
Legionário
Capítulo 2
Amir Laforge
Sou o capitão Amir Laforge, tenho 37 anos. Alistei-me na Legião Estrangeira há sete anos. Faço parte da terceira geração de militares da minha família. Todavia, ser um Legionário não foi minha primeira opção. Das forças armadas, a menina dos meus olhos sempre foi a Aeronáutica, a imponência dos aviões-caça, a sensação de estar livre em pleno voo e, com isso, ter a responsabilidade de proteger os céus da minha pátria, enquanto protegia também a minha família. Era isso que me movia, que me fazia seguir em frente... Até que meu mundo foi virado do avesso, após retornar de uma missão, não fui capaz de cumprir minha missão pessoal, minha promessa, meu objetivo pessoal: proteger a minha família que mal tinha começado a se formar como tal. Desde então, culpa e sofrimento me acompanham... Por isso, encontrei um propósito na Legião, para aplacar meu sofrimento e, ao mesmo tempo, fazer justiça, ter paz.
Minha meta agora é a Legião= Honneur et Fidelité. Não tolero crimes contra a família, principalmente, contra crianças. Embora em minha vida não tenha mais espaço para esses assuntos. Meus já se foram, sou filho único. Não me envolvo mais seriamente, prefiro encontros casuais. Adoro um belo rabo de saia.
Acabei de voltar de uma missão na fronteira do Turquemenistão com o Afeganistão. Foram seis longos meses analisando, estudando a movimentação dos soldados talibãs e montando estratégias para libertarmos o vilarejo do domínio talibã. Eles recrutavam crianças e adolescentes para seu exército.
— Oh putains!!! Crianças! Deixem-nas ser crianças e brincar em paz!...
A missão foi um sucesso. Meus homens e eu chegamos à base, estamos de volta. Agora preciso relaxar! Preciso de uma bebida e comida decentes. A comida enlatada das missões, além de escassas, não são nada saborosas. Talvez arranje um encontro casual, se rolar aquela química com uma bela mulher, não vou me fazer de rogado, afinal são longos seis meses sem sexo, preciso espairecer, me aliviar e não há nada melhor no mundo, para relaxar, do que sexo. Sexo é vida, contudo, jamais pago por sexo!
19h00...
Vou com alguns dos meus homens para um bar, nos arredores de Marselha. Estaremos de licença pelos próximos cinco dias. Depois voltaremos às nossas atividades e treinamentos na base.
— Amanhã volto pra casa. Poderei aproveitar esta folga para acompanhar minha gata em sua consulta pré-natal. Ela já está no sétimo mês. — comenta todo empolgado Sargento Legrand, meu braço direito — Esperamos, dessa vez, saber o sexo do bebê; apesar de que tenho certeza de que é ma petite princesse (princesinha em francês). Ela está esperando por mim.
— Já eu, vou surpreender minha mãe em seu aniversário... Ela ainda não sabe que já voltei da missão. Melhor presente que esse, ela nunca vai encontrar... — declara todo convencido o novato Thierry.
— Olha isso, Laforge, o novato está se achando a última bolacha do pacote!... E o capitão, para onde vai? — questiona Étienne, meu braço esquerdo. Não consigo imaginar minha vida na legião sem eles. É incrível a facilidade com que nossa sintonia em campo se formou. Eu, Legrand, Étienne e, até mesmo o novato Thierry, somos bons no que fazemos, apenas um olhar e já podemos prever o próximo passo um do outro.
— Continuarei por aqui, sou avulso... vou aonde o vento me levar... só sigo o fluxo, soldados... — respondo saindo de meus devaneios. — Santé, messieurs! — E brindamos tomando nossas bebidas.
Naquela noite, bebemos, jogamos sinuca, celebramos nosso retorno sem baixas. Os avulsos, como eu, procuraram encontros casuais ou, quem sabe, para os mais românticos, suas caras metades, encerrando a noite em grande estilo. Os demais foram pra casa, atrás de suas mulheres... Seis meses longe de casa, longe do conforto de nossas camas, da convivência com os seus familiares.
Somos uma grande família que acolhe soldados do mundo todo. Mais que formar soldados altamente capacitados para os mais variados tipos de conflito, a Legião transforma vidas, abre novos horizontes ou, simplesmente, preenche espaços vazios de pessoas quebradas como eu.
