Capa do romance Aluga-me para o Natal

Aluga-me para o Natal

8.8 / 10.0
Uma autora de romances sem dinheiro aceita uma oferta inusitada: fingir ser a namorada de um bilionário misterioso por dez dias. O objetivo é enganar a avó dele durante as festividades de Natal. No entanto, o que deveria ser apenas um acordo comercial e uma atuação profissional ganha contornos inesperados. Entre mentiras e jantares de família, a linha entre a ficção e a realidade se apaga, desafiando os sentimentos da própria escritora.

Aluga-me para o Natal Capítulo 1

Clara Vasconcelos:

Se alguém tivesse me dito que minha carreira de escritora me levaria à beira do despejo, eu teria acreditado. Não porque sou pessimista - longe disso. Mas porque, depois de seis anos tentando viver de palavras, aprendi que finais felizes são para a ficção. E olhe lá.

A carta da editora repousava sobre a mesa, com a elegância cruel de quem sabe que está destruindo sonhos. Mais uma rejeição. A terceira só naquele mês. Eles adoraram minha escrita, disseram. Mas o mercado está difícil. O catálogo já está cheio. Boa sorte no futuro.

Boa sorte. Engraçado. Eu precisava de dinheiro, não de sorte.

Suspirei, afastei a caneca de café frio e olhei para a tela do notebook. O cursor piscava como se zombasse de mim.

Meu celular vibrou com a notificação de cobrança do aluguel. Atrasado. De novo.

- É isso, Clara - murmurei para mim mesma. - Hora de aceitar que ser escritora no Brasil, em dezembro, é como tentar vender sorvete no Ártico.

Respirei fundo, tentando fazer meu cérebro funcionar e pensar na melhor solução possível para sair desse perrengue. Mas, antes que eu pudesse raciocinar, a "solução" bateu à porta. Ou não.

Minha melhor amiga, Júlia, apareceu com sua clássica entrada sem bater.

- Você viu isso? - perguntou, agitando o celular. - Eu juro que é coisa de filme.

- O quê? Outro reality de famosos na fazenda? - perguntei. Não precisamos de introduções; apenas falamos. Nossas conversas nunca têm começo nem fim.

- Não! Um anúncio. No grupo de freelancers. Ouve essa: "Procura-se namorada falsa para o Natal. Dez dias. Boa remuneração. Discrição exigida."

Pisquei, sem acreditar na bobagem que estava ouvindo.

- Isso é sério?

- Tão sério quanto minha dívida no cartão. Olha só.

Peguei o celular das mãos dela e li o post. Era curto. Direto. E completamente insano.

"Homem jovem, solteiro, empresário, precisa de acompanhante para festas natalinas em residência familiar. Contrato de dez dias. Acomodação, alimentação e pagamento inclusos. Requisitos: boa apresentação, criatividade e saber mentir com charme."

- Isso é uma armadilha - disse, devolvendo o celular.

- Ou é o seu 13º. E o meu, se você me der comissão por ter encontrado.

- Não vou me vender para um estranho, Júlia.

- Mas vai se endividar por um ideal que não te rende lucro nenhum?

Bastou uma batida forte do meu coração para entender o que ela queria dizer. Eu era uma escritora fracassada, quase passando fome, e me recusava a fazer um trabalho simples que envolvia... mentir.

Vinte minutos depois, eu já estava de volta ao meu notebook, digitando com dedos hesitantes a resposta ao e-mail de contato.

"Olá. Meu nome é Clara Vasconcelos. Tenho experiência com improvisação (sou escritora), sei mentir com charme (já fui garçonete) e estou disponível para o Natal. Quando podemos conversar?"

Enviei.

E desejei, pela primeira vez em semanas, que minha vida virasse uma comédia romântica ruim. Porque, sinceramente? As alternativas não eram nada engraçadas.

Tentei esquecer a todo custo o e-mail encaminhado, mas, conforme os dias se passaram, me peguei olhando mais e mais para o celular, aguardando alguma resposta - nem que fosse um e-mail de recusa. Ser rejeitada já era quase um conforto familiar.

