. Era isso. A prova absoluta e inegável. Ele estava fazendo isso por ela. Ele a estava protegendo. Ele sempre a protegeu.
Uma onda de náusea me invadiu, misturando-se com a agonia ardente em meu coração. Ele era responsável por isso. Ele permitiu meu sofrimento, orquestrou minha humilhação, tudo por essa mulher manipuladora e 'frágil'. Meu corpo, machucado e espancado, pulsava com um novo tipo de dor, uma ferida emocional tão profunda que parecia um abismo.
Não, não dor. Raiva. Uma fúria fria e calculada que se tornaria minha estrela guia. Ele me estilhaçou, me reduziu a um peão em seu jogo. Mas um peão, uma vez liberto, poderia se tornar a rainha. E rainhas, eu sabia, jogavam para valer. Ele se arrependeria disso. Ele se arrependeria de cada momento em que me subestimou.
Você pode gostar





