
Libertado da Jaula Dourada
Capítulo 2
Há três anos que vivo no apartamento de Isabela Medeiros.
Para ela, sou o Leo, o seu assistente pessoal, o seu "irmão mais velho".
Para mim, sou um prisioneiro.
A minha família, artesãos de Ouro Preto, está à beira da falência. A oficina e as terras que pertencem à nossa família há gerações estão na mira da gigante da mineração do pai dela.
O meu próprio pai tem uma doença pulmonar grave. O tratamento é no estrangeiro e custa uma fortuna.
Por isso, estou aqui.
Isabela entra na sala, acabada de sair do banho, enrolada numa toalha. O seu cabelo molhado escorre-lhe pelas costas.
Ela é linda, uma herdeira de 24 anos que todos os homens desejam. Figura carimbada nas festas de Trancoso e nos camarotes do Carnaval de Salvador.
Para mim, ela é apenas a minha carcereira.
No início, eu era apenas o seu assistente. Organizava a sua agenda, acompanhava-a a jantares de negócios, garantia que ela não se metia em problemas.
Ela chamava-me o seu anjo da guarda.
Mas uma noite, depois de uma festa em que bebeu demais, tudo mudou.
Ela arrastou-me para o seu quarto.
"Leo, fica comigo."
A sua voz era um sussurro embriagado.
Desde essa noite, o meu papel expandiu-se. Tornei-me o seu amante secreto, uma conveniência para quando ela se sentia sozinha.
A nossa relação é puramente transacional. O corpo dela em troca da sobrevivência da minha família.
Sinto-me humilhado, mas aguento. Pelo meu pai.
Esta noite, depois de fazermos amor, ela está deitada ao meu lado, a mexer no telemóvel com um sorriso que eu nunca vi dirigido a mim.
"O Thiago volta para o Brasil na próxima semana!"
A sua voz está cheia de uma euforia infantil.
Thiago Alves. O famoso jogador de futebol. O seu amor de infância.
O homem por quem ela é verdadeiramente obcecada.
Nesse momento, eu sei. O meu tempo aqui acabou.
O meu sacrifício já não tem propósito.
"Estou tão feliz, Leo," ela diz, virando-se para mim, os seus olhos a brilhar. "Ele finalmente vai voltar para mim."
Ela beija-me na bochecha, um gesto casual, como se eu fosse um peluche.
"Não fiques com ciúmes. Tu serás sempre o meu irmãozinho."
Eu não sinto ciúmes. Sinto alívio.
"Parabéns, Bela."
A minha voz soa oca até para os meus próprios ouvidos.
Levanto-me da cama e começo a vestir-me. O meu corpo move-se com uma eficiência mecânica.
"Onde vais?" ela pergunta, a sua voz ainda sonhadora.
"Vou para casa," respondo, a abotoar a camisa. "O meu trabalho aqui terminou."
Ela franze a testa, confusa. "Não sejas parvo. Vais continuar a ser o meu assistente. Preciso de ti para me ajudares a planear tudo para a chegada do Thiago."
"Não te preocupes com o dinheiro," ela acrescenta, casualmente. "Vou dizer ao meu pai para continuar a pagar o tratamento do teu pai e para deixar as vossas terras em paz. É o mínimo que posso fazer."
"Obrigado," digo, com um sarcasmo que ela não percebe.
Ela sorri, satisfeita. "Vês? Somos uma equipa."
Ela inclina-se e beija-me a orelha. "Agora sê um bom menino e espera por mim aqui. Vou tomar um duche rápido."
Eu fico parado, a olhar para a porta fechada da casa de banho. O som da água a correr é o som da minha liberdade a aproximar-se.
Pego no meu telemóvel para verificar os meus e-mails. Quero ter a certeza de que a minha demissão da empresa Medeiros foi processada.
Mas antes que eu possa abrir a aplicação, o meu telemóvel toca. É um número desconhecido.
Atendo.
"Leo? É a tua mãe."
A sua voz está embargada.
"Mãe? O que se passa?"
"O teu pai... ele faleceu esta manhã."
O mundo para. O som da água, os cheiros do quarto, tudo desaparece.
A única corrente que me prendia a Isabela partiu-se.
"Leo? Estás aí?"
"Estou, mãe. Eu... eu vou para casa."
