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Capa do romance Laços de Ferro

Laços de Ferro

Sob um regime impiedoso, María de las Almas sonha em ser médica para salvar pessoas. Do outro lado do globo, Zahid busca a mesma profissão por razões egoístas. Ambos vivem em prisões distintas, ansiando pela liberdade que lhes é negada. Unidos por um casamento forçado, essas almas exaustas resolvem se rebelar contra o destino. Juntos, eles enfrentarão perigos para conquistar um futuro impossível, em uma jornada de coragem, amor e esperança.
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Capítulo 2

7 de dezembro de 2004, Cuba

Odiava ter que fazer média com Saif, mas ele era um grande amigo do pai e, na prática, eu era o único da família em território cubano.

Sempre que queria puxar o saco de alguém para algum favorzinho, ele me procurava e eu simplesmente odiava!

Esperava precisar fazer algo pior, a expectativa caiu mais quando vi a fachada acabada do bar, mas mudou ao ver a moça.

Ele estava falando muito dessa garota, sua suposta bastarda, e eu já até imaginava que isso envolvia alguma tramoia com casamento.

Dos irmãos, eu era o único solteiro e, claro, já estava ficando difícil. Até tinha a minha vida com algumas criadas, mas no sigilo.

Publicamente, tentava ser simplesmente perfeito. Na infância, fui ensinado do meu dever de ter uma reputação ilibada.

Tudo, na prática, era pelo meu povo… para o meu povo. Éramos criados para sermos líderes e nem a radicalização mudou isso.

Enfim, a tal bastarda de Saif até era bela. Corpo farto, sinal de uma vida sexual ativa, mas eu podia relevar — afinal, eu também tinha.

Os cabelos eram longos e ondulados, castanhos-claros. Ela tinha semblante de traços finos e a boca lindamente delineada, carnuda.

Até tinha as unhas crescidas e pintadas, o que era muito atípico para a realidade cubana e só podia indicar que ela fazia dinheiro extra.

Parecia uma boa moça. A personalidade não era tão incompatível, mas eu jamais me adaptaria bem a uma mulher daquelas terras.

Nada contra, mas sua criação entraria em choque com meus ensinamentos religiosos — uniões desse tipo exigiam doutrinação e dura!

Até conseguimos conversar um pouco. Em dado momento, ela pareceu duvidar do que estávamos fazendo ali e isso me silenciou.

Provável que Saif nem tenha falado nada.

Obviamente, eu já não tinha mais saco para ficar sentado na rua e a minha ótima reputação justificou que eu me levantasse.

— Está ficando tarde e não é adequado estar num ambiente… — Olhei na direção do bar. — Considerando a minha fé! — Olhei Saif.

— Claro, claro! — Ele assentiu rápido.

— Foi ótimo conhecê-la. — Sorri à Alma. — Espero que possamos conversar mais vezes, seria ótimo conhecê-la profissionalmente.

O pensamento queria ir mais fundo…

— Seria um prazer! — Animada, ela se levantou e estendeu a mão para mim. — Você é tipo uma celebridade no hospital… me ensina!

— Senhorita. — Kareem afastou sua mão.

Ela pareceu confusa ao me olhar.

— É indelicado que troquemos contatos do tipo — expliquei e ela estranhou, curiosa. — É, precisamente, despudorado de onde venho.

— Ah! — Ela arregalou os olhos. — Perdão!

— Não se incomode. — Eu lhe sorri. — Tenha uma boa noite, Alma. Salaam aleikum! — cumprimentei e olhei para Saif, mas nada falei.

Antes de Saif falar qualquer coisa, me mantendo por ali, dei as costas e Kareem se apressou para chegar primeiro no carro.

— Obrigado! — sorri, mais aliviado.

— Disponha, sayyid! — Ele acabou rindo.

Ele era um primo distante, o homem de maior confiança que eu tinha sob minhas ordens e, claro, também um grande amigo.

Entrando no carro, só me recostei e fechei os olhos. Kareem, antes de assumir a direção, tirou a garrafinha de uísque para me dar.

— Casamento, não? — Ele falou.

— Com certeza… — Dei um generoso gole.

— A tia está sabendo? — Ele me olhou.

— Faz um tempo que não falo com a mãe… Quero ligar, mas não sei se devo — lamentei. — Ninguém dá sinal de vida… Isso me estressa!

A família agia em três frentes no Qatar: tínhamos os militares, a serviço do governo e do Islão; um servicinho com armas no submundo e um banco que servia islâmicos.

Cada novo ano significava mais expansões importantes dos negócios, falando de todos, mas… infelizmente, estávamos virando radicais.

O pai já tinha caído nessas ideias e apenas estimulava que o resto da família piorasse. Era uma guerra perdida para os moderados.

