
Fim de Semana Interrompido
Capítulo 2
O cheiro de protetor solar e a mala de fim de semana ao lado da porta eram a promessa de um respiro, um pequeno oásis que eu mesma tinha planejado. Eu, Ana Lúcia, uma designer de joias que passava mais tempo curvada sobre uma bancada do que olhando para o céu, precisava desesperadamente daquele fim de semana na praia com meu noivo, Pedro. Estava tudo pronto, a casa de praia alugada, o carro abastecido, a playlist de viagem selecionada. Eu só esperava por ele.
Quando o som do motor do carro de Pedro finalmente soou na rua, um sorriso tomou conta do meu rosto, mas ele se desfez no momento em que a porta do passageiro se abriu. Não era só ele. Patrícia, sua ex-namorada, saiu do carro com a mesma facilidade de quem ainda possuía aquele lugar. Ao lado dela, sua filha pequena, uma miniatura de Patrícia, segurava sua mão.
Meu estômago gelou. Eu fiquei parada na porta, a mala na minha mão de repente parecendo pesada e ridícula.
Patrícia sorriu para mim, um sorriso que não alcançava seus olhos.
"Ana, querida! Que surpresa boa te encontrar. A gente estava passando por aqui, e o Pedro foi tão gentil em nos dar uma carona."
A mentira era tão descarada que me deixou sem ar. Eles não estavam "passando por aqui" . Aquela era a rua da minha casa, a casa que eu dividia com Pedro. Ela se aproximou, o perfume dela invadindo meu espaço, e me deu um abraço rápido e frio.
"A Laurinha estava com tanta saudade do tio Pedro, não é, meu amor?" , ela disse, afagando os cabelos da filha, que me olhava com uma curiosidade cautelosa.
Pedro finalmente saiu do carro, com uma expressão que tentava ser casual, mas que eu conhecia bem demais. Era a sua cara de "por favor, não crie problemas" . Ele evitou meu olhar e foi direto para o porta-malas.
"Então, pensei que poderíamos todos ir juntos. O que acha? Um fim de semana em família!" , ele disse, a voz falsamente animada.
A palavra "família" pairou no ar, pesada e estranha. A família ali era ela e a filha. Eu era a intrusa no meu próprio fim de semana. Olhei para o carro, um sedã de cinco lugares. Pedro, Patrícia, a filha dela, e eu. A conta não fechava, não de um jeito confortável.
Patrícia, percebendo meu silêncio, agiu rápido.
"Ah, mas tem as malas! E a cadeirinha da Laura ocupa um espaço enorme, você sabe como é. Para a segurança dela, é melhor ela ir no banco de trás sozinha."
Ela olhou para Pedro, que imediatamente concordou, como um boneco de ventríloquo. Ele se virou para mim, finalmente me encarando, mas com uma súplica no olhar.
"Ana, você se importa de ir de aplicativo? É mais rápido, e a gente se encontra lá. Você não ficaria brava por uma coisinha dessas, ficaria?"
A frase dele me atingiu. "Você não ficaria brava" . Não era uma pergunta, era uma ordem disfarçada, uma forma de minimizar meus sentimentos antes mesmo que eu pudesse expressá-los. Ele já tinha decidido. Eu fui empurrada para fora do meu próprio plano, do meu próprio carro, da minha própria vida.
Uma vizinha idosa, Dona Elvira, que regava suas samambaias na varanda, observava a cena toda com os olhos cerrados. Ela me lançou um olhar de pura pena, um olhar que dizia "minha filha, o que você está fazendo?" . Aquele olhar me deu mais força do que qualquer outra coisa. Senti uma vontade súbita e avassaladora de simplesmente soltar a mala, virar as costas e trancar a porta, deixando os três ali, parados na calçada. Mas eu não fiz. O hábito de agradar, de não criar ondas, era mais forte.
Eu forcei um sorriso. Era um sorriso fraco, que mal curvou meus lábios.
"Claro. Sem problemas. Vão na frente, eu encontro vocês lá."
Minha voz soou calma, controlada, mas por dentro, algo se quebrava. Pedro pareceu aliviado. Ele me deu um beijo rápido na testa, um gesto vazio, e correu para ajudar Patrícia a ajeitar as malas dela no porta-malas, no espaço que deveria ser da minha.
Fiquei parada na calçada, observando-os entrar no carro. Patrícia se sentou no banco do passageiro, o meu lugar, e acenou para mim com um sorriso vitorioso. A filha dela, já na cadeirinha, olhava pela janela. Enquanto o carro se afastava, notei um detalhe que me fez prender a respiração: pendurado no espelho retrovisor, um pequeno filtro dos sonhos, um que eu não reconhecia. Não era meu. E eu sabia, com uma certeza que doía no peito, a quem pertencia.
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