
ENQUANTO VOCÊ FOR MINHA
Capítulo 2
Acordo em um sobressalto.
Estou assustada, meus pulmões queimam e meus cabelos são um emaranhado confuso colados em toda minha face, nuca e colo devido ao suor que toma meu corpo gélido e rígido.
Outro pesadelo.
Aquele dia.
Olho para a janela a minha frente, ainda aberta, dando entrada para a noite tempestuosa.
Chuva.
Gatilho.
Sabe aquela sensação de prazer que as pessoas sentem ao sentir cheiro de terra molhada, assim que a chuva toca o chão?
Nunca tive.
Como o fluido que corre pelas veias dos deuses – é o que dizem a respeito da sensação “prazerosa” – esta, me atinge cortando a carne quando o sabor terroso invade minha boca.
Depois daquele dia trágico onde perdi meus pais e após incontáveis crises, fui diagnosticada com “Pluviofobia”, um distúrbio raro de quem tem pavor de chuva. Ridículo.
Ainda sentada na cama giro o pescoço e meus olhos batem em um porta-retrato em cima do criado.
São eles. Felizes com uma garotinha no colo.
Suspiro.
Sinto falta deles.
Já faz catorze anos.
Levanto-me e vou em direção ao banheiro. Meu refúgio em dias como este.
Os raios cortam o céu no período que lhes é mais propício: Janeiro. Meu aniversário. Irônico.
Abro a torneira molhando as mãos e levo-as em direção a nuca e rosto buscando algum refrigério. Abaixo a cabeça e subo.
Respiro.
Tento manter a calma quando meu interior grita tanto quanto o uivo dos ventos que invadem a noite tenebrosa.
A madrugada será longa.
Hoje completo dezoito anos.
Lembranças.
Sou apenas o fio do que restou delas.
Sentada no chão do box, divago madrugada adentro na esperança de encontrar meu alvorecer.
[...]
Lembro-me de cada detalhe de quando cheguei a esta casa. Não mais como a afilhada dos Albuquerque, nem mais portando apenas o sobrenome de meus pais nos documentos. A partir daquele momento eu era Gabriela Medeiros e Albuquerque. Um acréscimo e tanto quando falamos das duas famílias mais poderosas do Estado de São Paulo.
Eu tinha quatro anos quando perdi meus pais em um acidente de carro e fui adotada pelos meus padrinhos, Armando e Eleninha Albuquerque. Fui acolhida por eles como uma verdadeira filha. Eu tinha pais e irmãos novamente. Família.
– Oi. – Paula, minha nova irmã, me cumprimentou. Ela era afilhada dos meus pais e lembro-me que sua luz angelical naquele dia estava apagada e seus olhos verdes ressacados estavam inchados e apagados diante do tom de brasa que parecia queimar-lhes. Ela estava arrasada, mas me acolheu como irmã e eu sabia que a partir dali eu poderia contar com ela como tal. – Venha vou te mostrar onde será seu novo quarto. É perto do meu e se sentir medo a noite pode dormir comigo.
– Não! Ela vem comigo. Vou tocar piano para ela. – O menino que parece um anjo me puxa pelo braço bom, já que o outro estava imobilizado devido a cirurgia.
Levou-me até uma grande sala de paredes de vidro que sugava para o seu interior toda luz natural que vinha de fora e onde bem ao centro dela descansava um lindo piano de cauda branco. Um lugar que beirava o etéreo.
Ele sentou-se na banqueta e bateu com a mão sobre ela pedido que eu me sentasse ao seu lado. Fazendo o que me pediu, seus longos dedos pálidos ergueram a tampa do grandioso instrumento revelando as teclas pretas e brancas e um som quase que celestial ressoou por todo o ambiente reverberando em meu coração.
Grandes olhos verdes me encararam e sorrimos cumplices como se nossas almas soubessem o que uma queria dizer a outra. O pequeno anjo ascendeu aos céus e levou-me junto em seus braços.
Cresci no seio da minha nova família tão amada quanto os filhos legítimos. Armando e Eleninha sabiam o que era amor incondicional. Sabiam o significado disso, e bastava olhar para eles, mesmo que o casamento deles não tenha vindo da forma para aqueles que se amam. Um unir de fortunas lhes trouxeram até aqui, mas juntos, conseguiram construir uma união forte e alicerçada na lealdade. Antes da fidelidade, vem a lealdade, diziam.
Mas sempre enxerguei neles muita cumplicidade. Os olhares, as palavras não ditas, as frases incompletas. Nunca os vi brigar. Pareciam seguir uma receita.
E de receita eu entendo.
Sinto-me aquela receita bem dosada de tudo o que terei que ser a partir de agora. Desde que meus pais morreram e eu herdei tudo sem esforço algum.
Quantos tem essa sorte?
