Capa do romance Cicatrizes da Traição: A Herdeira que Tentaram Apagar

Cicatrizes da Traição: A Herdeira que Tentaram Apagar

8.7 / 10.0
Em Cicatrizes da Traição: A Herdeira que Tentaram Apagar, uma mulher casada com um poderoso juiz descobre um segredo incestuoso. Este romance de suspense e mystery story revela uma rede de mentiras enquanto ela luta por liberdade. Leia este web novel sobre vingança e sobrevivência.
Resumo de Cicatrizes da Traição: A Herdeira que Tentaram Apagar
Após sumir por dias, a herdeira é capturada em uma blitz por Justino, seu marido e autoridade implacável. Levada à força para casa, ela descobre mensagens suspeitas de uma tal "A". O homem que sempre evitou a paternidade agora tenta engravidá-la para silenciá-la. A verdade é vil: Justino é obcecado pela meia-irmã, Angele. Cansada de ser o disfarce de um incesto emocional, ela expõe o segredo sujo diante da família, declarando guerra contra o tirano.
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Cicatrizes da Traição: A Herdeira que Tentaram Apagar Capítulo 1

O teto do quarto de hóspedes no apartamento de Kátia Sena era estranho. Havia uma mancha de infiltração no canto que lembrava um pulmão cheio de hematomas. Kelly Ventura a encarava, contando as rachaduras no gesso, tentando ignorar a britadeira que parecia martelar dentro de seu crânio.

Três dias.

Ela tinha ido embora há três dias.

Setenta e duas horas de silêncio. Setenta e duas horas olhando para um celular que não tocava, depois tocava, e então parava de novo. A tela estava escura agora, virada para baixo na mesa de cabeceira.

A porta se abriu com um rangido. Kátia entrou, segurando duas canecas de café fumegante. Ela parecia não ter dormido muito também. Pousou a caneca no porta-copos com um leve tilintar.

- Você está um caco, Kelly - disse ela, sentando na beirada do colchão. - Assinou os papéis da separação nos seus sonhos?

Kelly sentou-se, o quarto girando levemente. Estendeu a mão para o café, precisando que o calor penetrasse em seus dedos gelados.

- Eu não sonhei. Eu só... esperei.

- Por ele? - Kátia perguntou, a voz afiada.

Kelly não respondeu. Pegou o celular. A conversa com Justino estava aberta. A última mensagem era dela, enviada três dias atrás: Não aguento mais isso. Estou indo embora.

Abaixo disso, não havia nada. Nenhum balãozinho azul. Nenhuma confirmação de leitura. Apenas um espaço branco e vazio.

- Ele nem percebeu que eu fui embora - sussurrou Kelly, o peito apertando. Parecia um peso físico, uma pedra pesada pressionando seu esterno.

Kátia soltou um suspiro longo e frustrado.

- Ele percebeu. Ele só está jogando. O Tratamento do Silêncio é o esporte favorito dele, lembra? - Ela se levantou e abriu as cortinas. O horizonte de Boston estava cinza e melancólico. - Vamos. Precisamos de comida. Comida de lanchonete, gordurosa e nada saudável. E ar fresco.

Meia hora depois, elas estavam no sedã vermelho de Kátia, dirigindo pelas ruas úmidas. As luzes da cidade borravam no espelho retrovisor. Kelly encostou a cabeça no vidro frio da janela, vendo o mundo passar.

- Sabe - disse Kátia, batucando os dedos no volante. - Você podia simplesmente bloquear o número dele. Tornar isso real.

- É real - disse Kelly, embora sua voz carecesse de convicção.

À frente delas, o trânsito começou a diminuir. As luzes de freio pintavam o asfalto molhado com riscos vermelhos.

- Ótimo - gemeu Kátia. - E agora?

Kelly apertou os olhos através do para-brisa. Não era obra na pista.

Luzes azuis.

Flashes de vermelho e azul ricocheteavam nos prédios, rítmicos e desconcertantes. Uma fila de carros estava sendo funilada para uma única faixa.

- Blitz da Lei Seca - disse Kátia, checando a hora no painel. - Mal são nove da noite de uma terça-feira? Sério?

O estômago de Kelly despencou. Um suor frio brotou em sua nuca. Era uma reação irracional. Ela não estava dirigindo. Não tinha bebido. Mas a visão daquelas luzes, do uniforme, da autoridade... acionava um reflexo que ela desenvolvera ao longo de cinco anos de casamento.

A fila andava devagar. Ela afundou no banco do passageiro, puxando o casaco para mais perto do corpo.

- Relaxa - disse Kátia, olhando para ela. - Estamos bem. A menos que você esteja escondendo um mandado de prisão que eu não saiba.

Kelly forçou uma risada, mas saiu como uma tosse seca.