Eu só era moderado por amor à mãe, que ensinou suas ideias e princípios. Meu irmão professor, Abbas, filho dela, também era assim.

Os outros, filhos das outras esposas do pai, não alimentavam ideias do tipo… talvez nem tivessem ideias próprias, mas seguiam o pai.

Minha chegada em Cuba foi atribulada. O pai queria que eu ficasse para continuar me treinando para ser soldado, mas a mãe ganhou.

Provável que tenha subornado o coroa…

De qualquer forma, ela conseguiu me jogar para longe de todos eles, numa tentativa de preservar a minha sanidade e minha calma.

Não é como se eu nunca tivesse matado, fosse por lucro ou pelo Islão, mas a mãe não queria isso para mim e, confesso, eu também não queria estar por aí matando divergentes.

Não fazia sentido e isso, meu caro, não tem cura. Quando você entende uma burrice como burra, nada vai fazê-la parecer inteligente.

— Posso entrar em contato. — Kareem propôs após um longo período de silêncio. — Tenta relaxar e descansar, que eu cuido disso!

— Se tiver problemas por lá, quero que me notifique imediatamente! — mandei. — Hoje, eu devo me trancar com a Raja… mas pouco — ri.

— Seu pouco é sempre muito, Zahid! — Ele também riu. — Jana estava de insinuações na cozinha… devo tomar alguma providência?

— Só fala com ela. — Meneei a cabeça. — Se for algo perigoso, sabe bem como proceder — sorri. — Vai que, o que falta a ela, é isso…

Nada ele falou, apenas gargalhou.

A casa em Havana era ótima. Grande, como eu precisava que fosse. Dava para abrigar toda a penca de homens enviados pelo pai.

Enquanto estivesse em Cuba, eu era um correspondente em todos os sentidos possíveis, incluindo ajudando a família em seus serviços.

Havia uma forte investida do Islão na América Latina, no sentido de expansão religiosa, e isso me tornava necessário demais.

Já tinha investimento da Arábia Saudita e uma mesquita seria construída. Saif até se envolvia com isso, como diplomata, mas ele era ladrão demais — e todo mundo sabia disso!

Infelizmente, o desgraçado se conectava bem com os locais e isso exigia a continuidade de sua vida — como eu já disse, infelizmente…

Com a chegada do meu carro, as lanternas dos seguranças sempre se manifestavam num silencioso sinal para alertar os criados em casa.

Quando eu chegava, eles se perfilavam na sala. Assim, eu podia não apenas os contar, mas me certificar de estarem presentes e bem.

Com um futuro médico em casa, não tinha um jeito de defender que qualquer um deles adoecesse — ao menos, sem eu saber.

— Salaam aleikum! — cumprimentei.

— Aleikum essalam! — responderam.

— Espero que tenham tido um ótimo dia. — Segui ao sofá para me sentar. — O meu foi ótimo. Algo que eu devo saber agora?

— Amina ligou. — Raja sorriu sutilmente. — Disse estar muito bem, mas gostaria de falar com você… então, retornará amanhã cedo.

Foi um alívio ouvir que a mãe estava bem.

— Sabemos do quanto tem estado cansado e estressado, preocupado com todos, então fizemos uma boa recepção. — Raja concluiu.

As outras assentiram e eu gesticulei que podiam ir. Bastou para se evadirem rápido e voltarem com um chá e alguns biscoitos.

A sala, de repente, tinha cheiro de casa. Eu não podia quantificar o quanto sentia saudade.

— Também fizemos para nós, mas nos recluiremos na cozinha para descansar da viagem, sayyid. — Raja fitou meus olhos.

— Agradeço o carinho, meninas! — sorri. — Gosto de me sentir em casa e são momentos assim que me fazem sentir em casa. Obrigado!

Nem era da boca para fora. Com todos os possíveis defeitos de cada um deles, ainda éramos uma família e eu amava cada um.

Todos já sabiam o quanto eu gostava de alguns minutos, após chegar do trabalho, sentado no sofá no mais absoluto silêncio.

A casa inteira aquietava para isso…

Eu só dava fim a esse momento quando me dirigia ao meu canto, na última oração do dia, para me pôr de joelhos e rezar a Allah.

Era conflitante ser eu, meramente por ser.

Vivia numa exótica corda-bamba, dividido entre ser o bom filho que a mãe ensinou ou ser o sobrevivente que o pai ensinou.

O único alívio para aquela maldita aflição, eu encontrava em uma situação: no trabalho. Era difícil e dolorido, mas eu amava trabalhar.

Os pacientes eram inexplicáveis extensões da família. Ajudá-los acabava significando me ajudar e eu era quase viciado nessa sensação.

Nem as criadas ajudavam tanto…

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