
Entre a Dor e o Recomeço
Capítulo 3
A confiança que eu tinha em Pedro, construída ao longo de uma vida inteira de amor e sacrifício, se estilhaçou em um único instante. Cada palavra carinhosa que ele já me disse agora soava como um eco de suas mentiras. A lembrança da minha morte solitária era um fogo que queimava dentro de mim, me dando uma força que eu não sabia que possuía. Desta vez, seria diferente.
Eu olhei para a pulseira barata na mão dele, depois para o rosto dele, um rosto que eu amava, mas que agora parecia a máscara de um estranho.
"Pedro", comecei, com a voz mais firme do que eu esperava. "Essa pulseira parece simples. Por que você precisaria de tanto dinheiro para um anel de ouro se ela ficaria feliz com algo assim?"
Ele foi pego de surpresa. Seus olhos piscaram, a confusão momentânea quebrando sua fachada de menino triste.
"Mãe, você não entendeu. Isso é o que eu posso dar. O que ela quer é outra coisa. Ela vai ficar desapontada com isso."
A voz na minha cabeça zombou: Droga, ela está questionando. Rápido, vire o jogo. Faça ela se sentir culpada.
Imediatamente, a expressão dele mudou para uma de mágoa profunda.
"Você não confia em mim? Eu sou seu filho. Estou passando por um momento difícil, tentando construir um futuro, e você me questiona por tentar fazer minha namorada feliz?"
A chantagem emocional. Tão familiar, tão eficaz na minha primeira vida. Mas não mais.
"Não é uma questão de confiança, Pedro. É uma questão de lógica", respondi, calmamente. "Camila me parece uma moça simples. Tenho certeza de que ela valoriza o gesto, não o preço."
A voz interior dele rosnou: Essa velha está mais esperta hoje. Preciso acabar com isso. Vou fazê-la se sentir uma péssima mãe.
"Você sempre implica com a Camila!", ele explodiu, elevando a voz. "Você nunca gostou dela! Só porque ela vem de uma família humilde, você acha que ela é interesseira! Você quer me ver infeliz?"
As acusações me atingiram, mas não da forma que ele pretendia. Elas eram um espelho do meu comportamento passado, das minhas suspeitas injustas. Ele estava usando minhas próprias falhas contra mim.
Mas agora, eu sabia a verdade. E a verdade era minha armadura.
"Isso não é verdade, Pedro. Eu só quero entender."
Decidi testá-lo. Decidi jogar o jogo dele, mas com as minhas regras.
"Sabe de uma coisa?", eu disse, mudando meu tom para um mais suave, mais conciliador. "Você está certo. Eu talvez tenha sido um pouco dura. Se é importante para você, eu vou ajudar."
Um brilho de triunfo passou pelos olhos dele. A voz interior dele comemorou: Isso! Ela caiu. A grana é minha.
"Sério, mãe? Você faria isso por mim?"
"Claro, meu filho. Quanto você precisa para o anel?"
"Quinhentos reais seriam o suficiente", ele disse rapidamente.
Peguei minha bolsa. Abri minha carteira e tirei as notas. Enquanto eu contava o dinheiro, a voz dele na minha cabeça já estava gastando. Perfeito. Vou pegar o perfume para a Ju hoje mesmo. E ainda sobra para um jantar. A velha é uma idiota mesmo.
Eu estendi o dinheiro para ele. "Aqui está. Mas quero que você faça uma coisa por mim."
"Qualquer coisa, mãe."
"Quero que você entregue esta pulseira para ela também", eu disse, apontando para a caixinha de veludo. "Diga a ela que foi um presente meu. Um pequeno gesto de boas-vindas à família."
O pânico brilhou nos olhos dele por uma fração de segundo. A voz interior dele gritou: Merda! E agora? Se eu entregar a pulseira, a Camila vai achar estranho. E se ela comentar com a velha? Plano arriscado.
Ele se recuperou rapidamente. "Claro, mãe! Que ótima ideia! Ela vai adorar!"
Ele pegou o dinheiro e a pulseira.
"Agora, se me dá licença, preciso ir ao banco resolver umas coisas", eu disse, me levantando. Era uma mentira. Eu não ia a banco nenhum. Eu ia começar a minha investigação.
"Tudo bem, mãe. E... obrigado. De verdade."
Ele me abraçou. Foi um abraço frio, vazio. A única coisa que senti foi o desprezo que emanava dele, a voz em sua cabeça já planejando os próximos passos.
Preciso me livrar dessa pulseira ridícula. Talvez eu a jogue no lixo no caminho.
Quando ele saiu, eu fiquei parada no meio da sala, o cheiro do perfume barato dele pairando no ar. A dor da traição era real, mas desta vez, estava misturada com uma nova sensação: determinação. Ele achava que tinha me enganado. Mal sabia ele que o jogo estava apenas começando. E desta vez, eu não seria a única a perder.
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