
Indecorosa
Capítulo 2
JÚLIA BRAGA
Durante o caminho ao restaurante, eu não parei de pensar no RM nem por um segundo, porque ele mexe comigo mais do que eu quero admitir e sentir seu toque antes de um jantar romântico não ajudou que a minha mente se concentrasse na oportunidade de sentar em um pau de um gostosão que eu conheci no Tinder há um ano.
Menti para o meu melhor amigo, falando que sairia com o meu chefe e eu não sei como ele acreditou nessa mentira deslavada, já que eu sou proprietária de um salão de beleza e sou a minha própria chefe, mas não quis falar a verdade para não deixá-lo preocupado achando que irei ao encontrar um psicopata.
O Eron Salazar está longe de ser um homem com o qual devo me preocupar nesse sentido. Saímos algumas vezes nos últimos meses, porém os nossos encontros foram em rodas de conhecidos, eu com as minhas amigas e ele com os amigos dele. Nunca rolou mais do que uns amassos e boquetes no carro quando o mesmo fazia questão de me deixar na porta da minha casa, afinal, o mundo é um lugar perigoso para as mulheres ficarem perambulando sozinhas altas horas da madrugada. Enquanto existir estupradores, nós temos que nos proteger e evitar correr riscos desnecessários.
Sorri de lado ao lembrar das diversas qualidades do Eron e comecei a enumerar mentalmente cada uma delas para eu não ceder a vontade ridícula de dar meia-volta no carro para ficar com o RM. Tenho certeza absoluta que aquele desgraçado não deixaria de transar por minha causa e não vou ser trouxa ao ponto de fazer algo que não seria recíproco.
O Eron é charmoso, educado, galanteador, inteligente, esforçado, batalhador, beija bem e essa noite, vou descobrir se sabe foder gostoso.
O Marcelo só me ver como uma amiga e mesmo que eu transasse com ele, não acho que teria o mesmo significado para nós dois. Eu sou a única idiota da dupla que se apaixonou.
— Vai e arrasa na cavalgada, mulher. – Sussurro, apertando com força o volante. — Lembre-se que o RM jamais deixaria de comer uma mulher por você.
Um pouco mais decidida, segui o meu caminho firme e forte até o restaurante, que fica em uma área nobre da cidade, admirando a linda paisagem e mesmo com os vidros entreabertos, aspirei o cheiro das árvores ao redor. Me sinto sortuda por morar em uma localidade que ainda não é tomada por prédios gigantescos e carros por todo o lado. Todas as vezes que vou em cidades grandes, me sinto como uma ratinha fora do seu hábitat natural.
Depois de alguns minutos, cheguei na entrada do local, estacionando o carro na frente, peguei a minha bolsa que estava no banco do carona e deslizei para fora do automóvel.
— Boa noite, dona Júlia. — Caio, o manobrista, me cumprimentou, erguendo a mão direita para que eu lhe entregasse a chave.
— Boa noite, meu anjo. — Joguei a chave para cima e ele aparou.
— Bon appétit, madame — disse em tom de brincadeira, me fazendo rir.
Como já nos conhecíamos de outras vindas ao restaurante, tínhamos adquirido um nível de intimidade bacana e eu, particularmente, não me importo em fazer amizades com funcionários dos lugares que frequento. Se eu não sair amiga do segurança de uma balada, não sou eu.
Sem contar que todo mundo deve estar ciente que o Eron fará parte do meu cardápio de refeições hoje à noite.
Desfilei confiante até a recepção enquanto o Caio entrou no meu veículo para procurar uma vaga no estacionamento que ficava ao lado. Como sempre, fui bem recebida pelas duas mulheres que estavam trabalhando na hora que cheguei e fui encaminhada para uma área reservada do restaurante.
A minha mente pervertida já ficou indagando o quão prazeroso seria rolar algo dentro do local de trabalho do Eron. Não me importaria de ter aquele macho como meu prato principal.
O lugar cheirava a luxo desde a entrada, a decoração era toda de madeira com detalhes em vermelho, iluminação baixa que deixava um clima romântico no ar e as cabines eram espetaculares. Assim que fiquei sozinha em uma delas, admirei a mesa redonda com um sofá amplo de couro ao redor, as cortinas e velas acesas. Perfeito.
