
Fim de Semana Interrompido
Capítulo 3
O som das ondas que eu tanto queria ouvir foi substituído pelo zumbido incessante das notificações do meu celular. Patrícia era mestre em guerra psicológica digital. A cada hora, uma nova foto aparecia no Instagram dela. Uma foto dos pés dela e de Pedro na areia, com a legenda "Momentos que aquecem o coração" . Outra da filha dela nos ombros de Pedro, rindo, com a legenda "O melhor tio do mundo" . E a pior de todas: uma selfie dos três, sorrindo para a câmera, com a casa de praia que eu aluguei ao fundo, e a legenda "Fim de semana perfeito em família" .
Cada post era uma tortura. Eu estava trancada no meu apartamento, tendo cancelado o carro de aplicativo no último segundo. Eu não iria até lá para ser uma espectadora da felicidade deles. A humilhação na calçada já tinha sido suficiente.
Pedro me ligou no final da tarde. Sua voz estava distante, abafada pelo som do vento e de risadas ao fundo.
"Oi, amor. Chegou bem? Não te vi por aqui."
A desfaçatez dele era inacreditável.
"Eu não fui, Pedro."
Houve uma pausa do outro lado da linha.
"Ah. Aconteceu alguma coisa? Você está bem?"
"Estou ótima" , menti, a voz seca. "Achei melhor deixar vocês aproveitarem o fim de semana em família."
Usei a palavra dele contra ele. Ele pareceu não perceber a ironia.
"Ah, que pena. Mas tudo bem. Amanhã eu volto e a gente compensa, ok? Te levo pra jantar naquele lugar que você gosta."
Uma promessa vazia. Quantas promessas vazias eu já tinha engolido? Eu não disse nada. Apenas desliguei. Ele não ligou de volta. Obviamente, a diversão com sua "outra família" era mais importante.
No dia seguinte, domingo, eu esperei. Uma parte idiota de mim, a parte que ainda o amava, esperava que ele cumprisse a promessa. Que ele voltaria cedo, arrependido, com flores na mão e um pedido de desculpas sincero nos lábios. O sol se pôs, a noite caiu, e meu telefone permaneceu em silêncio. A única atualização que tive dele foi através do Instagram de Patrícia.
Era um vídeo. Pedro estava na cozinha da casa de praia, sem camisa, cozinhando algo no fogão. Patrícia o filmava por trás, e a legenda dizia: "Meu chef particular" . Em um momento do vídeo, ela o chama, e ele se vira, sorrindo. Ela então pergunta: "A Ana não vai ficar brava de você estar cozinhando pra mim?" .
E Pedro, olhando diretamente para a câmera, para ela, para o mundo inteiro ver, riu e disse:
"A Ana? Nah. Ela não ficaria brava por isso. Ela é super tranquila."
Aquelas palavras. A mesma frase que ele usou na calçada. Ele não estava apenas me negligenciando, ele estava vendendo uma imagem de mim para ela, para si mesmo, uma imagem de uma mulher complacente, sem vontades, sem limites. Uma mulher que aceitaria qualquer coisa. Naquele exato momento, o amor que eu sentia por ele se transformou em cinzas. A parte idiota de mim morreu.
Com os dedos tremendo de raiva, abri nosso álbum de fotos compartilhado. Encontrei a foto do dia em que ficamos noivos, ele de joelhos, eu chorando de felicidade. Olhei para o anel no meu dedo. Um design exclusivo, que eu mesma tinha criado, e que ele mandou fazer. Era um símbolo do nosso amor, do nosso futuro. Agora, parecia uma algema.
Tirei o anel do dedo. O metal estava frio contra a minha pele. Fui até a janela, abri, e sem pensar duas vezes, o joguei na rua escura. Não ouvi o som dele caindo. Ele simplesmente desapareceu na escuridão, como o meu amor por Pedro.
Depois, peguei o telefone e liguei para a imobiliária que administrava a casa de praia. A casa estava alugada no meu nome, paga com o meu cartão de crédito.
"Boa noite. Gostaria de cancelar a estadia na casa de número 27, na Praia Azul. Sim, imediatamente. Os hóspedes atuais precisam desocupar a propriedade dentro de uma hora."
A atendente ficou confusa, mas eu insisti. Eu era a titular do contrato. Eu tinha o poder. Pela primeira vez em muito tempo, eu estava no controle.
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