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Capa do romance Laços de Ferro

Laços de Ferro

Sob um regime impiedoso, María de las Almas sonha em ser médica para salvar pessoas. Do outro lado do globo, Zahid busca a mesma profissão por razões egoístas. Ambos vivem em prisões distintas, ansiando pela liberdade que lhes é negada. Unidos por um casamento forçado, essas almas exaustas resolvem se rebelar contra o destino. Juntos, eles enfrentarão perigos para conquistar um futuro impossível, em uma jornada de coragem, amor e esperança.
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Capítulo 3

8 de dezembro de 2004, Cuba

Voltei para casa um pouco bêbada. A condução demorou, quase cochilei no ponto de ônibus, e, ao descer, caminhei sem pressa.

Bastou virar na esquina de casa e eu já desanimei. Um dos antigos carros dos amigos da mãe estava na porta — sinal de confusão.

Vivíamos numa área pobre, distante de Havana. As casas eram medianas, mas simples… nós até vivíamos com dignidade.

Meus trabalhos me pagavam quase tudo que eu precisava e a mãe, com os amantes, até arrumava um presentinho ou outro para mim.

O pai sabia de alguns casos e um carro deles na porta significava que a noite terminaria em gritaria e pancadaria.

Eu ficava apreensiva. A mãe era muito espevitada, sempre retrucava e, se o pai levantasse a mão, ela lutava como profissional.

Obviamente, o pai sempre esperava que seu grupinho de contrarrevolucionários saísse para iniciar a severa sessão de brigas.

Eles nunca se metiam, mas ele ainda era cauteloso, afinal, todo amigo da mãe andava armado e podiam cismar em atirar…

— E aí, lindinha. — Era um novinho que estava no banco do motorista e acenou para mim. — Como foi a viagem? Teve problemas?

Emilio era seu nome. Devia ter vinte e alguns anos. Era baixinho e bem atlético. Tinha um sorriso bonito, mas era um rebelde.

Eu não achava rebeldes atraentes. Nunca.

— Nenhum. Boa noite! — Eu lhe sorri.

Ele estava despreocupado no carro — era impressionante que só o pai e eu tivéssemos ideia do perigo de ter aquele carro ali na porta.

Se o regime resolvesse vir atrás deles, eles acabariam lidando com toda a minha família, sem nem perguntar quem era e quem não era.

Todo rebelde e sua linhagem deviam cair; viraríamos mais um número numa estatística pequena devido a coisas que não fizemos.

Segui para casa, contando os tijolinhos improvisados no caminho pelo pequeno jardim que a mãe conseguia — e adorava! — manter.

— Cheguei… Boa noite! — falei num tom relativamente baixo ao entrar em casa. Tudo estava atipicamente silenciado e eu estranhei.

A sala já tinha traços do quebra-quebra; um abajur caído, um jarro de porcelana, que a mãe adorava, estava quebrado num canto…

O velho sofá tinha gotas de sangue e ainda parecia recente. Suspirei, deixando a mochila perto da porta para começar a arrumar tudo.

Nem me demorei tanto na sala.

Até ouvi um ruído na cozinha, pensei duas vezes se devia ir, mas meneei a cabeça, peguei minha mochila e fui ao meu quarto.

Nossa casa tinha dois andares: sala, cozinha e uma área de serviço no primeiro andar; dois quartos e o banheiro no segundo.

Apesar de pequena, os espaços eram até bem distribuídos, o que diminuía a sensação claustrofóbica de estar num lugar tão curto.

O corredor também tinha sinais da briga e eu cuidei de devolver os quadros às paredes ou recolher estilhaços do que parecia um copo.

Meu quarto era, provavelmente, o único lugar daquela casa que nunca sofreu com a destruição daquele relacionamento violento.

Eu tinha só a minha cama e uma pequena cômoda. Nunca tive muitas roupas e sempre que ganhava uma nova, eu doava uma antiga…

Assim poupava espaço para os livros.

Minha maior preciosidade naquele quarto era uma pelúcia que o pai me deu quando eu era pequenina, fruto de uma viagem que ele fez.

O pai foi um funcionário do regime por muitos anos, mas se aposentou após ser alvejado num conflito com rebeldes.

Ele e a mãe eram muito incompatíveis; dona Bella era uma rebelde e muito apaixonada pela causa contrarrevolucionária — louca!

Era até estranho lidar com o silêncio.

Tirei tudo que precisava da mochila, peguei uma roupa e tomei um banho. Precisava descer para cozinhar, então não pude evitar.

Arrumei um pouco mais, descendo.

Na cozinha, a mãe estava sentada na mesa enquanto um homem, que eu desconhecia, enterrava o rosto em seu pescoço.

De costas largas, era um homem muito forte e, com a pele vermelha pelo sol, muito provavelmente se tratava de algum estrangeiro.

