
Entre a Dor e o Recomeço
Capítulo 2
A morte foi um alívio frio, um silêncio bem-vindo depois de uma vida de ruído e sacrifício. Na minha primeira vida, eu, Maria da Graça, morri sozinha numa cama de hospital estéril, com o corpo consumido por uma doença que meu dinheiro, roubado pelo meu próprio filho, não pôde tratar. A última coisa que senti foi a dor da traição, mais aguda que a da doença. Meu filho, Pedro, o menino para quem dediquei cada segundo, cada centavo, me deixou para morrer depois de esvaziar minhas economias com a namorada dele, Camila.
E então, eu pisquei.
O cheiro de café fresco, e não de antisséptico, encheu minhas narinas. O som da televisão na sala, e não o bipe monótono de uma máquina, chegou aos meus ouvidos. Eu estava sentada no meu sofá, o sofá velho e confortável que eu conhecia tão bem. Meu corpo não doía. Olhei para as minhas mãos, elas não eram frágeis e manchadas, mas fortes, as mãos de uma mulher de meia-idade que ainda tinha vida pela frente.
Um calafrio percorreu minha espinha. Não era um sonho. Eu tinha voltado. O calendário na parede marcava uma data de seis meses antes da minha morte. Seis meses antes do diagnóstico.
Do quarto, ouvi a voz do meu filho, Pedro. Ele estava ao telefone, falando com Camila. A voz dele era doce como mel, cheia de promessas e carinho.
"Amor, claro que eu quero te ver. Só estou um pouco ocupado ajudando minha mãe com umas coisas."
Mas então, algo estranho aconteceu. Por baixo da voz dele, ouvi outra coisa. Uma voz diferente, silenciosa, mas clara como cristal na minha mente.
Que saco essa garota. Tenho que manter a farsa até conseguir o que quero. Preciso de mais dinheiro para a Juliana, e a Camila é a desculpa perfeita.
Eu congelei. Que voz era aquela? Parecia vir de dentro do próprio Pedro, uma mensagem cruel e direta do seu coração.
Na minha primeira vida, eu desprezava Camila. Acreditava nas histórias de Pedro, que ela era interesseira, que o pressionava por uma vida de luxo que ele não podia bancar. Eu a via como a fonte dos problemas financeiros dele, a vilã que o estava levando para o mau caminho. A raiva que senti dela me cegou para a verdade.
Pedro continuou falando ao telefone.
"Sim, meu amor, eu sei que seu aniversário está chegando. Estou preparando uma surpresa especial."
E a voz interior, cruel e zombeteira, sussurrou em minha mente: Surpresa especial para a Juliana, você quer dizer. Essa idiota da Camila vai se contentar com qualquer porcaria que eu comprar na lojinha da esquina.
Meu estômago se revirou. Era uma habilidade? Um presente desta segunda chance? Eu podia ouvir os pensamentos verdadeiros das pessoas?
Tudo o que Pedro dizia era uma mentira polida. E Camila, do outro lado da linha, eu não podia ouvir seus pensamentos, mas a julgar pela forma como Pedro a respondia, ela estava sendo completamente enganada, acreditando em cada palavra dele. A lembrança do meu ódio por ela me encheu de vergonha. Eu a julguei, a condenei, enquanto o verdadeiro monstro dormia sob o meu teto.
Naquela tarde, Pedro entrou na sala, com um sorriso charmoso no rosto, o mesmo sorriso que ele usava para conseguir tudo o que queria.
"Mãe, preciso de uma ajuda."
Eu o encarei, meu coração batendo forte. "O que foi, meu filho?"
"É a Camila. Ela está me pressionando por um presente de aniversário caro, um anel de ouro. Eu não sei o que fazer, não tenho todo esse dinheiro agora."
A mentira era tão descarada que me deixou sem ar. Enquanto ele falava, a voz interior dele gritava em minha cabeça: Preciso de quinhentos reais. A Juliana quer aquele perfume importado. Vou dizer que é para a Camila, a velha sempre cai.
Eu senti um nó na garganta. Ele não estava apenas mentindo, estava me manipulando, usando o nome de uma garota inocente para financiar seus casos e seu estilo de vida. Na minha primeira vida, eu teria dado o dinheiro sem pensar duas vezes, repreendendo Camila em silêncio.
"Um anel de ouro?", perguntei, mantendo minha voz calma. "Ela te disse isso?"
"Sim, mãe. Ela fica vendo essas coisas na internet e me mandando fotos. Me sinto um péssimo namorado por não poder dar o que ela quer."
A voz interior dele riu: A trouxa da Camila nunca pediu nada além de um jantar. Mas a mamãe precisa acreditar que ela é uma megera interesseira. Facilita tudo.
Ele enfiou a mão no bolso e tirou uma caixinha de veludo barata. Abriu-a, revelando uma pulseira de metal fino, com pedrinhas de plástico que imitavam diamantes. Custava, no máximo, vinte reais.
"Eu só consegui comprar isso para ela. Ela vai me odiar, mãe."
Era a jogada final. A isca. Ele queria que eu sentisse pena dele e raiva dela. E então, eu daria o dinheiro.
Mas desta vez, eu via o jogo. A pulseira barata não era um presente para Camila. Era um adereço no teatro dele, uma prova da "ganância" dela e da "pobreza" dele. Ele planejava me mostrar a pulseira, pegar meu dinheiro para o suposto "anel", dar o perfume para Juliana e, talvez, nem entregar a pulseira para Camila, para que ela parecesse ainda mais ingrata.
Confirmei minha nova habilidade. Eu não estava louca. A voz era real. E revelava uma escuridão no meu filho que eu nunca imaginei ser possível. Meu Pedro, meu menino, era um manipulador frio e calculista.
E eu, que morri por causa dele, agora tinha uma segunda chance. Não para salvá-lo. Mas para me salvar. E talvez, para fazer justiça por outra vítima inocente de suas mentiras: Camila.
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