Elas avançaram centímetros. Um jovem policial com uma lanterna acenava para os carros passarem ou os parava. Ele parecia ter acabado de sair da academia, o rosto fresco e ansioso.

Kátia baixou o vidro quando ele se aproximou.

- Boa noite, guarda.

- Boa noite, senhora - disse o novato. Ele iluminou o banco de trás com a lanterna, depois passou o feixe sobre Kátia e, finalmente, sobre Kelly.

A luz atingiu os olhos de Kelly, cegando-a por um segundo. O feixe demorou em seu rosto.

O novato parou. Baixou a luz levemente, a outra mão movendo-se para o rádio em seu ombro. Murmurou algo baixo no receptor. Kelly não conseguiu distinguir as palavras, mas o tom fez os pelos de seus braços se arrepiarem.

- Algum problema? - perguntou Kátia, a voz perdendo a simpatia.

O novato não respondeu. Deu um passo para trás, os olhos ainda em Kelly.

Da escuridão atrás da viatura, uma sombra se destacou.

Botas pesadas trituraram o cascalho e o asfalto. O som era distinto. Deliberado. Autoritário.

O coração dela martelava contra as costelas, um pássaro frenético preso em uma gaiola. Ela conhecia aquele andar. Conhecia a largura daqueles ombros.

A figura entrou no halo do poste de luz.

Juiz Justino.

Ele usava seu uniforme escuro, as barras prateadas de Capitão no colarinho brilhando sob a luz dura. Seu rosto era uma máscara de pedra, ângulos duros e linhas inflexíveis. Ele não olhava para o novato. Não olhava para Kátia.

Seus olhos estavam travados em Kelly.

- Capitão - disse o novato, batendo continência.

Justino nem o reconheceu. Apenas acenou com a mão, um gesto dismissivo que mandou o homem mais jovem recuar para o outro lado da estrada.

Justino caminhou até o lado do passageiro do carro de Kátia. Ficou ali por um momento, pairando sobre elas, bloqueando as luzes da cidade. O ar no carro pareceu sumir, sugado por sua pura presença.

Ele bateu com o nó dos dedos na janela de Kelly. Toc. Toc.

O som ecoou nos ossos dela.

- Abre - ele articulou sem som.

As mãos de Kelly tremiam. Ela as escondeu no colo. Olhou para Kátia. Kátia parecia furiosa, mas também um pouco assustada. Não se dizia não a um homem como Justino, especialmente quando ele vestia o distintivo.

Kelly apertou o botão. O vidro desceu com um zumbido mecânico.

O ar frio da noite invadiu, trazendo o cheiro de chuva, escapamento e dele. Hortelã e tabaco velho.

Justino colocou as mãos na moldura da porta, inclinando-se até seu rosto ficar no nível do de Kelly. Seus olhos estavam escuros, as pupilas dilatadas, engolindo a íris.

- Fugindo para a casa da amiga - disse ele, a voz um estrondo baixo e rouco que vibrou no peito de Kelly. - Três dias, Kelly. Esse era o seu plano?

- Eu não fugi - Kelly conseguiu dizer, a voz trêmula. - Eu fui embora.

- Semântica - disse ele.

- Ei, se afasta - disse Kátia, inclinando-se sobre o console. - Ela não quer falar com você.

Os olhos de Justino se voltaram para Kátia, afiados e cortantes como uma lâmina de barbear.

- Fique fora disso, Srta. Sena. A menos que queira que eu comece a verificar a profundidade dos pneus do seu carro.

Kátia fechou a boca, o maxilar travado.

Justino voltou sua atenção para Kelly. Estendeu a mão, palma para cima. Uma exigência.

- Identidade, Kelly.

- Por quê? - perguntou Kelly. - Eu sou passageira.

- Porque eu pedi - disse ele. - Identidade.

Kelly tateou a bolsa, os dedos dormentes. Puxou a carteira e extraiu a carteira de motorista. Entregou a ele.

Justino pegou. Olhou para a foto, depois para o nome. Kelly Ventura. Passou o polegar sobre o nome, um gesto possessivo, de reivindicação.

Então, seus dedos se fecharam ao redor do cartão de plástico. Ele não devolveu.

Atrás delas, um carro buzinou. Justino não se mexeu. Nem piscou.

Acionou o rádio.

- Unidade 4, segurem este veículo. Estamos conduzindo uma verificação de rotina.

- Sim, Capitão - o rádio crepitou de volta.

A respiração de Kelly falhou. Ele não estava apenas parando-as. Estava detendo-as. Por causa dela.

- Justino, me devolve a carteira - disse Kelly, o pânico subindo na garganta.

Ele deslizou o cartão para o bolso do peito, logo atrás do distintivo. Um refém.

- Saia do carro, Kelly.

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