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Capa do romance Kendra - O Nascer da Fênix

Kendra - O Nascer da Fênix

Irina finge ser uma caçadora implacável de bruxas para o reino, mas esconde um segredo: ela é a rainha das feiticeiras. Em vez de matá-las, ela as resgata e envia para um refúgio seguro. Sua missão é ameaçada por um príncipe humano que desperta sentimentos intensos. Apesar da rivalidade inicial, uma jornada revela que ele não segue a tirania do pai. Juntos, esses amantes improváveis enfrentam o rei e descobrem verdades sombrias que mudarão tudo.
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Capítulo 3

Pisco para clarear a mente e olho em volta. Sim, nós passamos por aqui. E como eu deixei Tom liderar o caminho, nos perdemos do rio principal, que corta toda a Bérilo. Ele serve de bússola para não se perder nesse lugar. Não posso nem ficar com raiva, já que fui eu que me esqueci de que ele tem um senso de direção ridículo e sou a líder da missão.

Farejo o ar para tentar me situar. Nada do cheiro das árvores frutíferas da Floresta de Adamina. A floresta que estamos fica na extremidade oposta à de Noor, então é mais gelada e úmida. Se a vegetação estiver mais esverdeada do que azulada, significa que estamos nos aproximando do Leste, que infelizmente, não é o caso, já que quase posso ver os galhos acinzentados de Zéfiro. Se a bruxa entrou lá... Teremos um pequeno problema.

Não viemos preparados para o frio da Floresta do Ar, nem com sapatos apropriados, com garras para fincar no chão para o caso de sermos pegos por um vento mais agressivo. Não, nem ela seria doida o suficiente para se enfiar lá, com certeza foi para o Leste, mas já que estamos aqui, não custa checar o córrego mais próximo antes de dar meia volta.

Vou olhando em volta, atenta a todo e qualquer movimento. Antes de me aproximar da água, percebo que tem algo errado. O cheiro de peixe podre invade meus sentidos de tal maneira que fico tonta e automaticamente enjoada. Dou cinco passos à frente e posso avistar pedaços de peixe espalhados por toda a extensão à beira do pequeno rio. Ela deve estar tentando disfarçar seu cheiro, porque os peixes estão apenas eviscerados, com parte alguma faltando.

Então a nossa linda bruxa não é burra e provavelmente conhece a área. Já que pelas faixas vermelhas percebo que essa espécie de peixe é extremamente venenosa. Como eu suspeitava, a bruxa deve ser poderosa e dominar um desses elementos – água ou ar, se não os dois. Já que sabe que poderia ser identificada pelo cheiro. Mesmo por humanos.

Tom mantém uma distância segura de mim e do córrego, o cheiro de seu medo preenche o ar.

— Cadê você, bruxinha... – murmuro.

Que seja eu a encontrá-la. A ansiedade e a adrenalina começam a aquecer as minhas veias. Meu coração bate loucamente pela ansiedade, mas não encontro nada. Caminho lentamente até a água e vejo pequenas sereias nadando por ali.

Coloco a mão em minha espada, apenas para me certificar de que ela está ali e me sentir segura. Eu só confio em minhas habilidades e nessa espada, que nunca falhou comigo. Me agacho para testar a água e as sereinhas se aproximam para pegar minha mão.

Seus dedinhos gelados têm garras que cortam mais do que se pode imaginar com essa delicadeza disfarçada. Elas são predadoras, e se as criaturas do rio não mexem com elas...

Mas elas nada fazem a mim. Pelo contrário, uma, que não deve ser maior que meu braço, me encara com olhos violeta grandes demais para seu rosto delicado e aponta de forma sutil para minha esquerda. Quando eu olho para a direção que apontou, tenho um segundo antes de perceber os olhos azuis cobalto brilhantes.

A bruxa salta da água com uma força impressionante e cai sobre mim, em um baque surdo quando atingimos o chão. Enquanto rolamos pela margem, finalmente consigo sentir seu aroma: menta, algas marinhas e pinha. Ela é uma dez. Pelo cheiro, é evidente que ela domina tanto a água quanto o ar.

A Dez tem uma pequena vantagem ao pular sobre mim, me pegando de surpresa. Uma vantagem que não permitirei que ela aproveite. Lhe dou um chute no estômago e rolo por cima dela. Seus braços são magros e fracos, mal parecem ter força para qualquer coisa. No entanto, a adrenalina lhe dá forças, e mal consigo contê-la enquanto ela se debate e grunhe como um animal selvagem.

Desfiro um soco em sua têmpora, o que parece desconcertá-la por um momento. Estico o braço para alcançar minha espada, mas ela agarra meu pescoço e começa a sacudi-lo com força. Isso dói pra caramba e também me irrita profundamente. Puxo seus braços com uma força exagerada, o que parece machucá-la.

Prendo seus braços debaixo dos meus joelhos e dou um grito de raiva em seu rosto. Ela para de se debater apenas para dar uma cabeçada na minha testa. Minha visão escurece, e acabo rolando para o lado, o que acaba sendo uma sorte, já que desembainho minha espada. Tenho que admitir, o esforço vale a pena.

Quando ela avança novamente sobre mim com unhas e dentes, cravo minha lâmina em sua barriga. Quando nossos olhares se encontram, há reconhecimento e algo mais neles. Algo que me recuso a interpretar.

— Sou Morgana – diz ela com a voz fraca e rouca, e isso é tudo que ela consegue pronunciar antes de se transformar em cinzas.

Tenho pesadelos com olhos cor de cobalto e essa única frase por semanas. O que me deixa mais mal-humorada do que já sou normalmente. O que é muito. Tipo, muito mesmo.

Treinei 10 vezes mais até estar exausta o suficiente para apenas me jogar na cama e apagar na mesma hora. Queria que o cansaço fosse suficiente para me ajudar a não ter sonhos, mas não é. O que é frustrante. Por que ela foi me dizer que seu nome era Morgana? É tão mais interessante matar desconhecidos.

Algo me desperta, e demoro alguns segundos para me situar, ainda não é de manhã. O que me acordou não produziu som. Meu coração está batendo tão forte que a impressão que tenho é a de que vai sair pela boca a qualquer momento. O pânico que percorre meu corpo é surreal.

Quando consigo controlar minha respiração, finjo virar de lado e tiro devagar a coberta de cima do meu corpo. Conto até três, e então me levanto, fingindo estar grogue de sono. Tenho que ser rápida agora, antes que ela perceba o que está acontecendo.

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