
Fugindo da Gaiola: Eu Me Casei Com o Pior Inimigo Dele
Capítulo 2
Acordei em um quarto que não era meu.
As paredes eram pintadas de um bege pálido e sufocante que parecia se fechar sobre mim. Minha penteadeira, geralmente cheia de frascos de perfume de cristal e escovas com cabo de prata, estava completamente vazia. A foto do casamento que sempre ficava na mesa de cabeceira — Dante levantando meu véu com um olhar de reverência — havia sumido.
Em seu lugar, havia uma foto emoldurada de Dante e Sofia. Eles estavam sentados em um banco de jardim, sorrindo. Parecia antiga. Parecia terrivelmente real.
Minha cabeça latejava com uma dor surda e rítmica. Minha mente parecia vidro estilhaçado que fora colado de volta na ordem errada, refletindo uma realidade distorcida que eu não conseguia reconhecer.
A porta se abriu com um clique.
Dante entrou. Ele estava vestido com um terno de carvão, impecável, perigoso. Ele cheirava a café expresso forte e poder bruto e descontrolado.
"Você está acordada", ele afirmou, sua voz desprovida de calor.
Sentei-me, agarrando os lençóis contra o peito. Eu não sabia como olhá-lo. Meu cérebro me dizia que ele era meu marido, mas meu instinto gritava que ele era meu torturador.
"Onde estão minhas coisas?" perguntei. Minha voz estava rouca, arranhada pelo silêncio.
"Sofia está frágil", disse Dante, ajustando suas abotoaduras com movimentos precisos e deliberados. "Ver seus pertences... isso desencadeia o estresse pós-traumático dela. Ela se lembra de você arrumando as malas dela na noite em que foi levada. Ela precisa se sentir em casa aqui. Esta era a casa dela primeiro, Helena."
"Eu não arrumei as malas dela", sussurrei, a memória nebulosa, mas a convicção forte. "Eu tinha seis anos."
Dante suspirou. Era um som de impaciência clínica. "A terapia leva tempo. Sua negação está profundamente enraizada."
Ele caminhou até a cama e se agigantou sobre mim. Ele não me tocou. Ele me olhou como um problema a ser resolvido, um cálculo que não havia fechado.
"Vista-se", ele ordenou. "Você tem tarefas."
"Tarefas?"
"Você precisa aprender humildade. Você precisa se reconectar com a realidade de suas ações. Você vai cuidar dos canis hoje."
O ar me faltou nos pulmões.
Dante sabia. Ele sabia melhor do que ninguém. Quando eu tinha oito anos, o cão de guarda de uma família rival rasgou minha panturrilha. Eu ainda tinha as cicatrizes irregulares e prateadas. Eu não conseguia ficar perto de cães grandes sem que minha garganta se fechasse.
"Dante, não", implorei, minhas mãos tremendo violentamente. "Por favor. Qualquer outra coisa. Eu esfrego o chão. Eu limpo as cozinhas até minhas mãos sangrarem. Não me faça chegar perto deles."
"O medo é falta de disciplina", disse ele friamente. "Os Cane Corsos são da família. Você aprenderá a respeitá-los, assim como aprenderá a respeitar sua irmã."
Ele agarrou meu pulso com um aperto de ferro e me puxou da cama.
Dez minutos depois, eu estava na área de cascalho dos canis da propriedade. O cheiro de almíscar e carne crua pairava pesado no ar úmido.
Três enormes Cane Corsos andavam de um lado para o outro na cerca. Eles eram músculos e dentes, criados para matar sob comando.
Sofia estava lá. Ela usava um vestido de verão branco, parecendo um anjo que desceu ao inferno. Ela estava em segurança atrás do portão.
"Eles estão com fome, Helena", ela disse com uma voz enjoativamente doce. Ela estendeu um balde de carne crua. "Dante diz que você tem que alimentá-los com a mão."
