
Legionário
Capítulo 3
Éveline
Caminho pelo longo corredor do centro de operações da inteligência que me leva até o gabinete do Comandante Charles Rosiet. Meu oficial superior e mentor é um homem na casa dos seus cinquenta e oito ou sessenta anos, um metro e oitenta de altura, ainda está em forma, mas a idade começa a cobrar o seu preço começando pela barriguinha que começar a ficar saliente e por seus cabelos que estão esbranquiçados e as entradas da calvície já são mais profundas que há três anos. Homem austero, justo e que já serviu em inúmeras missões defendendo as pessoas de nosso país. Bato à porta, solicitando permissão para adentrar:
— Deixe de formalidades Girauld, afinal de contas fui eu quem te chamei.
— Certo, comandante. Então, em que posso ajudá-lo? O senhor me parece preocupado...
— Recebi os relatórios preliminares da sua última missão e, também, acompanhei alguns dos interrogatórios que os membros da sua equipe conduziram. As informações são preocupantes. A cúpula do Conselho de Segurança Nacional está me cobrando medidas drásticas. Eles querem uma ação imediata, estão até mesmo cogitando a possibilidade de uma força-tarefa. Mas confesso que ainda não me sinto à vontade com essa opção. Precisamos ir com cuidado, pensar uma estratégia bem articulada, não podemos falhar, pois muitas vidas estão em jogo...
— Entendo e compartilho de sua preocupação. Se me permite dizer, essas informações ainda estão um pouco desencontradas. Não há provas que sejam consistentes o suficiente para justificar a formação de uma força-tarefa, principalmente por não termos o essencial para tal...
— E isso seria?... O que está sugerindo, tenente? — ele me questiona interrompendo a minha fala.
— Ora, comandante, até agora só pegamos os peixes menores. Nossa meta deve ser os tubarões. É necessário agir com cautela, conhecermos nosso inimigo.
— Você realmente é uma excelente estrategista! Sabia que não estava enganado sobre você.
O comandante Rosiet foi um dos meus treinadores durante minha formação militar. Sempre foi muito exigente e sabia reconhecer o esforço e as habilidades de todos os seus recrutas. Apesar de todo o rigor dos treinamentos, sempre tinha uma palavra de consolo ou motivação para todos. Suas condecorações e medalhas de honra ao mérito são reflexo de toda sua dedicação e profissionalismo.
— Ouvi os rumores de que o alto escalão já quer formar uma força-tarefa. É sobre isso que deseja falar?
— Você é a favor da força-tarefa?! — pergunta ele chocado. — Nunca pensei que você aceitaria isso numa...
— Nem pensar... — interrompo sua fala, mostrando todo meu desespero sobre essa situação. — Digo... perdão, comandante. Muito pelo contrário.
— E qual seria sua proposta de solução?
— Permita-nos iniciar as investigações com as pistas e confissões que conseguimos. Precisamos, ao menos, saber o nome do suposto chefe do crime.
— Não será nada fácil convencê-los disso. Tem certeza que isso trará resultados?
— Um mês, chefe. É tudo o que peço. Se, depois deste prazo, não avançarmos nas investigações, criamos a força tarefa e que Deus nos ajude!!!
Ele sorri assentindo com a cabeça e completa:
— Estou apostando todas as minhas fichas em você e sua equipe, Tenente Girauld. Se tudo der certo, após esta missão finalmente me aposentarei.
— Farei o meu melhor, senhor!
— Não espero menos que isso. — diz sentando-se em sua cadeira e acendendo seu famoso charuto. — Já vou começar a planejar minhas férias, Edith ficará muito feliz.
— Bien sûr, comandante! — bato continência me despedindo dele e saio de seu gabinete.
A conversa com o comandante até que foi bem produtiva e menos difícil do que imaginei. Pelo visto Rosiet também não é muito fã de forças-tarefas, foi muito fácil convencê-lo a adiar tal medida. Agora, é arregaçar as mangas e mãos à obra. Preciso reunir-me com a equipe há muito trabalho a ser feito. Alcanço meu celular no bolso e envio uma convocatória de reunião emergencial:
Éveline: — Reunião estratégica da nova missão. Sala de guerra, em trinta minutos. Preparem-se! O bicho vai pegar!
