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Capa do romance Kendra - O Nascer da Fênix

Kendra - O Nascer da Fênix

Irina finge ser uma caçadora implacável de bruxas para o reino, mas esconde um segredo: ela é a rainha das feiticeiras. Em vez de matá-las, ela as resgata e envia para um refúgio seguro. Sua missão é ameaçada por um príncipe humano que desperta sentimentos intensos. Apesar da rivalidade inicial, uma jornada revela que ele não segue a tirania do pai. Juntos, esses amantes improváveis enfrentam o rei e descobrem verdades sombrias que mudarão tudo.
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Capítulo 2

10 ANOS DEPOIS

Acordo com as trombetas tocando, um anúncio e um aviso de que todos devem se levantar imediatamente. Pulo da cama e visto minha roupa de treino: um conjunto de moletom preto e largo, que não pode e nem deve marcar minhas curvas, já que, segundo o Grande Mestre, não podemos "copular", já que somos soldados e também a escória. Nascemos para servir e não somos ninguém.

Motivacional, né?

Deixo Ólive dormindo e faço tudo o mais silenciosamente possível. Essa menina que se dane. Espero que leve chicotadas para acordar. É óbvio que as duas melhores seriam colocadas no mesmo quarto. Temos a "regalia" de não dividi-lo com mais duas pessoas e ter um banheiro em anexo. Amarro os cadarços do coturno e desço para comer.

Enquanto passo pelo corredor, as pessoas vão abrindo espaço para mim, mal olho em seus rostos, e ninguém é corajoso o bastante para encarar o meu. Afinal, eu sou a cadela do Grande Mestre. O nome dele é Ryan. Um nome de merda para uma pessoa mais ainda.

Ele me designa para as missões mais importantes que recebe porque eu raramente falho. Raramente? A quem estou tentando enganar? Eu nunca falho. E é por isso que recebi aquele apelido carinho, muitos ficam presos por semanas aqui, já que ele prefere me mandar em todas as missões possíveis, já que o êxito lhe assegura muitos e muitos louros.

Entro no salão e sou recebida pelo cheiro de mingau, pão, frutas e cervo. Meu estômago ronca de fome. Me sento em uma mesa ainda vazia – e que nunca tem mais do que as quatro pessoas que eu tolero, na verdade, Ólive nunca deveria entrar nessa conta.

Eu não a tolero, mas ela se faz ser engolida goela abaixo.

Uma das moças da cozinha traz meu café. Exatamente aquilo que farejei: mingau, pão, frutas e cervo. Sorrio para ela e agradeço gentilmente o favor. Na verdade, elas são as únicas que realmente gosto e têm meu raro e sincero sorriso. Para estar aqui, só pode haver duas opções: 1- Você foi vendido como escravo, é órfão ou foi abandonado. E 2- você se voluntariou.

Quem não tem serventia para ser soldado se enquadra no que eles chamam de ajudantes. Entre eles, estão os cozinheiros e os que cuidam da limpeza. Em suma, somos todos escravos. Já que apenas "trabalhamos" para o reino sem jamais ganhar nada em troca.

Não sei como perceberam alguma força em mim no dia em que cheguei aqui. Mas fico feliz por isso, senão estaria com a barriga na beira da pia, ou morta por arremessar a bandeja na cara desses folgados que agem com superioridade - mesmo não podendo escolher a própria vestimenta.

Mas é isso, já me conformei. Uma vez guardião, sempre guardião. As pessoas são realocadas depois de categorizadas. Temos alguma notoriedade fora daqui, somos vistos como os grandes guerreiros do rei, mas ainda assim, é redundante. Não podemos constituir família, nem nos relacionar... Não que eu queira alguma dessas coisas, mas gostaria de ter o direito de escolha.

— Oi, rabugenta – diz Tom.

Um daqueles que eu suporto.

— Oi, raio de sol – devolvo com a voz afetada.

Ele franze as sobrancelhas.

— Por que seu cabelo está solto?

