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Capa do romance Há Uma Luz Que Nunca Se Apaga

Há Uma Luz Que Nunca Se Apaga

Mia é uma jovem comum que se sente perdida sobre o seu futuro. Em meio a uma existência marcada por uma desordem constante, ela se vê presa em um ciclo de incertezas do qual não consegue escapar. No entanto, tudo sofre uma reviravolta drástica durante uma noite de Natal que prometia ser um completo desastre. Esse evento inesperado transforma sua realidade, virando seu mundo de cabeça para baixo e alterando o rumo de sua trajetória pessoal.
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Capítulo 2

Entrei na livraria com um sorriso no rosto. César estava ali me esperando, terminando de colocar alguns livros na pilha de História, não história de contar, História a matéria da escola, a mesma que ele estudava na faculdade. Ele usava o típico avental azul escuro da livraria, com a logo dela bem no peito. Eu sentei perto dos livros esotéricos e puxei o primeiro que apareceu na minha frente. Era um livro qualquer sobre Maçonaria que fomentava ainda mais as teorias de conspiração. Eu não me interessava muito sobre os maçons então devolvi o livro a estante e fiquei observando enquanto César cuidadosamente colocava os livros na prateleira e depois saía de lá, indo em direção aos fundos da loja.

Me levantei e fui rapidamente para o balcão, de onde eu conseguia vê-lo. E observei enquanto ele tirava os óculos quadrados, de armação grossa preta, limpava. Depois ele tirou o avental e foi até o banheiro, trocou a camisa de manga comprida, porque o ar da livraria era congelante, e a calça jeans por uma camiseta da banda Rage Against The Machine e uma bermuda cáqui.

Assim que ele ficou pronto, tornou-se a colocar tudo na mochila e foi me encontrar na frente do balcão.

— Vamos?

Ele me chamou com um sorrisão na cara. Me senti muito bem por estar ao seu lado, mas ao mesmo tempo tensa. Estava perto do dia da nota do ENEM. Ele provavelmente ia me levar para a beira do mar para tomar um sorvete, mas eu só pensava no 1000 na redação que eu queria tirar. Eu nem sabia que curso colocar no SISU, mas eu sabia que eu queria estar nas melhores faculdades.

Parte disso era oriundo das pressões da escola. Eu também sabia que se minha dúvida terminasse em Medicina ou Direito. Eu precisaria de notas altas, não precisaria?

César me pegou pela mão, adorava quando ele fazia isso, sempre que isso acontecia era uma sensação nova de calor correndo pelo meu corpo. Pensar em como a gente se conheceu era bizarro. No meio do caos, quando eu acreditava que nada iria dar certo, aparece uma centelha, uma luz, que me leva ao caminho do que é certo e do que eu deveria fazer.

O único problema é que César e eu ainda não estávamos namorando, isso me deixava fula da vida. Porque eu esperava que a gente pudesse ficar junto pra sempre, não que a gente não fosse ficar, mas acontece que a gente também não sabia muito que rumo tomar na nossa vida.

Nenhum de nós havia tido coragem o bastante para tocar no assunto “vamos namorar?”, apenas deixávamos ser. Uma vez vi um post na internet que dizia que para começar a namorar uma pessoa bastava levar ela para um churrasco de família que a magia iria acontecer. Só que, que magia estava acontecendo? Nenhuma! Eu me sentia uma tola qualquer que não sabia que rumo tomar.

Na verdade, eu nunca sabia que rumo tomar.

Às vezes eu ia lá e culpava meu signo, essa história de ser libriana não era uma coisa lá muito boa. Estava muito ligada a indecisão, a fazer o que vai agradar a maioria, ser diplomática.

Juro que fiz até meu mapa astral com uma amiga do César pra saber qual faculdade fazer. Segundo ela meu Meio do Céu é em Sagitário então eu seria uma ótima professora. Professora? Jamé, mané!

