
Libertado da Jaula Dourada
Capítulo 3
A primeira coisa que faço quando chego a Ouro Preto é ir ao cemitério.
O túmulo do meu pai ainda está fresco. A terra remexida.
Fico ali parado, em silêncio, durante horas. Não choro. A dor é demasiado profunda para lágrimas.
Depois, vou para casa. A minha mãe abraça-me, o seu corpo frágil a tremer.
"Ele foi-se, Leo."
"Eu sei, mãe."
Nos dias seguintes, mergulho no trabalho. A nossa oficina está coberta de pó. As ferramentas do meu pai estão onde ele as deixou.
Pego num pedaço de madeira e começo a esculpir. As minhas mãos, que passaram os últimos três anos a marcar compromissos e a servir champanhe, lembram-se do seu verdadeiro propósito.
Eu desfaço-me de tudo o que me liga a Isabela. Vendo os relógios caros, os fatos de marca. Envio o dinheiro para a minha mãe.
Mudo de número de telemóvel. Corto todos os laços.
Uma semana depois, estou a lixar uma escultura quando o meu antigo telemóvel de trabalho, que eu tinha esquecido numa gaveta, vibra.
É uma mensagem de um número desconhecido.
"Sei o que fizeste. Vais pagar por isso."
Não reconheço o número. Ignoro. Provavelmente um engano.
Minutos depois, o telemóvel toca. É Isabela.
Como é que ela conseguiu este número?
Hesito, mas depois atendo.
"Leo! Onde te meteste? Estou à tua procura há uma semana!"
A sua voz é uma mistura de alívio e irritação.
"Estou ocupado, Isabela."
"Ocupado? Mais ocupado do que eu? O Thiago está de volta! Estamos juntos! Não imaginas como estou feliz!"
A sua alegria é palpável, e completamente irrelevante para mim.
"Vem ter comigo ao shopping Cidade Jardim. Preciso da tua ajuda para escolher um presente para ele."
Ela não pergunta. Ela ordena.
"Não posso."
"Não sejas ridículo. Pego-te em vinte minutos."
Ela desliga antes que eu possa responder.
Fico a olhar para o telemóvel, uma sensação de déjà vu a percorrer-me.
Vinte minutos depois, um carro de luxo preto para em frente à oficina.
Isabela sai, a sorrir.
"Entra. Temos muito que fazer."
Eu não me movo.
"Isabela, eu demiti-me. E o meu pai morreu."
A sua expressão muda. O sorriso desaparece, substituído por uma breve centelha de... culpa?
"Oh. Eu... eu não sabia. Os meus pêsames."
Ela parece genuinamente desconfortável por um momento.
"Mas isso não muda nada. Continuas a ser meu amigo, certo? E eu preciso do meu amigo agora."
Ela aproxima-se e pega na minha mão. "Por favor, Leo. Só hoje."
Contra o meu bom senso, eu cedo. Talvez seja a última vez. Um último favor para fechar este capítulo para sempre.
No shopping, ela arrasta-me de loja em loja. Cartier, Rolex, Prada.
Ela experimenta um relógio de ouro. "O que achas? O Thiago ia gostar disto?"
"É bonito," digo, sem emoção.
"Não, não é a cara dele." Ela pousa o relógio. "Vamos àquela loja de fatos."
Dentro da loja, ela pega num fato azul escuro. "Este. O teu tamanho, certo?"
"O meu tamanho? Pensei que o presente era para o Thiago."
Ela ri. "É para ti, parvo. Para usares na festa de noivado."
O meu sangue gela. "Noivado?"
"Sim! Eu e o Thiago vamos ficar noivos! Não é maravilhoso?"
Ela relata com entusiasmo como ele a pediu em casamento, como tudo é perfeito.
Eu sinto-me um idiota.
Enquanto ela fala, a mensagem de texto maliciosa volta à minha mente. "Sei o que fizeste. Vais pagar por isso."
Poderia ser de Thiago? Um aviso?
"Bela," interrompo-a. "Tens a certeza sobre o Thiago? Ele parece... diferente."
Tento avisá-la subtilmente. Sei da reputação dele na Europa. Histórias de festas, de mulheres, de um temperamento violento.
A sua expressão endurece instantaneamente.
"O que estás a insinuar, Leo? Que ele não é bom o suficiente para mim?"
A sua voz é fria. "Não voltes a falar mal dele. Ele é o homem da minha vida. Se não o podes apoiar, então não preciso de ti."
Eu recuo. Percebo que ultrapassei um limite. Para ela, o Thiago é sagrado.
"Desculpa. Só estou preocupado contigo."
"Não precisas de te preocupar," ela diz, a sua voz a suavizar um pouco. "Agora, ajuda-me a escolher uma gravata para este fato."
Eu concordo, derrotado.
Enquanto escolho uma gravata, ela olha para mim com curiosidade.
"Não estás com ciúmes? Nem um bocadinho?"
Eu olho para ela. Nos seus olhos, vejo a suposição arrogante de que eu devo amá-la, de que o meu mundo gira à sua volta.
Antes que eu possa responder, o telemóvel dela toca.
É o Thiago.
"Bela! Socorro! Uns tipos estão a tentar raptar-me!" A voz dele soa a pânico.
O rosto de Isabela fica pálido.
"Onde estás, Thiago?"
"Estou no estacionamento! Anda depressa!"
Ela desliga e corre para a porta, completamente em pânico.
Na sua pressa, ela esbarra em mim com força, derrubando-me. A minha cabeça bate numa prateleira de metal.
Sinto uma dor aguda e o calor do sangue a escorrer pela minha testa.
"Leo!"
Por um segundo, penso que ela vai ajudar-me.
Mas ela apenas olha para mim, depois para a porta. A sua hesitação dura menos de um segundo.
"Desculpa," ela murmura, e corre para fora da loja, deixando-me no chão, a sangrar.
Ela corre para salvar o seu príncipe encantado.
E eu, mais uma vez, sou apenas um dano colateral.
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