Passo a mão involuntariamente sobre meus cabelos só para encontrá-los firmemente presos em um coque baixo. Tom morre de rir da minha reação. Não posso culpá-lo.

Mostro a língua para ele.

Mas realmente não me lembro de ter prendido meu cabelo antes de sair do quarto. Todos somos obrigados a cortá-los de acordo com as regras do regimento. Nós mulheres, por exemplo, os cortamos um pouco abaixo dos ombros e retos, fáceis de prender. Nunca maiores, nunca menores. Também seguindo o padrão já pré-estabelecido pelos Mestres do Rei, Tom tem seus cabelos louros em um corte baixo, raspado dos lados. Por isso eu odeio aqueles que se voluntariam.

Quem em sã consciência iria querer isso?

Em contraste com o cabelo de Tom, os meus cabelos são pretos como nanquim, bem como meus olhos. É impossível ver a pupila. Acho que me confere a aparência de implacável e filha do diabo, como me chamam pelas costas. Como se eu não soubesse. Não que digam isso para mim, eles não têm coragem para isso. Mas Ólive adora me contar.

O rapaz à minha frente devora o café da manhã, idêntico ao meu. Tom gosta de homens, o que torna a vida dele mais difícil do que o normal, já que sua tentação dorme sob o mesmo teto. E só por isso, eu quase gosto dele. Já ouviram aquela expressão: o que os olhos não veem o coração não sente?

Os olhos de Tom veem até demais, e esse é o problema.

— Irina – me viro a contragosto em direção à voz. — Você vai sair em missão hoje, se apronte.

Que novidade...

— Sim, senhor – digo ao Grande Mestre. Que apenas me olha de cima a baixo e vai em direção à sua mesa. Seu olhar parece me despir. E toda vez que vejo esse homem, tenho vontade de enfiar minhas unhas em seus olhos.

Unhas que não posso deixar crescer – a instituição não permite. Engulo meu mingau e uns pedaços de carne. Sara e Cam aparecem a essa altura, mas nada de Ólive. Abro um pequeno sorriso, deve estar dormindo ainda.

— Tom, você sai em missão comigo hoje.

Sara e Cam me lançam olhares de súplica, doidos – como qualquer um em sã consciência – para sair desse lugar. Mas minha decisão foi tomada. E a coisa que mais odeio é ser questionada. Odeio ainda mais do que a submissão. Levanto e vou vestir minha armadura.

Bom... Hoje, ao invés de treinar, irei colocar minhas habilidades em prática.

§§

Fomos mandados para a floresta de Bérilo. Eu amo e odeio esse lugar.

Amo porque a paisagem é exuberante, e acho que não existe nada que se compare à floresta das águas. Há rios e riachos para todos os lados, vegetações rasteiras e azuladas se espalham por todo o terreno, pequenas árvores que batem, no máximo, em meu ombro e uma variedade de arbustos que chegam até minha cintura. Tenho um metro e setenta.

Não entendo por que alguém se esconderia aqui. Há peixes, anfíbios e uma infinidade de cobras. Quase todos venenosos, então, nada de alimentos. Não há cavernas e é quase impossível fazer fogo, nuvens de chuvas passam de um lado a outro pelo território, a cada quinze minutos. E é por isso que odeio esse lugar: é impossível ficar seca. Resumindo: sem comida, sem fogo e sem abrigo.

Por que uma bruxa se esconderia aqui? A não ser que seja uma que tenha afinidade com esse elemento. Mas para sobreviver aqui, teria que ter um poder considerável, e não acredito que uma bruxa desse porte possa ser encontrada aqui. Na verdade, não sei se ainda existem bruxas fortes assim.

— Encontrei uma pegada – diz Tom.

Entediada e um pouco incomodada de ter sido tirada dos meus devaneios, vou analisar a "pegada". Inflo as narinas e o olho com raiva.

— Essa pegada é sua, Tom, por favor, não me faça perder tempo.

Ele encolhe os ombros e tem a decência de parecer se sentir culpado, e com um pouco de medo.

— Desculpa, Erin, eu não me lembro de ter passado por aqui - ele diz.

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