Dante estava na varanda, observando. Seus braços estavam cruzados. Ele era o juiz, e esta era a minha sentença.
Peguei o balde. Minhas mãos tremiam tanto que a alça batia contra o plástico.
Entrei no cercado.
O macho alfa, Brutus, rosnou. Era um som baixo e retumbante que vibrava fundo no meu peito.
"Bom menino", sussurrei, as lágrimas embaçando minha visão. "Bom menino."
"Ele sente o seu medo", gritou Sofia. "Pare de ser tão covarde. É vergonhoso."
Ela pegou uma pedra do caminho.
Antes que eu pudesse reagir, ela a arremessou. Atingiu Brutus em cheio no flanco com um baque doentio.
O cachorro se irritou.
Ele não olhou para Sofia. Ele olhou para a presa trêmula à sua frente.
Ele avançou.
Gritei, levantando os braços para proteger meu rosto. Mandíbulas se fecharam em meu antebraço. Dentes cravaram na carne. A dor foi branca e imediata, queimando meus nervos.
"Socorro!" gritei. "Dante!"
Caí para trás na terra. O cachorro estava me sacudindo, rasgando o músculo.
Um tiro soou.
O cachorro me soltou e recuou, choramingando. Dante não atirou no cachorro; ele atirou para o ar.
Ele pulou a cerca, mas não correu para mim. Ele correu para verificar o cachorro.
"Brutus, deita!" ele comandou.
Eu estava caída na terra, segurando meu braço sangrando. O sangue encharcou minha camisa, tornando o tecido escuro e pesado.
Sofia estava gritando. "Ela o provocou! Eu vi! Ela tentou bater nele com o balde!"
Dante se virou para mim. Seus olhos eram abismos.
"Levante-se", ele sibilou.
"Ele me mordeu", solucei, o choque fazendo minhas palavras se arrastarem. "Ela jogou uma pedra..."
"Mentirosa", Dante cuspiu. "Sofia ama esses animais. Você os odeia. Você odeia tudo que eu amo."
Ele me levantou pelo braço ileso. Ele me arrastou para fora do cercado como um saco de lixo.
"Vá para a enfermaria", disse ele. "Dê um jeito nisso. E depois suma da minha vista."
O pesadelo não terminou aí.
Mais tarde naquela noite, Brutus foi encontrado morto. Espumando pela boca. Veneno de rato.
Dante invadiu meu quarto. Ele jogou um pacote de veneno na minha cama. Tinha sido encontrado na minha gaveta.
"Eu não fiz isso", eu disse, entorpecida. Meu braço estava enfaixado, latejando no ritmo do meu coração.
"Você matou um soldado leal porque é fraca", disse Dante. Sua voz estava terrivelmente quieta. "Você desrespeitou a Família."
Ele me agarrou pelos cabelos e me arrastou escada abaixo. Ele abriu as pesadas portas de carvalho para o pátio.
Era novembro. Uma chuva gelada caía, transformando os paralelepípedos em gelo cinza e escorregadio.
"Ajoelhe-se", ele ordenou.
"Dante, por favor. Está congelando."
"Ajoelhe-se!" ele rugiu.
Caí de joelhos nas pedras. O frio encharcou minhas calças finas instantaneamente, mordendo minha pele como agulhas.
"Você fica aqui até entender o que é lealdade", disse ele.
Ele bateu as portas. Ouvi a fechadura pesada clicar.
Ajoelhei-me ali por horas. A chuva virou granizo. Meu corpo começou a tremer violentamente, depois parou de tremer, o que foi pior.
Olhei para a janela da sala de estar, quente e dourada.
Eu vi Dante. Ele estava sentado perto do fogo. Sofia estava no chão, a cabeça apoiada em seu joelho. Ele acariciava o cabelo dela, olhando para as chamas.
Ele parecia um rei em seu trono.
E eu era apenas uma camponesa morrendo em seus portões.
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