
Legionário
Capítulo 1
Éveline
Meu nome? Girauld. Éveline Girauld. Tenho 29 anos. Minhas origens? Nasci na França, sou filha de mãe brasileira e pai francês. Trabalho para o governo francês, agente das forças especiais. Um grupo seleto de agentes da inteligência francesa, responsável pelas investigações de casos que ferem os ideais do lema de nossa pátria, nossa bandeira – Liberté, Égalité, Fraternité.
Em campo, sou a Tenente-coronel Girauld, para os membros da minha equipe, sou apenas Evil – codinome que ainda não entendi direito a razão – eles dizem que para destruir o mal somente o mal. Mas nem sou tão má assim!! Ou será que sou? Deveria perguntar isso aos trastes que já neutralizei... Minha especialidade? Eletrônicos e tecnologia. Sou um arraso com um computador, smartphone ou qualquer eletrônico que se conecte à rede nas mãos. Mas não passo vergonha com armas nas mãos; aliás, trago sempre minha Jade (uma adaga de prata com uma pedra de jade no cabo, mon papa me deu após minha primeira missão bem-sucedida) sempre colada a meu corpo. Muito menos na luta corporal, faço Taekwondo desde os nove anos, participei até de competições. Era o orgulho da família.
Na rebeldia da adolescência, decidi que queria ser da polícia, militar ou qualquer outra profissão que não fosse me prender em vestidos ou saias ou ainda cheias de frufrus. Era molecona, odiava maquiagem, acessórios e afins. Tudo o que estava relacionado com moda era absolutamente repudiado por mim, para infelicidade de minha mãe e das poucas amigas que tive. Foi assim que me matriculei num colégio militar, para fazer o ensino médio e daí em diante, foi tudo uma questão de dedicação e perseverança. No começo, minha mãe não gostou muito da ideia, contudo nunca deixou de apoiar minhas escolhas.
Neste momento, estou numa cela escura e úmida, confinada com algumas mulheres. Ao todo, são sete mulheres, que foram aliciadas ou sequestradas... estou disfarçada, me deixei capturar por uma quadrilha de tráfico de mulheres no mediterrâneo. Estamos em algum lugar do extremo norte da Argélia, último estágio do meu plano. Minha equipe já deve estar de prontidão para o resgate. Foram meses estudando, investigando as diversas pistas e provas que foram sendo descobertas. Ao que tudo indica, esse grupo pode ser apenas uma célula de algo muito maior, com atuação em toda a Europa.
Minha equipe é pequena, somos quatro agentes de patente graduada, mas a equipe de apoio de campo, com cerca de vinte soldados. Já atuamos juntos em centenas de missões por toda a França e, também, pela Europa, África, etc. Adrenalina é nosso combustível, assim como, desfazer injustiças e desmandos de homens e mulheres que só pensam em lucrar com a dor e sofrimento alheios.
Meia-noite...
Hora da troca da guarda... Nesse momento, a vigilância do cativeiro fica mais vulnerável, muitos mercenários estão dormindo, a qualquer momento começaremos a agir...
Então, eu oriento as mulheres que estão comigo neste cativeiro:
— Meninas, ao meu sinal, abaixem-se e procurem ficar calmas.
— E o que faremos em seguida? – perguntou Emma.
— Apenas mantenham a calma e sigam-me. Logo sairemos deste inferno.
Ouço uma explosão... hora da festa!!!
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A porta do cativeiro se abre num rompante:
— Benoît, você está atrasado! – falo baixo para meu atirador de elite.
— Eu nunca me atraso, chefinha! Vem, vamos logo. Você não vai querer perder a festa... – ele responde sorrindo de lado...
— E meu convite?
Ele me entrega uma Glock G17 e um mini comunicador auricular.
— Tome cuidado como a minha menina, Evil...
— Sempre... Mostre-me o caminho, vamos logo atrás de você... – ajeito o aparelho em minha orelha direita. — Quanto tempo para chegar ao ponto de extração?
— Cinco minutos, se não houver um confronto muito longo! - responde René, meu segundo melhor atirador. — Bem-vinda à festa! A propósito, Evil: Você está um bagaço!!!
— Olha o respeito, soldado!!! Retruco fingindo indignação. — Venham meninas! Barra limpa...
Sigo à frente com Benoît, as mulheres resgatadas vêm logo atrás. René e os outros soldados cobrem nossa retaguarda.
Ao longo do percurso, sons de tiros de pistolas e metralhadoras, além de algumas granadas, quebram o silêncio da noite.
— Fiquem sempre juntas, meninas! – oriento as mulheres. — Qual é a nossa situação Jeanpi?