A noite foi agradável, estar celebrando com meus homens traz um breve alívio ao peso que carrego em meu peito. Eles, agora, são minha única família; os quais defendo e sempre defenderei com unhas e dentes!
Dois dias depois...
6h00
Sou acordado pelo som do toque do meu celular ecoando pelo quarto. Minha cabeça dói, ou melhor, ela pulsa como se fosse a bateria de uma escola de samba que vi no Brasil, uma vez. Com dificuldade, abro os olhos e verifico quem é o imbecil que ousa atrapalhar o meu momento de reflexão alcoólica. Cheguei em casa há menos de duas horas. "Merde!!!" É o coronel Trousseau, boa coisa não deve ser. Sem outra alternativa, atendo no quinto toque:
— Capitão Laforge, dirija-se imediatamente à sala de comandos estratégicos, precisamos conversar...
— Bom dia, coronel! Sim, estou muito bem aproveitando meus dias de folga, senhor.
— Deixe as amenidades para depois Laforge! A situação é crítica!
— Sim, senhor! Estou a caminho! – minha intuição me diz que a minha dor de cabeça pode atingir proporções estratosféricas, somente pelo seu tom de voz do velho Trousseau ao telefone.
Merde! Que dor de cabeça desgraçada!!! Sabia que aquela última garrafa de tequila ia dar ruim, mas não sou de fugir de desafios, mesmo os mais estúpidos, como aquela competição de shots de tequila. Sem contar a loiraça que cruzou o meu caminho... Tomo um banho gelado, preciso eliminar a ressaca do meu corpo, faço minha higiene matinal, coloco meu uniforme. Admiro a visão do deus do ébano, refletida em meu espelho. Oh la la! E então, flashs da noite passada me fazem sorrir satisfeito. É inacreditável o poder de sedução que um uniforme militar tem sobre algumas mulheres. As famosas Maria-coturnos fazem fila pra ter seu momento com um certo capitão da Legião Estrangeira. Saio de meus devaneios, tenho que ser rápido. Tomo um café forte para me despertar de vez. Que droga!!! Acabaram-se os analgésicos, preciso de um com urgência, tenho que me livrar dessa dor lancinante. Entro no carro e dirijo apressado para encontrar o comandante. Essa ligação repentina, me preocupa. Ele nunca, nesses sete anos servindo à Legião, interrompeu uma licença pós-missão dos nossos homens. Antecipando a gravidade da missão, envio uma mensagem para o meu esquadrão:
Cap. Laforge — Licença revogada, senhoritas! Estou indo coletar informações. Preparem-se e encontrem-me na base, sala de assuntos estratégicos, em duas horas! Não se atrasem!
Legrand — sim, chefe!
Étienne — sim, chefe!
Thierry — sim, capitão!
Soldados — sim, capitão!
Ao entrar no prédio, sou saudado e saúdo com continências os soldados e oficiais que entram e saem do local. Estou apreensivo e prenunciando a piora da minha dor de cabeça. Por isso, abro meu melhor sorriso, para a bela estagiária que trabalha na recepção, a fim de que ela me arrume um comprimido analgésico:
— Bom dia, Mademoiselle Bélier, como está? — ela me olha acanhada e eu continuo: — Vim atender um chamado urgente do coronel Trousseau. Mas antes disso, você poderia me fornecer um comprimido analgésico, que você providencialmente deve ter em sua bolsa?
Ela abre um sorriso encabulado, mas os olhos brilham de antecipação. Ela prontamente vasculha sua bolsa, até encontrar a salvação da minha dor de cabeça. Num gesto cavalheiresco, beijo-lhe o dorso da mão, ela fica com a face enrubescida. Sorrio de lado... "pelo amor de Deus, foi só um beijo de agradecimento pela gentileza, nada mais que isso." — Mulheres! Tão fáceis de agradar...
— Obrigada, senhorita! Você me salvou da minha dor de cabeça! — ela continua sorrindo.
— Laforge, pare de se engraçar com a nova recepcionista e me acompanhe! — o comandante me chama irritado.
Sigo seus passos até a sala de guerra, parando no bebedouro do corredor para pegar água e tomar o comprimido que vai salvar o meu dia. Enquanto isso, começo a imaginar as possíveis situações que levaram a este chamado, perdido em meus pensamentos me questiono: — Quem será o puto de merda que teremos que neutralizar desta vez? Seja lá quem for, está com seus dias contados...
Você pode gostar





