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Capa do romance Libertado da Jaula Dourada

Libertado da Jaula Dourada

Leo viveu três anos como assistente e prisioneiro de Isabela Medeiros para salvar o pai doente. Após o falecimento dele, a única corrente que o prendia à herdeira se quebra. Mesmo após ser esfaqueado e preso injustamente para proteger a imagem de Thiago, o amante de Isabela, Leo é tratado como um objeto descartável. Cansado de humilhações e manipulações, ele decide romper todos os laços, partindo para Lisboa para recomeçar sua vida finalmente livre.
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Capítulo 2

Há três anos que vivo no apartamento de Isabela Medeiros.

Para ela, sou o Leo, o seu assistente pessoal, o seu "irmão mais velho".

Para mim, sou um prisioneiro.

A minha família, artesãos de Ouro Preto, está à beira da falência. A oficina e as terras que pertencem à nossa família há gerações estão na mira da gigante da mineração do pai dela.

O meu próprio pai tem uma doença pulmonar grave. O tratamento é no estrangeiro e custa uma fortuna.

Por isso, estou aqui.

Isabela entra na sala, acabada de sair do banho, enrolada numa toalha. O seu cabelo molhado escorre-lhe pelas costas.

Ela é linda, uma herdeira de 24 anos que todos os homens desejam. Figura carimbada nas festas de Trancoso e nos camarotes do Carnaval de Salvador.

Para mim, ela é apenas a minha carcereira.

No início, eu era apenas o seu assistente. Organizava a sua agenda, acompanhava-a a jantares de negócios, garantia que ela não se metia em problemas.

Ela chamava-me o seu anjo da guarda.

Mas uma noite, depois de uma festa em que bebeu demais, tudo mudou.

Ela arrastou-me para o seu quarto.

"Leo, fica comigo."

A sua voz era um sussurro embriagado.

Desde essa noite, o meu papel expandiu-se. Tornei-me o seu amante secreto, uma conveniência para quando ela se sentia sozinha.

A nossa relação é puramente transacional. O corpo dela em troca da sobrevivência da minha família.

Sinto-me humilhado, mas aguento. Pelo meu pai.

Esta noite, depois de fazermos amor, ela está deitada ao meu lado, a mexer no telemóvel com um sorriso que eu nunca vi dirigido a mim.

"O Thiago volta para o Brasil na próxima semana!"

A sua voz está cheia de uma euforia infantil.

Thiago Alves. O famoso jogador de futebol. O seu amor de infância.

O homem por quem ela é verdadeiramente obcecada.

Nesse momento, eu sei. O meu tempo aqui acabou.

O meu sacrifício já não tem propósito.

"Estou tão feliz, Leo," ela diz, virando-se para mim, os seus olhos a brilhar. "Ele finalmente vai voltar para mim."

Ela beija-me na bochecha, um gesto casual, como se eu fosse um peluche.

"Não fiques com ciúmes. Tu serás sempre o meu irmãozinho."

Eu não sinto ciúmes. Sinto alívio.

"Parabéns, Bela."

A minha voz soa oca até para os meus próprios ouvidos.

Levanto-me da cama e começo a vestir-me. O meu corpo move-se com uma eficiência mecânica.

"Onde vais?" ela pergunta, a sua voz ainda sonhadora.

"Vou para casa," respondo, a abotoar a camisa. "O meu trabalho aqui terminou."

Ela franze a testa, confusa. "Não sejas parvo. Vais continuar a ser o meu assistente. Preciso de ti para me ajudares a planear tudo para a chegada do Thiago."

"Não te preocupes com o dinheiro," ela acrescenta, casualmente. "Vou dizer ao meu pai para continuar a pagar o tratamento do teu pai e para deixar as vossas terras em paz. É o mínimo que posso fazer."

"Obrigado," digo, com um sarcasmo que ela não percebe.

Ela sorri, satisfeita. "Vês? Somos uma equipa."

Ela inclina-se e beija-me a orelha. "Agora sê um bom menino e espera por mim aqui. Vou tomar um duche rápido."

Eu fico parado, a olhar para a porta fechada da casa de banho. O som da água a correr é o som da minha liberdade a aproximar-se.

Pego no meu telemóvel para verificar os meus e-mails. Quero ter a certeza de que a minha demissão da empresa Medeiros foi processada.

Mas antes que eu possa abrir a aplicação, o meu telemóvel toca. É um número desconhecido.

Atendo.

"Leo? É a tua mãe."

A sua voz está embargada.

"Mãe? O que se passa?"

