
Mamãe de mentira
Capítulo 3
— Você ia embora sem me dar tchau? Não ia nem ficar para me ajudar a cortar o bolo? — Os olhos amendoados estavam cheios de lágrimas.
— Não, eu ia exatamente atrás de você.
— Eu tomei banho, mamãe. — Ela cheirou o próprio pulso e me estendeu para que eu fizesse o mesmo. — A vovó me fez prometer que eu não ia aborrecer você com perguntas, e disse que você só veio para me ver rapidinho.
— Eu nunca perderia a oportunidade de ver você. — Ajoelhei-me diante dela, em um momento insano de coragem, e assumi o lugar da mãe que nunca tive. Eu a entendia, eu sabia o que aquelas lágrimas representavam.
— Eu te amo, mamãe. — E choramos juntas, uma dor que só quem não teve mãe entende. Estava dando a ela um abraço que esperei a minha vida inteira.
— Não vamos chorar, não é? — Sequei os olhos dela e em seguida fiz o mesmo com os meus.
— Eu morava na sua barriga. — Ela me olhou cheia de sabedoria infantil. — Foi a única vez que ficamos juntas.
A ergui no colo, enquanto um nó de sentimentos conflitantes me inundava o corpo e calava a minha voz.
Ela me arrastou até o quarto dela no andar superior, haviam variantes infinitas de bonecas e unicórnios.
Ela me mostrou uma boneca velha que estava em sua cama.
— Mamãe, eu sei que coisa velha não é presente, mas essa é a Lucinda, minha boneca de nanar. Eu quero que leve ela com você; a gente tem o mesmo cheiro, quando tiver saudade de mim, você vai poder sentir meu cheiro.
Ela era muito esperta. Isso não havia como negar.
— A mamãe não pode aceitar...
— Você não sente minha falta? — Ela lambeu o lábio inferior num gesto de nervoso.
— Sim, a mamãe sente, é que...
Ela pegou minha mão e me fez sentar com ela na cama.
— Você não ama mais o papai? É por isso que você não fica aqui?
— O quê?
— A mãe do Joaquim não ama o pai dele e foi embora com um homem que não usa camisa.
— Não é isso, foram outras coisas e...
A porta se abriu e Antônio entrou, me deixando aliviada.
— Duda, o papai estava preocupado com você. A vovó te deixou na sala de TV e você saiu...
— Estou com a minha mãe; sabia que minha mãe ama você, papai?
Senti meu rosto queimar quando ele me lançou um sorriso.
— Também amo a mamãe e nosso amor te trouxe para a terra. Duda, você pode deixar a mamãe se vestir e tomar um banho antes da festa?
Antônio me estendeu a mão, que aceitei de bom grado. Saímos do quarto e fomos em direção a outro, este maior e mais espaçoso. Os tons sóbrios emprestavam uma masculinidade que combinava com o perfume que tornava o ambiente altamente atraente.
Só percebi que ainda estava de mãos dadas com meu chefe quando ele me soltou e fechou a porta.
— Obrigado, estou tão aliviado que não sei sequer como agradecer...
— Ela disse que vai ter uma festa?
— Sim, só para familiares e amigos íntimos.
— Essas pessoas não conhecem a verdadeira Daniela?
— Não, a Daniela nasceu aqui em São Paulo, eu sou de Ipiaú, uma pequena cidade no sul da Bahia. Meus parentes que moram aqui agora só conhecem a mesma Daniela que a minha filha conhece, uma moça tímida que detestava fotografias e que me deixou para seguir a vocação.
— Você engana todo mundo? É isso?
— Eu mataria todo mundo pela minha filha, quanto mais mentir. Minto e não me arrependo, meu arrependimento maior foi não ter dito que a mãe tinha morrido, mas pensei que se ela voltasse isso seria complicado.
— E se ela voltar agora? Vier para a festa, por exemplo?
— Daniela se casou com um turco e vive na Europa. Pelo que sei, há filhos e a menor vontade de lembrar que existe alguém aqui com seu sangue...
— Agora a pouco você me disse que não fazia ideia de onde essa mãe estava e...
— Eu menti, gostou? Eu teria te contado qualquer história que fizesse você fingir que era a mãe dela. Você tem o mesmo nome, isso é um trunfo...
— Você me trouxe aqui com esse objetivo? — O encarei e ele riu.
— Não, mas cheguei a pensar nisso enquanto estávamos no carro. Tem mais...
— Mais? — Meneei a cabeça.
— Eu sou apaixonado por minha esposa, qualquer mulher nesse período foi apenas necessidade física, por isso nunca casei, nem tive namoradas. Na realidade não quero que minha filha tenha uma madrasta.
— E a Daniela te largou? E você sofre por isso, sei...
— Não, eu pinto nosso relacionamento como uma espera, então vou ter de colocar a mão na sua cintura durante a festa...
— Você o quê?
— Te abraçar, te olhar assim... — Ele se aproximou de mim e o olhar dele foi tão carregado de desejo que quase caí sentada no chão.
— Nada de abraços... — Tentei me manter segura.
— Dois meses e você contrata e demite quem quiser. Pode cuidar de cada detalhe do seu projeto para a empresa.
— Quem eu quiser?
— Se minha mão puder ficar assim durante alguns momentos... — A mão dele acarinhou minha cintura, meu olhar pousou na boca rosada. — Você pegou o espírito. Quem te vê agora até acha que você quer me beijar.
— Você está louco! — Soltei a mão dele da minha cintura e senti que ainda queimava com o toque, naquele momento parecia uma adolescente tola e impressionável.
— Apenas te elogiei.
— Sua mão na minha cintura só quando tiver gente presente. Eu quero três meses para apresentar lucro e você demite aquelas modeletes que você contratou.
— Certo. — Ele estendeu a mão num gesto de acordo, que eu correspondi. — Há um banheiro ali, naquela porta, nesse lado do closet tem algumas peças femininas, agulha e linhas, ajuste alguma que combine com seus sapatos. Quero ver se você é tão boa costureira quanto é chantagista. Eu te espero lá embaixo e, mais uma vez, obrigado.
Ele saiu fechando a porta atrás de si, peguei um dos vestidos e comecei a ajustá-lo na minha cintura.
Mal sabia naquele momento que a gente só escolhe começar a mentir. Não há o menor controle sobre quando parar.
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