
Mamãe de mentira
Capítulo 2
A casa cheirava a riqueza, móveis e eletrodomésticos de última geração estavam espalhados de maneira encantadora por toda a sala.
O segui até o escritório, que ficava atrás de uma porta lateral; era um lugar colorido e alegre, alguns quadros de modelos famosas vestindo as roupas de sua marca.
—Sente-se, Daniela... Como vê, a indústria é muito importante para mim e não vejo os funcionários apenas como um meio de produção, eu já fui um funcionário...
— Conheço esse seu discurso meritocrata e até o admiro por ter vencido, mas essas pessoas vão passar fome, consegue entender? Talvez uma pessoa com uma casa tão grande não entenda o que é não ter o que comer amanhã, mas...
— Eu entendo mais do que você, menina, por isso sei que o melhor é fechar e pagar a todos, uma pequena reserva pode mudar a vida deles... Imagina como seria se essas pessoas simplesmente não tiverem nada como reserva por um capricho seu?
— Capricho? — O encarei.
— Sim, você é jovem, pode depender dos pais...
— Não posso! — Saí do sério.
—Tem gente lá que é responsável por si mesma...
— Olha aqui, seu Antônio, eu...
— Me chame apenas de Antônio — Ele me interrompeu com a sobrancelha erguida num sinal de imposição.
— Olha aqui, Antônio. Eu sou uma pessoa que sempre se sustentou, ao contrário de você que tem boa vida. Eu sei o que é a fome e não acho que deixar de lutar seja uma opção, a fábrica pode crescer, mas se você a fechar, como tanto quer, na crise que o país enfrenta, a maioria daquelas pessoas não terão um emprego tão cedo.
— Com as indenizações terão tempo para procurar.
— Você cresceu sem ao menos se arriscar? — Ergui a sobrancelha.
— Eu não coloco ninguém em risco...
— Colocou quando colocou aquelas moças para cuidar da produção. Você há de convir que onde se ganha o pão não se come a carne, certo?
— Daniela, eu não comi nem pão, nem carne...
— Até parece... Vai nos dar os dois meses ou não? Você me enrolou demais...
— Eu já disse que não!
— O que esperar de patrão que não isso? — Ele deu dois passos em minha direção e coçou a barba, ele era tão bonito quanto egoísta.
— Você está sendo injusta comigo...
— Eu gostaria de estar mesmo.
— Daniela, me ouça, eu...
E a porta foi aberta tão rápido que eu mal percebi! Uma menina sorridente de janelinha entre os dentes estava parada na porta.
— Você disse Daniela, papai? É ela? — Ela era menor do que eu imaginava, e se jogou nos meus braços. — Mamãe, eu rezei tanto para você vir! Eu sabia, papai do céu me ouviu... Como você cheira bem...
Olhei para Antônio antes de falar a verdade que simplesmente se instalou em minha garganta, o olhar dele parecia vitrificado.
Eu poderia jurar que ele estava em pânico. A menina continuava a me puxar, como se quisesse colo, e ali notei que havia algo muito errado.
— Você está aí! Venha, Duda, temos de tomar banho...
— Olha vó Hilda, é a mamãe! Olha como a mamãe é linda! — O olhar dela procurou o do filho, que assentiu.
— Deixe a mamãe e venha tomar banho. Acha que sua mãe ficaria feliz em te abraçar suja de sorvete? Venha...
A menina me soltou, concordando com a avó.
— Verdade, vó Hilda, ela não me abraçou... — Ela já ia em direção à avó, mas ao sair parou na porta e me encarou. — Mamãe, não vá embora, eu já volto limpinha.
Quando a pequena saiu, fechando a porta, senti que meu pulmão respirava novamente.
— Ela não conhece a mãe? — perguntei para meu chefe e notei que ele chorava sem se dar conta. — Antônio?
— Não, não há nada para conhecer...
— Mas a sua esposa não está nos Médicos sem Fronteiras?
— Não. — Ele passou a mão pela barba. — Não faço ideia de onde ela possa estar... Daniela, eu aceito não fechar a fábrica. — A voz soou distante e fria. — Finja que é a mãe dela, apenas hoje, eu nunca vi minha filha tão feliz como nesse momento.
— Eu não entendi. Por um momento pensei que queria que me passasse por mãe de sua filha.
— É exatamente isso...
— Ela não vai notar?
— Não há retratos ou qualquer outra coisa que ela possa comparar. Além do mais, será só até ela adormecer...
— Antônio, você está me dizendo que ela não conhece a mãe?
— Não sou de falar da minha vida, mas quero que faça isso por mim, estou disposto a tudo. Daniela foi embora quando minha filha tinha apenas duas semanas de vida. Ela não podia viver com esse estorvo. Eu protegi minha filha até aqui; estava pensando em uma atriz, mas você serve...
— Uma atriz?
— Sim, vestida de médica. Era isso que eu vim fazer mais cedo, queria uma mãe postiça só por hoje, mas ela chegou antes da hora e confundiu as coisas...
— Uma mãe postiça? Olha, essa é a pior coisa que já ouvi na minha vida. Eu nunca faria isso...
— Ela precisa ver a mãe, eu juro que essa situação não é permanente e...
— Você vai fazer o quê?
— Talvez uma morte? Ela é órfã mesmo... Por favor, só o bolo, a gente corta e você vai embora...
— Isso é horrível. Meu Deus, eu nem sei o que falar...
— Por favor, Daniela, é apenas uma noite. Eu faço o que você disse sem reclamar. — Revirei os olhos e virei o rosto. — Olhe para mim, Daniela. Saiba que estou desesperado, não sou de implorar nada, mas estou te implorando.
Engoli em seco e o encarei.
— Minha filha é tudo para mim. — Ele mordeu os lábios. — Não ligo se tiver de me ajoelhar a seus pés, faço tudo o que for necessário.
— Tudo? Você vai manter os empregos que não podia bancar há meia hora para enganar uma criança? Por orgulho? Você vai mentir hoje por orgulho?
— É aniversário dela. — Ele parecia distante.
— Aniversário? Pelo que entendi essa criança vive uma mentira desde que nasceu... Essa menina vai crescer como? Achando que a mãe é um anjo e o pai é perfeito, sendo que nenhum se importa com ela? Eu não farei parte disso...
Girei nos calcanhares, ele correu e parou na minha frente.
— Está bem, você está certa, falarei a verdade, mas não hoje. — Para minha surpresa ele me abraçou apertado. —Me ajude, por favor, eu te imploro. Eu não sou um pai perfeito, mas amo a minha filha.
— Fale a verdade, ou contrate uma atriz, mas não conte comigo nisso.
Abri a porta e antes que pudesse sair Duda veio até mim.
— Mamãe, eu estava te esperando!
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