Abraçada nele, ela gemia baixo e bastou para eu dar o passo atrás e voltar à sala — “cadê o meu pai?”, foi a pergunta que me restou.

Voltei ao quarto para mergulhar em qualquer um dos meus livros — a mãe conseguiu desviar ótimos materiais de estudo!

Não era normal que o pai estivesse fora àquela hora, fiquei preocupada. Até tentei estudar, mas a cabeça não estava boa para isso.

Deitei, deixando o livro de lado. Cochilei.

— María! — A mãe subiu, me chamando.

— Oi, mãe. — Eu me sentei na cama.

— Chegou e não falou nada… — Ela abriu a porta para me olhar. — Como foi o dia? — sorriu, me olhando com certa empolgação.

Sempre muito confiante em tudo que fazia ou até mesmo no que eu fazia, aquela era uma cara de comemoração pela minha admissão.

— Passei. — Meu sorriso alargou e a mãe, sempre muito jovial, se aproximou pulando e me abraçou. — Já até comemorei com a Rosa…

— Sua mãe disse que passaria! — Ela ria bastante. — Pequena sonhadora… — Fitando meus olhos, notei uma ferida em seu rosto.

— Não quero desanimar, mas cadê o pai? — Tentei não soar preocupada, mas não conseguia parar de olhar à ferida. — Seria bom… tê-lo…

— Saiu para ver amigos… ou para tomar uma pinga sozinho, sei lá. — Ela deu de ombros. — Provável que ele volte logo para dormir.

“E você não estará”, lamentei comigo.

Não vou mentir, eu adoraria só fazer um sanduíche para jantar e comemorar com eles...

— Já precisamos planejar a festa. Fará dezoito anos enquanto aluna da melhor universidade de Cuba, meu amor! — Ela falou.

Até me deixou acanhada.

— Não tem como, mãe. — Meneei a cabeça.

— Claro que tem. Sua mãe sempre dá um jeito! — Ela falou baixo. — Vou me organizar e logo dou notícias de como será a sua festa…

— Encontrei aquele homem… Saif — falei e ela me olhou de canto, um pouco séria. — Foi lá no bar… acompanhado de outros dois.

— E o que ele queria? — Ela estranhou.

— Soube da minha admissão e queria me ajudar a comemorar. Até pagou rum. — Ri. — Estava com um garoto lá do hospital, residente.

Toda a animação dela falhou e a mãe me olhou com preocupação. Nada falou, mas ficou claro que algo estava errado.

— O garoto é muito bonito. Zahid é o nome. Famoso nos corredores do hospital, todo educado… ele chega a ser um pecado…

Diferente da habitual risada ou gargalhada, a mãe apenas sorriu amarelo.

— E ele falou o quê? — Ela perguntou.

— Ele quem? Zahid ou Saif?

— Saif. — Ela já se levantou.

— Nada… só isso mesmo. — Dei de ombros.

— Entendo. Sua mãe está saindo. — Beijou minha testa e seguiu à porta. — Voltarei pela manhã, como sabe. Tente descansar, tudo bem?

— Falei algo errado, mãe? — Eu estranhei.

— Não, meu amor. Nunca! — Ela conseguiu dar um sorriso melhor, mas o estrago já estava feito e eu não tiraria aquilo da cabeça.

— Bom trabalho! — Eu a desejei.

— Será… Mais uma noite de guerra! — Saiu. — E mais uma noite em que voltarei com vida…

A mãe era uma mulher linda. Lembro de, na infância, sonhar em ser como ela. Ter aquele corpo e os cabelos tão bonitos e cheirosos…

Estava sempre maquiada e as roupas eram provocativas, parava o trânsito em qualquer lugar de Cuba — os turistas amavam vê-la.

Apesar de ser facilmente confundida com uma prostituta, a mãe era um pouco mais astuta e preferia apenas o título de amante.

Pelo que eu já conhecia, seja por ela e o pai falarem ou por eu descobrir na rua, ela não tinha relações casuais e cobrava muito caro!

Numa realidade onde ela fosse apenas gananciosa, teríamos uma vida de muitos luxos e de muita riqueza, mas ela era sonhadora.

Não sei com quem aprendeu ideias de um país livre e essas coisas, mas cresci com a mãe engajada na política, tentando combater.

Era impressionante que ainda vivesse, dado o fato de o regime ser sempre tão pontual e implacável com os seus inimigos.

Provável que um amante ajudasse…

Com sua saída, eu desci à cozinha. Ela foi cuidadosa e deixou o lugar bem cheiroso e limpo, sem nem vestígios de outro homem.

Preparei os sanduíches. Deixei ambos servidos, pensando nos meus pais, e comi ali…

Era uma pena comemorar sozinha.

Mas, era ótimo ter o que comemorar!

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