Benoît: — A caminho!
René: — A caminho!
Didier: — A caminho!
Jeanpi: — A caminho!
Falando em equipe, faço uma anotação mental: não posso deixar passar em branco o papelão do meu resgate no deserto. Desta vez tivemos sorte. Mas não podemos nos dar ao luxo de contar com ela o tempo todo, é inadmissível um resgate sem um plano B. Somos um grupo de elite da inteligência nacional, temos um padrão de excelência para honrar. Além disso, fomos treinados para sermos os melhores.
Chego ao local da reunião primeiro. A Sala de Guerra é uma sala ampla equipada com computadores e softwares de última geração, que vão desde monitoramento das câmeras de trânsito das principais cidades do país até programas de reconhecimento facial e análise de impressões digitais e DNA. No centro da sala, há uma mesa inteligente, onde projetamos dados e informações relevantes aos casos e missões que nos são confiadas. É o meu habitat. Enquanto esperava o horário de nossa reunião e a chegada do resto da equipe, fui preparando meus brinquedinhos para fazer o briefing desta nova missão, além de já ir coletando os dados dos relatórios da missão de resgate e as informações dadas pelos mercenários interrogados. Precisamos checar a veracidade de cada informação dada por eles. Eles "cantaram" muito facilmente, não desmerecendo as técnicas de interrogatórios dos meus homens. Mas já dizia minha avó: "Quando a esmola é demais o santo desconfia."
Reunimo-nos e os coloco à par das informações que Rosiet compartilhou comigo. E começamos a montar o enorme quebra-cabeça que as informações que foram coletadas, nos indicavam. Precisamos encontrar nome que sejam mais relevantes e significativos para as investigações, eliminando qualquer tipo de armadilhas. Ficamos tão envolvidos com os preparativos das investigações e a elaboração de estratégias, que não percebemos o tempo passar. Ficamos cerca de cinco horas fechados na sala de guerra. Então, Benoît quebra nossa concentração dizendo:
— Bom, mes amis, acho que avançamos bem na montagem da nossa estratégia de investigação. Agora, só nos resta sair às ruas, observar movimentos suspeitos, falar com nossos informantes, ver o que se fala à boca pequena.
— Oh, sim. Évil tem que ser casca-grossa com os inimigos e não com sua equipe. Se eu ficar mais meia hora nessa sala, vou me fundir a esse software. Meu corpinho precisa de um agito, Evil. — René fala se esticando todo em sua cadeira.
— Ok, ok, rapazes! Confesso que até mesmo eu estou precisando de um descanso. — confesso meu cansaço.
— Falando em descanso, não se esqueçam que no sábado é o aniversário de minha irmãzinha, ela conta com a presença de todos, sem exceção. – Jeanpi nos lembra da festa de aniversário de Sandrine, sua irmã caçula.
Quem o ouve falar de Sandrine imagina uma menininha de 8 a 10 anos. Contudo, Sandrine é uma jovem mulher prestes a completar vinte e três anos. Ela é linda. Morena, olhos esverdeados, corpo curvilíneo, possui uma inteligência admirável, está no último ano do seu doutorado em Direito Internacional. Arrasa corações por onde passa, mas seu coração já foi capturado por Benoît, mas talvez o agente ainda não tenha se dado conta disso. De qualquer maneira, a troca de olhares entre os dois fala por si só.
— Ora Jeanpi, acha que perderia uma festa na boate mais badalada da cidade? Nem morto!!!! — responde René, todo empolgado. — Tomara que ela tenha umas amigas gatinhas para nos apresentar...
— Dessa vez, você vai, não é, tenente? Precisa se distrair também, Evil. Não se vive só de trabalho! — cobra-me Benoît.
— Oh, sim. Jamais decepcionaria Sandrine. Ela se tornou uma boa amiga.
E a conversa segue com os três homens fazendo planos para o fim de semana. Eu faço uma nota mental pra correr comprar o presente e a roupa para a festa... afinal além de ser uma festa no local mais badalado de Marselha, é também um baile de máscaras. Não faço a menor ideia de como combinar minha roupa com a máscara...
Nesse clima, nos despedimos e cada um seguiu seu caminho. Preciso de um bom banho e minha cama bem quentinha, para repor as energias e alinhar os pensamentos.
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