Junto aos meus dezoito anos, chegam as minhas responsabilidades para assumir o legado dos meus pais, e o peso desse legado parece cair em dobro sobre as minhas costas, pois está ligado também aos Albuquerque. Meu pai, Rodrigo Medeiros, e Armando Albuquerque, além de melhores amigos, tornaram-se sócios ainda na faculdade, fundando a Aleiros Engenharia & Co. que com o passar dos anos tornou-se a maior no ramo empreiteiro e, hoje, incorpora diversos outros negócios, principalmente o hoteleiro, desde que estes sejam lucrativos.
Paula, a filha mais velha, renunciou aos negócios da família quando saiu pela tangente aceitando o compromisso com um dos herdeiros do agronegócio paulistano, Lucas Maggi, deixando para que Cadu, o filho do meio, assumisse aos 25 anos o cargo de presidente da Aleiros, tornando-se assim o CEO, enquanto nosso pai passava ao conselho.
Mal posso imaginar que daqui a um mês trabalharei lado a lado com meu irmão.
Se é que posso chamá-lo assim.
Sinto falta dos rebeldes cachos dourados angelicais que com o passar dos anos tornaram-se lindas madeixas castanhas, lisas e bem penteadas, seus olhos verde oliva, ora tempestuosos, ora cristalinos como âmbar, que coloria meus dias quando formavam o degradê perfeito ao me enxergarem.
Sempre comparei Carlos Eduardo Albuquerque a um felino, um lince, para ser mais específica. Alto, cabelos volumosos, porte atlético e silencioso, muito silencioso. Esta última característica, parecia quase um superpoder que muitas vezes irritava nossa mãe que dizia que um dia morreria de susto em uma de suas aproximações. Mas em mim, o bálsamo da sua presença sempre chegava antes – carvalho, vinho e hortelã – uma tarde de verão na Toscana. Meu lugar favorito em todo o mundo. Ele, facilmente seria o meu lugar favorito em todo o mundo.
Cada vez que o degradê dos seus olhos queimava sobre mim, Cadu parecia ler-me como um livro de contos rebuscados e eu sabia que nesses momentos as engrenagens na sua cabeça trabalhavam e suas feições falavam. Mandíbulas serradas, lábios comprimidos em uma fina linha, um leve vinco entre os olhos. Sim, estava lá, intrínseco.
Como eu sabia?
Talvez o amor fosse cego para uns, mas para outros ele desnuda até a alma.
E eu? Eu era apaixonada pelo meu irmão.
Mas, se dependesse de mim levaria esse segredo para o túmulo. Era absurdo pensar e sentir algo por ele que não fosse apenas fraternal.
Pecado.
Se sentir por ele o que eu sentia era um pecado, meu Deus, eu era a maior das pecadoras.
Gostava dos nossos momentos de descontração em família ou entre amigos, Cadu sempre portava um sorriso largo e fácil, suas feições ganhavam o mesmo ar angelical de sua mãe e irmã – eles eram incrivelmente parecidos. Com os amigos, o ar e os sorrisos eram sempre zombeteiros, era o sarrista da turma. Cada vez que aquele largo sorriso ganhava vida, Cadu transformava-se em uma verdadeira criança, era leve e eu amava, principalmente, quando dirigidos a mim.
Mas certo dia, ao retornar de uma viagem à praia com os amigos, tudo mudou. Eu já não ganhava mais sorrisos e sobre o degradê dos olhos uma penumbra negra pairou. A partir daquele instante encaravam-me sempre em tom de repreensão, escurecidos como um mar que recebe uma tormenta. E eu já não era mais, em suas duras palavras, a “irmã”, eu não era mais nada. Eu tinha quatorze anos. E isso me quebrou.
– Cadu! – Invadi o quarto dele correndo como sempre fiz. – A Bah disse que você havia chegado. – Pulei em seus braços, mas ele afastou-me duramente. O largo sorriso em meus lábios estreitou-se e pisquei algumas vezes em confusão. – O que houve? – Questionei.
– O que houve é que não quero que você entre mais no meu quarto. E se possível, não precisa mais falar comigo. – Minhas sobrancelhas uniram-se e meus olhos já marejados encararam os seus buscando respostas. Era como se uma densa névoa me impedisse de ver o límpido verde ambarado que dias atrás buscava pelos meus.
– Do que você está falando? Somos irmãos.
Queria que fôssemos mais que isso. Mas é impossível.
– Nós não somos irmãos! Minha irmã, sangue do meu sangue, é a Paula. Você não é nada minha, entendeu? Se toca garota. – Ele cuspiu as palavras me puxando pelo braço empurrando-me porta afora. O estrondo emitido, assim que ela se fechou, me fez estremecer e as lágrimas que antes marejavam os olhos, verteram em enxurrada.
Crises.
As crises voltaram e precisei retomar as terapias.
A única capaz de entender meu caos era Carolina, minha psicóloga. Ela sabia de tudo e fez o papel de amiga confidente e conselheira durante toda a minha adolescência. Ela não me julgava. Eu não precisava de julgamentos, eu mesma fazia esse papel e, Carolina, não deixou que eu cedesse ao meu caos. Um caos chamado Cadu.
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