
Justiça Além das Chamas
Capítulo 3
O hospital era branco e silencioso. O cheiro a antisséptico substituiu o cheiro a fumo.
Eu estava numa cama, com um tubo de oxigénio no nariz. O médico disse que tive sorte. Inalação de fumo, algumas queimaduras ligeiras nos braços. Nada permanente.
Fisicamente, pelo menos.
Tiago entrou no quarto algumas horas depois. Ele não parecia um marido preocupado. Parecia um homem irritado por um inconveniente.
"Como estás?" perguntou ele, parando ao pé da porta.
Tirei a máscara de oxigénio. Cada respiração era um esforço.
"Estou viva. Apesar dos teus melhores esforços."
Ele franziu o sobrolho.
"Não comeces, Sofia. Foi uma situação caótica. Eu fiz o que pude."
"Salvaste as pinturas."
Não era uma pergunta. Era uma afirmação. Fria e dura como a verdade.
"Claro que salvei. Valem uma fortuna. E são o trabalho da vida da Clara. Tu estavas no segundo andar, os bombeiros iam chegar a ti de qualquer maneira."
A lógica dele era tão simples, tão brutal. As pinturas tinham um valor monetário. A vida da Clara tinha um valor emocional para ele. E eu? Eu era um problema logístico para os bombeiros resolverem.
"Ela estava no andar de baixo. Perto da saída. Ela podia ter saído a correr," eu disse, a minha voz sem emoção.
"Ela entrou em pânico! E o estúdio dela estava a arder. Eu tinha de salvar alguma coisa daquela casa!"
"E escolheste salvar as coisas dela."
Ele passou a mão pelo cabelo, um gesto de frustração.
"Estás a ser dramática. Estamos todos a salvo, é o que importa."
"Não, Tiago. Não estamos todos a salvo. O nosso casamento morreu naquele incêndio."
Olhei diretamente para ele. Não havia lágrimas. Apenas um vazio imenso.
"Quero o divórcio."
Ele riu. Um som curto e amargo.
"Divórcio? Por causa disto? Perdemos a nossa casa, tudo o que tínhamos, e estás a falar em divórcio? És inacreditável."
"Eu podia ter morrido, Tiago."
"Mas não morreste! Para de ser tão egoísta! A Clara perdeu o estúdio dela, as suas ferramentas, quase tudo! Ela está devastada!"
Ele olhou para mim como se eu fosse o problema. Como se a minha sobrevivência fosse um detalhe irritante na tragédia maior da perda de arte da Clara.
"Sai."
A minha voz era um sussurro, mas era firme.
"O quê?"
"Pedi para saíres do meu quarto."
Ele olhou para mim por um longo momento, chocado por eu não estar a ceder, por não estar a chorar e a pedir-lhe conforto.
Depois, ele encolheu os ombros, virou-se e saiu. Sem mais uma palavra.
Fiquei a olhar para a porta fechada. O silêncio era pesado. Eu estava sozinha. E pela primeira vez em muito tempo, isso pareceu-me uma coisa boa.
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