"O teu pai... ele faleceu esta manhã."

O mundo para. O som da água, os cheiros do quarto, tudo desaparece.

A única corrente que me prendia a Isabela partiu-se.

"Leo? Estás aí?"

"Estou, mãe. Eu... eu vou para casa."

Desligo a chamada.

A porta da casa de banho abre-se. Isabela sai, radiante.

"Leo, tive uma ideia brilhante! Vamos dar uma festa de boas-vindas para o Thiago no Copacabana Palace!"

Ela nem repara na minha expressão.

"Liga para o gerente. Reserva o salão principal. Quero tudo perfeito."

Ela atira-me uma toalha. "E limpa esta confusão. Não quero que o Thiago pense que ando a dormir com o pessoal."

Eu olho para ela, e pela primeira vez em três anos, não sinto nada. Nem raiva, nem humilhação. Apenas um vazio frio.

Pego na toalha e começo a limpar metodicamente a cama, apagando todos os vestígios da nossa intimidade forçada.

Depois, vou ao pequeno armário onde guardo as minhas coisas. Uma mala pequena. Três anos da minha vida cabem numa mala pequena.

O meu telemóvel vibra novamente. É o meu tio, o irmão do meu pai.

"Leo! O teu pai acabou de morrer e tu ainda estás aí a servir aquela gente rica? Volta para casa!"

A sua voz está cheia de raiva e dor.

"Eu sei," digo calmamente. "Estou a caminho."

"E o dinheiro? A empresa deles vai continuar a pagar?"

"Não," digo, a minha voz firme. "O acordo acabou."

"O quê?! Mas e a oficina? As terras?"

"A partir de agora, lutamos por nós mesmos."

"Estás louco? Vamos perder tudo!"

"O pai morreu," digo, e a realidade das palavras atinge-me com força. "Eles já não têm nada para nos ameaçar. Se eles tocarem num único centímetro da nossa terra, eu destruo a reputação da Isabela e da empresa dela. Tenho provas suficientes para os enterrar."

Um silêncio chocado do outro lado da linha.

"Leo..."

"Diz à mãe que estou a chegar."

Desligo e bloqueio o número dele também.

Pego na minha mala e saio do quarto.

Isabela está na sala, a falar ao telefone, a rir. Ela nem levanta os olhos quando passo por ela.

Saio do apartamento de luxo e chamo um táxi.

"Para o aeroporto, por favor."

No caminho, a minha mente vagueia. Lembro-me do dia em que o pai da Isabela me fez a proposta. Eu era um jovem artesão, orgulhoso do meu ofício. Ele viu o desespero nos meus olhos quando me falou da doença do meu pai e das dívidas da nossa família.

"O Leo salvou-me de uns assaltantes," foi a mentira que Isabela contou a todos. Uma mentira conveniente que me transformou no seu "herói" e me prendeu a ela.

Ela dependia de mim para tudo. Organizar a sua vida, resolver os seus problemas, ser a sua companhia constante. Em troca, ela dava-me presentes caros, gestos vazios que só aumentavam a minha sensação de ser uma posse.

Mas o seu coração sempre pertenceu a Thiago.

Lembro-me de a ver chorar durante semanas quando ele foi para a Europa.

Foi numa dessas noites que ela se embebedou e me levou para a sua cama pela primeira vez.

"Não me deixes sozinha, Leo," ela implorou.

E eu fiquei. Durante três anos.

Eu nunca a amei. Cada toque, cada momento íntimo, era uma tortura. Era um lembrete constante da minha impotência.

A morte do meu pai, por mais dolorosa que seja, é uma libertação.

Finalmente, posso ser eu mesmo outra vez.

No aeroporto, compro um bilhete só de ida para Belo Horizonte.

Enquanto espero pelo voo, o meu telemóvel de trabalho toca. É o chefe do departamento de recursos humanos da Medeiros.

"Leo? Recebi o seu e-mail de demissão. Isto é uma brincadeira?"

"Não," respondo. "É oficial."

"Mas... a Srta. Medeiros sabe disto? Ela vai ficar furiosa. Você é indispensável para ela."

Uma risada amarga escapa-me. "Ela vai ficar bem."

"Leo, pense bem. A empresa oferece-lhe um aumento..."

"Não, obrigado. Tenha um bom dia."

Desligo.

Olho pela janela do aeroporto, para os aviões a descolar.

Um capítulo da minha vida está a fechar. Um capítulo de cativeiro e humilhação.

Agora, começa a minha luta pela liberdade.

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