
Indecorosa
Capítulo 3
JÚLIA BRAGA
ALGUNS MESES DEPOIS
— Eu não acredito que os pais do Eron te viram só de lingerie no sofá do apartamento dele! — Constantino gritou completamente eufórico com todos os detalhes que acabei de descrever sobre a noite de sexta-feira. — Você precisa de um banho de sal grosso, né? Primeiro, aquele jantar desastroso. Segundo, você passando mal na hora do boquete e vomitando, porque comeu coxinha vencida. Terceiro, entramos em quarentena antes de você dar para o gostosão.
Ele enumerou as vergonhas que passei, me fazendo querer voltar no tempo em todos esses episódios e nunca ter saído de casa.
— Sinceramente, eu deveria ter continuado em isolamento social — completo, gargalhando de nervosismo, terminando de arrumar o salão de beleza para as primeiras clientes que iremos receber pós-isolamento social obrigatório.
— Nem brinca com isso, miga. — O garoto bateu os punhos fechados três vezes em cima da madeira do balcão da recepção. — Mais uma semana com a minha família e você me encontraria enforcado no quarto.
Apesar da confissão pesada e triste, sua voz soou firme e indiferente, me deixando com uma dor no peito ao ouvir suas palavras duras, mas completamente realistas, porque eu sabia que não era exagero de adolescente. Infelizmente, presenciei diversas cenas abusivas dos pais com o Constantino pelo fato dele ser bissexual.
Como se a sexualidade do garoto fosse algo horrendo e pecaminoso, bem típico de família religiosa e conservadora. Nunca vou entender como alguém que vive dentro da igreja e pregando a palavra de Deus como os familiares dele faz pela favela que moram, conseguem ser tão escrotos ao ponto de desejar a morte de alguém por ser lésbica, bissexual ou gay.
Não faz sentido nenhum seguir Jesus Cristo e jogar ódio gratuito ao próximo.
— Sinto muito, meu amor. Você não deveria passar por isso, aliás, ninguém deveria ser tratado como um ser humano ruim por ter nascido homossexual ou bissexual — disse, me esforçando para não chorar.
Sempre quis ajudá-lo, mas como o Constantino mora no morro rival ao que eu resido, provavelmente o Barão faria algum mal ao garoto assim que soubesse da permanência dele na minha casa.
— Obrigado, Ju, mas eu estou bem. Não precisa ficar tristinha por mim.
Sabia que era mentira, mas assenti. Não ia forçá-lo a dizer qualquer coisa que o mesmo não se sentisse à vontade.
Olhei ao redor do ambiente, verificando se estava tudo limpo e organizado para começarmos as atividades novamente. Logicamente, não iremos disponibilizar todos os serviços de uma vez ou colocaríamos em risco tanto os funcionários como os clientes, por isso essa semana é um teste para verificarmos quais procedimentos estéticos serão mais solicitados ao decorrer desses primeiros dias e se as medidas de segurança serão respeitadas.
Infelizmente, uma boa parcela do povo brasileiro é estúpida e acha que é imune ao vírus, por isso eu sei que mesmo fornecendo todas as orientações para agendarmos e combinarmos todas as informações on-line, a clientela ainda vai querer aparecer no meu salão sem agendar horário ou querendo bater papo durante o expediente.
Eu que lute para lidar com o jeitinho brasileiro de fazer merda.
— Vamos retornar às atividades? — Finjo estar animada, pois a verdade é que eu estou morrendo de medo de ficar doente ou passar doença para a minha mãe que é do grupo de risco.
Constantino abriu as portas de vidro e logo em seguida, subiu os portões de ferro, revelando as duas primeiras clientes do dia, que foram recebidas com bastante profissionalismo como de costume.
[...]
O dia foi desgastante, enquanto os funcionários cumpriram apenas uma parte do horário, eu fiquei mais de doze horas em pé, tentando manter a ordem e a segurança de todos os lados.
A nossa última cliente está sendo atendida pela Raíssa, uma das manicures recém-contratadas, e a freguesa parece extremamente radiante para o primeiro encontro com o inglês que ela conheceu no Tinder durante a quarentena. Seus cabelos encaracolados e volumosos assim como os lábios pintados de vermelho formam o conjunto perfeito.
— Mulheres pretas são tão lindas — Constantino sussurra, sentando ao meu lado. — Sabe, eu gostaria que as pessoas parassem de endeusar somente as que são brancas e magras o tempo inteiro.
— Você sendo preto deve entender melhor do que qualquer um o que é passar por isso…
— E você, como mulher gorda, também.
Sem perceber, ficamos babando na beleza da nossa cliente e só quando me toquei que estava sendo inconveniente é que fui em direção ao caixa para tentar disfarçar minha atitude, porém, assim que sentei no banco atrás do balcão, a sua voz ecoou no salão de beleza quase vazio.
— Você é a melhor amiga do RM.
Arregalei os olhos, um pouco surpresa com a afirmação e demorei cerca de dez segundos para reconhecer a Arlene, ex-namorada do Marcelo, ali na minha frente.
Meu Deus, como eu sou lerda!
A mulher passou quase duas horas no meu local de trabalho, se preparando para um encontro e em nenhum momento, havia percebido que era a Arlene.
— A própria — respondi sem graça.