Desligo a chamada.
A porta da casa de banho abre-se. Isabela sai, radiante.
"Leo, tive uma ideia brilhante! Vamos dar uma festa de boas-vindas para o Thiago no Copacabana Palace!"
Ela nem repara na minha expressão.
"Liga para o gerente. Reserva o salão principal. Quero tudo perfeito."
Ela atira-me uma toalha. "E limpa esta confusão. Não quero que o Thiago pense que ando a dormir com o pessoal."
Eu olho para ela, e pela primeira vez em três anos, não sinto nada. Nem raiva, nem humilhação. Apenas um vazio frio.
Pego na toalha e começo a limpar metodicamente a cama, apagando todos os vestígios da nossa intimidade forçada.
Depois, vou ao pequeno armário onde guardo as minhas coisas. Uma mala pequena. Três anos da minha vida cabem numa mala pequena.
O meu telemóvel vibra novamente. É o meu tio, o irmão do meu pai.
"Leo! O teu pai acabou de morrer e tu ainda estás aí a servir aquela gente rica? Volta para casa!"
A sua voz está cheia de raiva e dor.
"Eu sei," digo calmamente. "Estou a caminho."
"E o dinheiro? A empresa deles vai continuar a pagar?"
"Não," digo, a minha voz firme. "O acordo acabou."
"O quê?! Mas e a oficina? As terras?"
"A partir de agora, lutamos por nós mesmos."
"Estás louco? Vamos perder tudo!"
"O pai morreu," digo, e a realidade das palavras atinge-me com força. "Eles já não têm nada para nos ameaçar. Se eles tocarem num único centímetro da nossa terra, eu destruo a reputação da Isabela e da empresa dela. Tenho provas suficientes para os enterrar."
Um silêncio chocado do outro lado da linha.
"Leo..."
"Diz à mãe que estou a chegar."
Desligo e bloqueio o número dele também.
Pego na minha mala e saio do quarto.
Isabela está na sala, a falar ao telefone, a rir. Ela nem levanta os olhos quando passo por ela.
Saio do apartamento de luxo e chamo um táxi.
"Para o aeroporto, por favor."
No caminho, a minha mente vagueia. Lembro-me do dia em que o pai da Isabela me fez a proposta. Eu era um jovem artesão, orgulhoso do meu ofício. Ele viu o desespero nos meus olhos quando me falou da doença do meu pai e das dívidas da nossa família.
"O Leo salvou-me de uns assaltantes," foi a mentira que Isabela contou a todos. Uma mentira conveniente que me transformou no seu "herói" e me prendeu a ela.
Ela dependia de mim para tudo. Organizar a sua vida, resolver os seus problemas, ser a sua companhia constante. Em troca, ela dava-me presentes caros, gestos vazios que só aumentavam a minha sensação de ser uma posse.
Mas o seu coração sempre pertenceu a Thiago.
Lembro-me de a ver chorar durante semanas quando ele foi para a Europa.
Foi numa dessas noites que ela se embebedou e me levou para a sua cama pela primeira vez.
"Não me deixes sozinha, Leo," ela implorou.
E eu fiquei. Durante três anos.
Eu nunca a amei. Cada toque, cada momento íntimo, era uma tortura. Era um lembrete constante da minha impotência.
A morte do meu pai, por mais dolorosa que seja, é uma libertação.
Finalmente, posso ser eu mesmo outra vez.
No aeroporto, compro um bilhete só de ida para Belo Horizonte.
Enquanto espero pelo voo, o meu telemóvel de trabalho toca. É o chefe do departamento de recursos humanos da Medeiros.
"Leo? Recebi o seu e-mail de demissão. Isto é uma brincadeira?"
"Não," respondo. "É oficial."
"Mas... a Srta. Medeiros sabe disto? Ela vai ficar furiosa. Você é indispensável para ela."
Uma risada amarga escapa-me. "Ela vai ficar bem."
"Leo, pense bem. A empresa oferece-lhe um aumento..."
"Não, obrigado. Tenha um bom dia."
Desligo.
Olho pela janela do aeroporto, para os aviões a descolar.
Um capítulo da minha vida está a fechar. Um capítulo de cativeiro e humilhação.
Agora, começa a minha luta pela liberdade.
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