Mas nada. Nem um "agradecemos seu interesse", nem um "sentimos muito". Apenas o silêncio absoluto, cortado ocasionalmente pelas notificações de promoções de livrarias que eu não podia pagar.

No terceiro dia, comecei a achar que tinha mandado o e-mail para o endereço errado. No quarto, desejei não ter mandado nada. No quinto, convenci a mim mesma de que era melhor assim. Se alguém realmente queria uma "namorada falsa", aquilo só podia acabar em tráfico de órgãos ou em documentário policial no Discovery ID.

Foi então que, no sexto dia, enquanto eu tentava esquentar um resto de arroz no micro-ondas (spoiler: queimou), meu celular vibrou. E não era propaganda. Era ele.

"Boa tarde, Clara. Agradecemos seu contato. Seu perfil nos interessou. Podemos marcar uma videoconferência amanhã, às 14h? Assunto: proposta de contratação."

Engoli seco.

Videoconferência. Ou seja, rosto a rosto - ainda que virtualmente - com um completo desconhecido que estava contratando uma mulher para fingir ser sua namorada no Natal.

Toquei na tela algumas vezes, revisei o e-mail, reli cada palavra, como se alguma parte do texto fosse mudar e me dizer: "Brincadeira! Era pegadinha!"

Mas não. Era real. E eu tinha pouco menos de 24 horas para decidir se compareceria à chamada... ou se ignoraria e seguiria rumo ao despejo com dignidade e arroz queimado.

- Ele respondeu? - gritou Júlia do outro cômodo, como se tivesse um radar para essas coisas.

- Respondeu.

- E aí?

- Quer marcar uma chamada amanhã.

- Amanhã?! Meu Deus. Você precisa de roupa. Precisa de maquiagem. Precisa parecer humana, Clara!

- Obrigada pela parte que me toca.

Júlia surgiu na porta da cozinha com uma expressão de empolgação que só ela conseguia manter às sete da noite de uma terça-feira.

- Amiga, foca. Isso pode ser o começo de tudo. Tipo aquele filme da loira que casa com o chefe.

- Qual deles?

- Todos.

Sorri, sem forças para discutir.

Na manhã seguinte, acordei duas horas mais cedo, tomei banho, sequei o cabelo, até passei corretivo (coisa que não fazia desde o meu último evento literário, há três anos). Vesti minha blusa menos amarrotada, preparei o fundo da chamada com alguns livros estrategicamente posicionados e respirei fundo antes de clicar no link da reunião.

E lá estava ele.

Daniel Cortez.

Cabelos escuros, camisa social sem gravata, um leve sotaque paulista e olhos intensos demais para uma chamada de negócios. A câmera dele estava estável, o fundo perfeitamente neutro. Ele parecia o tipo de homem que fazia reuniões com investidores às nove, salvava filhotes às onze e almoçava em bistrôs franceses ao meio-dia.

Eu, por outro lado, parecia alguém que quase queimou a sobrancelha tentando acender o fogão na noite anterior.

- Clara Vasconcelos? - ele disse, com a voz baixa e clara.

- Presente - respondi, como se fosse uma chamada escolar.

- Obrigado por aceitar a chamada. Espero não estar tomando seu tempo.

- Imagina. Minha agenda está cheia de rejeições editoriais e boletos vencidos.

Não sei por que disse aquilo. Simplesmente saiu.

Ele sorriu. Um sorriso pequeno, mas genuíno.

- Gosto de sinceridade. Vai nos poupar tempo.

- Vai nos poupar de quê, exatamente?

- Testes. Entrevistas. Desconfortos.

- Uau. Isso é a coisa mais estranha que já fiz. E olha que eu já participei de uma coletiva de imprensa com autores autopublicados brigando por direito de foto com influenciadores.

Ele riu. De verdade.

E, por algum motivo que não entendi na hora, aquilo me deixou... tranquila. Sorri. Até porque, se ele continuasse rindo das bobagens que eu dizia sem pensar, nossa convivência seria puro entretenimento para ele.

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