
Justiça Além das Chamas
Capítulo 2
O cheiro a fumo acordou-me.
Abri os olhos, a garganta seca, o ar pesado e cinzento. A nossa casa estava em chamas.
O meu primeiro instinto foi gritar pelo meu marido.
"Tiago!"
A minha voz saiu rouca, um som abafado pela fumaça que enchia o nosso quarto no segundo andar.
Tentei levantar-me, mas as minhas pernas tremiam. O pânico era uma coisa fria e pesada no meu estômago.
Agarrei no telemóvel na mesa de cabeceira e liguei-lhe. O som da chamada ecoava no meu próprio andar de baixo. Ele estava em casa.
Ele atendeu, a voz tensa e distante, abafada por estalos e pelo rugido do fogo.
"Sofia? O que foi?"
"Tiago, o fogo! Estou presa no quarto! Não consigo sair!"
Houve uma pausa. Ao fundo, ouvi outra voz, uma voz de mulher, a tossir. Clara. A amiga de infância dele, a sua eterna musa. Ela era pintora e estava a ficar connosco há uma semana.
"Fica onde estás, não te mexas! Os bombeiros estão a caminho!" disse ele, a sua voz cheia de uma urgência que não era para mim.
"Tiago, por favor, vem ajudar-me! O fumo é muito denso!"
"Estou a tratar de uma coisa! Apenas espera aí!"
Depois, ouvi-o gritar, mas não o meu nome.
"Clara, aguenta! Vou tirar as pinturas primeiro! São a tua vida inteira!"
As pinturas.
Ele estava a salvar as pinturas da Clara.
A chamada desligou-se. O som do meu próprio coração a bater era mais alto que o fogo.
Fiquei ali sentada no chão, o calor a subir pelas tábuas do soalho. A fumaça queimava-me os olhos e os pulmões.
Ele escolheu telas e tinta em vez de mim.
A janela estilhaçou-se e um bombeiro entrou, o seu rosto coberto por uma máscara. Ele envolveu-me num cobertor e levou-me para fora.
Lá em baixo, no relvado, o ar fresco doeu nos meus pulmões. Vi Tiago e Clara perto da ambulância. Ela estava sentada, enrolada num cobertor, a chorar. Ele estava ao lado dela, a mão no seu ombro, a falar com um paramédico.
Ao lado deles, encostadas a uma árvore, estavam meia dúzia de telas grandes. Salvas. Intactas.
O bombeiro que me salvou gritou para o paramédico.
"Temos aqui uma vítima com inalação de fumo, precisa de oxigénio!"
Tiago virou-se. O seu olhar passou por mim e voltou para Clara.
Ele disse ao paramédico, a sua voz clara na noite caótica.
"Vejam-na a ela primeiro. Ela é mais frágil."
Naquele momento, deitada na relva fria, a olhar para o céu laranja, eu soube. O nosso casamento tinha acabado. Tinha ardido juntamente com a casa.
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