— Eu espero que esteja a sua altura. — Mãos grandes e fortes apertaram a minha cintura, deixando meu corpo em brasa.
— Por mim, a gente pulava a parte do jantar e íamos direto para a sobremesa que está no meio das minhas pernas. — Me ofereci igual a uma vadia nefasta.
— Espero que não seja na nossa frente. – Ouço uma voz feminina desconhecida e ao olhar para trás, me deparo com uma senhora baixinha que eu nunca tinha visto na minha vida e ao seu lado, o pai do Eron, que está rindo do que acabei de falar. Ambos pretos, elegantes e sorridentes igual ao filho.
Alguém cava um buraco e me enterra?!
— Essa é a minha mãe, Júlia. — Eron apresenta, tentando não rir de mim e eu não sei onde enfiar a minha cara nesse momento.
— Meu Deus, me desculpe! — imploro, ainda encarando a senhorinha sem conseguir imaginar em como explicar que eu não sou uma mulher indecorosa.
Senti meu rosto queimar pelo vexame e fiquei sem palavras por mais de um minuto. O clima romântico foi substituído por um clima tenso e vergonhoso.
— Eles apareceram de surpresa e eu não tive tempo para te avisar que teríamos companhia no nosso jantar — o homem se explicou e eu apenas assenti.
— Vantagens de ter um filho que é dono do próprio restaurante e a propósito, o meu nome é Paulínia — Ela estendeu sua mão na minha direção e nos cumprimentamos cordialmente.
— Vamos sentar? — Rogério, pai do Eron, sugeriu. — Na adolescência, flagramos o nosso filho transando no banheiro da igreja.
— Pai?!
— O que foi? Só quero deixar a Júlia confortável, explicando que já passamos por situações bem mais constrangedoras com você.
Eu não pude deixar de soltar uma risadinha e o clima entre nós quatro ficou mais agradável. Aproveitei o momento de descontração para sentar e agarrar o cardápio que estava disponível sobre a mesa, fixando meu olhar nas inúmeras opções de prato.
Minhas mãos estavam suadas, meu estômago pesou e passei a sentir medo de abrir a boca, porque existia uma grande possibilidade de falar merda.
Por que eu não fiquei em casa, meu Deus?
Senti quando os três se aconchegaram ao redor da mesa e especialmente, quando o Eron depositou sua mão na minha coxa.
— Sabia que éramos da favela igual a você? — Sua mãe começou a falar orgulhosa de todas as conquistas do Eron mesmo tendo nascido e crescido em uma comunidade pobre, totalmente dominada pelo tráfico de drogas. — Parece pouco, né? A maioria dos clientes desse restaurante, conheceu mais de 20 países antes de completar a maioridade, mas você deve saber a importância que é ter um homem negro e pobre conquistando espaço em uma universidade pública, viajando para outros países...
— Mãe, a senhora está me deixando sem graça — Eron avisou, rindo.
— Deixa ela falar. — Dei um tapinha leve no seu ombro. — Eu fico com o coração quentinho quando vejo alguém que veio da favela vencendo na vida.
— É tão raro que o primo dele acha que venceu na vida, porque tá famoso naquele tico, teco — Rogério lamentou.
— Tico, teco? — Olhei para o Eron com a sobrancelha levemente erguida.
— Tiktok.
— Ah, tá. — Dessa vez, a minha gargalhada foi intensa e contagiou todos ao redor. — Mas, hoje em dia, é uma rede social que pode ajudar a tirar muita gente talentosa do anonimato. Não podemos desmerecer o trabalho dos outros, o importante é que a pessoa não roube o trabalho do outros para de dar bem na vida, né?
Eles ficaram calados e logo, o Eron mudou de assunto. Realizamos os nossos pedidos e ficamos conversando sobre assuntos mais amenos. Sabia que a noite não iria terminar com um sexo selvagem, porém, valorizei a comida gostosa e boa companhia. Aprendi desde muito cedo, a valorizar o lado bom das situações.
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