— Em quinhentos metros, vindo pela sua esquerda, vocês terão problemas. Um grupo com mais 15 mercenários está indo na sua direção. – Informa Jeanpi.
— Oh, putains!!! Ok, rapazes. Qual o plano B?
— Plano B? – repete minha fala René. — Existe um plano B, Benoît?
— Como assim? Vocês não têm um plano B? ... Falo indignada.
— Vamos ter que improvisar!!! – responde Benoît. – Evil, pega!... Faça a sua mágica! – ele me entrega um tablet. Tem horas que penso se eles realmente passaram pelo mesmo treinamento que eu. Homens... não sabem pensar além... Não é possível, vir para um resgate como esse e não ter um plano B! Amadores!... Mas isso não vai ficar assim!
— Juro que, definitivamente, preciso de uma nova equipe. Onde já se viu não ter um plano B, numa missão de resgate!!!!... faça sua mágica!!! Estamos numa ruína, no meio do deserto, Benoît! Que tipo de tecnologia vocês acham que encontrarei aqui?
— Pare de reclamar, Evil. Você pode se surpreender, chefinha. Confia!!!! – argumenta ele dando uma piscadinha com sorriso de lado.
Aciono alguns comandos no tablet e vejo que, mesmo sendo uma ruína antiga, sua estrutura foi modificada com alguns recursos tecnológicos que compõem a segurança e infraestrutura básica do lugar, como fornecimento de água e energia.
— Merci, mon Dieu! Agora a coisa muda de figura.
— Vamos, Evil. Estamos ficando sem tempo... – me apressa Jeanpi.
— Estou invadindo o sistema dos reservatórios de água e energia. Será que esses mercenários de merda sabem nadar?
— Evil, não!!! Você não faria isto! - adverte Benoît.
— Oh sim! Tanto faria como já fiz... Prendam a respiração, rapazes e meninas! Acabo de destravar as comportas do reservatório de água dessa joça. Vamos nadar um pouco!
Em segundos, a tromba d'água surpreende os mercenários que tentavam nos encurralar. Também fomos atingidos e levados para fora do local, porém a violência da água já estava bem menor. Os poucos inimigos que sobraram, abriram fogo contra nós do lado de fora da construção. Mas conseguimos neutralizar sua ação sem muita dificuldade... Alguns mercenários foram abatidos, outros foram presos e levados para interrogatório, cerca de 35 homens faziam a guarda do local nesta noite.
Chegamos ao ponto de extração e o helicóptero de resgate já nos aguardava com motores ligados. Todos a bordo, então eu declaro:
— Bom trabalho, senhores!!! Podemos ir pra casa!!
Algumas horas depois...
Já estamos em solo francês! Missão cumprida com sucesso! Nenhuma baixa de nossos soldados, graças aos céus! Mais uma pra conta!!!!
Na câmara-observadora da sala de interrogatório, entro e me inteiro da situação:
— Quantos passarinhos pegamos? Algum deles já cantou?
— Quatro passarinhos... e cantaram em alto e bom som!!! Sou o melhor em interrogatórios. – gaba-se René.
— Mas, conforme as investigações preliminares e o que eles informaram, essa é só a ponta do iceberg; e esse, Evil, é digno de um Titanic... – pontuou Didier.
— É tão crítico assim? – questiono querendo mais informações.
— As mulheres resgatadas já foram ouvidas e enviadas para suas cidades e/ou seus países de origem. A maioria delas não tinha família ou residência fixa. – Jeanpi informa.
Nesse momento, Benoît entra acrescentando:
— Há boatos sobre a intenção do alto comando fazer uma força-tarefa. Adivinha com quem?... Nada mais, nada menos que eles, meus caros: Legião Estrangeira! – completa retoricamente.
Força-tarefa? Oh la la! Tem peixe grande na jogada. A última da qual fiz parte foi durante os ataques terroristas em Paris. Todas as forças militares francesas uniram forças para encontrar os responsáveis pelos ataques. Estou prevendo muito trabalho para os próximos dias, talvez meses. Só então saio de meus devaneios e respondo preocupada:
— Merde!!! Legionários, não!!!
— Qual sua história com a Legião? Devemos nos preocupar, Evil?
— Não, não há história nenhuma... É que alguns desses legionários têm o ego do tamanho do Saara, se acham o suprassumo do exército. Enquanto, nós juramos lealdade à França, eles juram lealdade à própria Legião...
O comandante Rosiet abre abruptamente a porta da sala, interrompendo minha fala.
"Merde dupla!" – xingo mentalmente.
— Tenente Girauld, tem um minuto? – pergunta ele que não está com o seu melhor semblante.
— Sim, comandante!
Sigo-o até seu gabinete.
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