Apesar dos anos de amizade, não era todo mundo que sabia que eu e o Marcelo somos melhores amigos. É arriscado ser próximo de alguém que é filho do chefe do tráfico, imagina agora que ele ocupou o lugar do pai dele.
Faz algum tempo que houve uma chacina cometida por policiais dentro do nosso morro e ele sumiu.,só sei que está vivo pelo Taz, um dos seus funcionários e amigos.
— E como você está com tudo isso acontecendo?
— Como assim, Arlene? – Sorri para parecer simpática, mas não estava entendendo nada.
Nós não tínhamos o melhor relacionamento do mundo, porque a garota mentiu a idade quando começou a namorar o meu melhor amigo e eu fui contra o relacionamento dos dois quando descobri que uma adolescente estava envolvida amorosamente com um adulto. Obviamente, eu saí como a errada, mal-amada, invejosa e por esse motivo, nunca fomos amigas.
— Você não assistiu aos jornais nos últimos dias, não é? – Sua risada saiu com um humor estranho, meio perverso.
— É, pelo bem da minha saúde mental, eu estou evitando saber notícias sobre o que está acontecendo no mundo.
Franzi o cenho, deixando transparecer a dúvida que rondava a minha mente naquele instante: se solicitava que ela parasse de falar, porque era um risco para a funcionária a sua frente ou se indagava sobre o que a mulher estava falando.
— A Nathalia foi encontrada morta e estão acusando o RM de tê-la assassinado — Raíssa explicou com a voz abafada pela máscara presa no seu rosto, fazendo meu coração disparar.
Meus olhos pularam na sua direção e eu não consegui esconder o choque ao saber dessa informação. Voltei a ficar em pé tão rápido que a minha cabeça girou, cambaleei para trás e fui obrigada a me apoiar na estante atrás de mim.
Como assim o Marcelo matou uma mulher?
Não. Não. Não.
Isso não faz sentido.
Ele não faria isso.
Ou faria?
— Por que ele cometeria uma atrocidade desse nível tão repugnante? — indaguei, sentindo minhas mãos trêmulas e gélidas. — Ele não tem motivos para matar uma garota.
— Claramente, você não conhece a Nathalia, patroa. — A Raíssa voltou a falar ao mesmo tempo que finaliza as unhas da Arlene. — A garota era completamente desequilibrada, fez o inferno na vida de várias meninas no Twitter, um dos piores ataques que ela cometeu foi justamente contra a Louise Albuquerque, a namorada do Cigarro, mas tem muito mais coisas graves que ainda estão ocultas.
— E o que pode ser mais grave do que fazer um exposed falso e sem provas contra uma adolescente a ponto da menina tentar suicídio pelo hate que levou?
— Dizem as más línguas que, supostamente, a Nathalia promovia festinhas virtuais entre vários adultos e adolescentes, rolava coisas muito inapropriadas entre eles, entende? Ela falava que se as meninas já tinham pentelho na xota é porque eram capazes de fazer as suas próprias escolhas. — A garota bufou, nitidamente puta, antes de terminar de contar as burrices da falecida. — Não satisfeita, fez uns perfis fakes de traficantes no WhatsApp, incluindo de bandido da favela inimiga que ela morava, e usava eles para ameaçar as pessoas que ela e as amigas não gostavam. Não sei exatamente como os traficantes souberam, porém houve boatos de que ela estava ameaçada de morte.
Já tinha ouvido falar da Nathalia, mas só coisas boas. Ela parecia uma mulher tão madura, evoluída, iluminada, que vivia sendo atacada sem motivos e eu nunca entendi o motivo dela falar que era tão odiada e perseguida. Sempre achei muito maduro que no final de cada ataque recebido, a mulher chegava a desejar luz na vida dos outros que a faziam mal. O próprio xodó de Jesus Cristo.
Será que a imagem de boa pessoa era só uma fachada para aliciar menores de idade?
Como alguém consegue enganar tantas pessoas assim?
Automaticamente, lembrei do meu ex-namorado abusivo e em como ele é exaltado pelas fãs nas redes sociais após ter participado de um reality show, contudo, a Nathalia é uma mulher que sempre lutou pelos direitos das mulheres e uma feminista não seria desonesta de defender a ideia que adolescentes sabem o que estão fazendo como desculpa para deixar adultos se aproveitarem de meninas mais novas.
Tenho uma irmã de dezesseis anos e percebo que mesmo ela sendo bastante inteligente, nunca ia ter o discernimento de não cometer certos erros como eu, nove anos mais velha... Uma pessoa com que está estudando em uma universidade não seria burra dessa forma. Não faria sentido ela acreditar nisso.
— Desculpa, mas eu não sei se acredito que isso seja verdade. É muito fácil falar as coisas de uma mulher que já morreu, pois ela não está mais aqui para se defender. E se a Nathalia não fez mal para ninguém e isso tudo é só uma teoria maluca dos haters dela?
— Os pulsos da Louise discordam. — Ouvi uma voz conhecida interromper nossa conversa e ao olhar para a entrada do salão, meus olhos encontraram o Cigarro com a feição preocupada. — Eu preciso conversar com você. É urgente.
Minha cabeça ficou ainda mais confusa com a chegada do garoto e não conseguia raciocinar direito para tentar entender que porra que está acontecendo.
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