Pelo menos alguma coisa eu sabia que eu não queria.

Já era um bom começo, né?

— Você está muito tensa. — César comentou fazendo com que eu enrijecesse ainda mais.

— D-d-d-desculpa. — Gaguejei. Me senti perdidamente mal. Fui até a livraria, como fazia todos os dias, para ver o César quando me dei conta que aquele sentimento estava transparecendo.

— Eu fiz alguma coisa? — Mesmo por detrás das lentes dos óculos eu poderia ver que seus olhos brilharam de culpa. Desde a morte dos seus pais, César carregava uma culpa tremenda dentro de si. Ele achava que tudo era culpa dele.

— Não! Claro que não! É que eu tô tensa com a nota do ENEM... — Eu disse me sentindo meio encabulada de fazer aquilo, parecia bobo, mas para mim era de suma importância. Era como se minha vida dependesse daquilo. Talvez de fato dependesse.

— Ai que susto. — Ele comentou antes de continuar. — Ah, Mia... Relaxa. Olha, eu mesmo entrei com uma média razoável na federal. Você não precisa ser a melhor, e você sabe perfeitamente disso.

— Mas eu quero ser a melhor. — Eu disse, com tanto entusiasmo, dando ênfase no “quero” que pude ver que César quase se segurou para não revirar os olhos.

— Para a mim você é a melhor do mundo! Afinal, quem mais iria tirar seus dias de verão para me ver todos os dias no final do expediente? — Dei um sorriso fraco, ainda meio preocupada. Não dava para simplesmente relaxar. A coisa era muito mais profunda do que parecia.

Pelo menos para mim.

O que me deixava mais irritada era que justamente quando saíamos ele pegava na minha mão como se fôssemos um casal oficializado, mas não éramos. E eu queria tanto que isso se tornasse real e oficial.

Ele parou num quiosque e pediu um suco de laranja, eu pedi uma Tequila Sunrise. César era um Straight Edge, ele seguia uma linha do movimento punk/hardcore que pregava o não-uso de nenhuma droga (legal ou ilegal) isso incluía álcool e cigarros. Mas ele respeitava minha escolha de tomar umazinha às vezes.

Os pais de César morreram num acidente de carro após uma festa de formatura onde os dois beberam todas. Ele sobreviveu por ser o único que estava usando cinto de segurança. Ele se sente culpado desde sempre, pois acreditava que havia sido culpa dele não ter avisado aos pais que deveriam ter colocado cinto.

Além disso ele era muito fã de música punk, visto pelas camisas de banda e pelos bordados termocolados em suas jaquetas jeans.

Ele culpava a bebida e a si mesmo pela morte dos pais, ele também perdeu os avós que cuidavam dele depois da morte dos pais um por câncer de boca a outra por câncer de pulmão. Tudo por conta do cigarro.

Por isso ele resolveu nunca usar droga, nenhum tipo. Na lógica dele, se as legais faziam mal, as ilegais deveriam fazer mais mal ainda.

Quando eu bebia eu sempre tomava cuidado para beber pouco, para não deixa-lo preocupado.

Vivíamos um amor cuidadoso.

— Já pensou em procurar algum profissional da psicologia? Pra ver se você consegue dominar essa sensação de querer ser a melhor em tudo sem necessidade? Além do mais pode te ajudar a escolher algo que você queira.

Fiquei cerca de cinco segundos olhando para a cara de César com os olhos arregalados . Ele fez como se não fosse com ele e deu um gole no suco.

— César, você está me chamando de louca? — Aquela foi a vez dele arregalar os olhos e olhar com cara de surpresa para mim.

— Não, Mia! Calma! Estou apenas sugerindo que você precisa de um apoio para essas crises existenciais. — Revirei os olhos e puxei o líquido do meu drink pelo canudinho.

— É sério, meu bem. — César falou com uma voz tão suave, tão amorosa, que foi impossível não me derreter.

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