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Capa do romance ENQUANTO VOCÊ FOR MINHA

ENQUANTO VOCÊ FOR MINHA

Criada como filha pelos padrinhos após a morte dos pais, Gabriela Medeiros herdou beleza e fortuna. Embora o ambicioso Murilo a deseje, o coração da jovem pertence a Cadu, seu irmão de criação. Unidos por um laço inquebrável, eles desafiam julgamentos sociais e uma profecia sombria para viver esse amor proibido. Contudo, segredos devastadores do passado emergem, testando se esse sentimento é capaz de superar as peças do destino e a própria morte.
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Capítulo 3

Três anos antes...

Debut.

Imagino que para a maioria das garotas normais completar 15 anos deva ser empolgante. Viver por um dia o perfeito conto de fadas particular, usar um vestido suntuoso, ser guiada pelo salão de festas por um príncipe em uma comemoração digna da realeza.

Daqui a alguns dias debutarei, e ao contrário do que deveria sentir, como a maiorias das garotas, sinto-me no século XIX sendo arrastada pelos pais aristocratas para sua iniciação social. Serei apresentada com toda pompa e circunstância em um evento do qual não foram poupados um real sequer, vestido suntuoso assinado por algum estilista famoso, como um pedaço de carne aos abutres solteiros da sociedade paulistana, a fim de arrumar um pretendente que queira somar fortuna.

É sério que ainda fazem isso em pleno século XXI?

Tão sério que estou aqui, presa na aparatosa sala de costura da minha mãe, vulgo Eleninha, que berra a plenos pulmões ao telefone com a equipe da estilista da qual ela escolheu para fazer o meu vestido da noite do debut.

— Chá? É sério isso, Martinha? — Paula, minha irmã mais velha, reclama quando encara as xicaras que foram dispostas na mesa.

— Trouxe a pedido da senhorita Gabriela.

— Hortelã, meu favorito. — Pelo menos algo para me animar. Penso ao sorver o aroma do líquido da minha xícara. — E é Gabriela, Martinha. Nada de senhorita, por favor. Quantas vezes vou ter que falar?

— Tinha que ser. Martinha, champagne! Sei que é cedo, mas preciso de álcool para continuar aguentando isso. — Ela aponta discretamente em direção à nossa mãe que a qualquer momento começará a arrancar os cabelos.

Continuo bebericando minha bebida tentando abstrair o surto matinal de Eleninha até que meu olfato capta uma fragrância invadir o ambiente e, não é apenas meu chá de hortelã.

Ergo o olhar por cima da xícara e lá está ele. Braços e pernas cruzadas encostado ao arco da porta. No seu melhor jeito despojado. Camisa polo branca, calça jeans e tênis. Cabelos levemente escurecidos o que me leva a crer que acabou de sair do banho e o sorriso de canto de boca no melhor estilo matador de debutantes indefesas.

— Como assim, mais uma hora? Eu não tenho uma hora a mais na minha agenda para vocês. — Minha mãe encara o relógio de pulso. ¬— Estamos no mesmo bairro. Jardins! E você está me dizendo que vai demorar tudo isso da Oscar Freire até aqui? Vocês têm meia hora, entenderam, meia hora! — Berra desligando o telefone e sinto que ela vai começar a espernear como uma criança mimada que não conseguiu o que quer.

— Problemas dona Eleninha? — A voz forte e grave de Cadu a faz pular no lugar.

— Que susto garoto! Você ainda vai me matar, sabia? — Diz com a mão no peito reclamando do jeito silencioso que Cadu sempre faz ao aproximar-se. — E sim, problemas e você... é a solução para um deles. Seu smoking está chegando e você precisa prová-lo, então, junte-se a nós.

¬— Smoking? E posso saber para quê? — Seus olhos fitam os meus ligeiramente o que me faz baixar a cabeça, mas percebo sua confusão e leve irritação, pois já deixou claro que não participará da minha festa e nossa mãe continua insistindo.

— Por favor Cadu, não se faça de sonso. É o aniversário da nossa irmã e você será o príncipe da noite. — Paula intervém.

— Primeiro, ela não é minha irmã. Segundo, não vou participar disso, muito menos serei príncipe de quem quer que seja.

— E você é um tremendo filho da puta! — Ela grita levantando-se da cadeira.

— Ei, tudo bem. Eu não me importo. ¬— Seguro em seu braço incentivando-a a sentar-se novamente. — E você acabou de xingar nossa mãe se não percebeu. — Repreendo sua impulsividade.

— Desculpa, mãe! Não foi minha intensão.

— Tudo bem, filha. Nada que eu nunca tenha ouvido. E ofensa maior aqui é seu irmão berrar aos quatro cantos que Gabriela não é sua irmã. Ele não faz ideia o quanto machuca-me essa atitude. Eu só esperava de você, meu filho, o mínimo de condescendência pela Gabi. Você conheceu a história dela. Estava aqui no dia em que ela chegou nesta casa...

— Mãe! Chega! — Agora sou eu quem me exalto.

— Não, ele precisa ouvir.

— Não as custas da minha dor. Não quero a pena dele.

— Para mim deu. Fui. Garanto que conseguem se virar sem mim. — E como sempre ele dá as costas. Típico de Carlos Eduardo mimado e contrariado.

— Me digam, o que eu faço com o irmão de vocês? Em que momento da educação de vocês eu errei para que ele se tornasse esse poço de frieza? — Nossa mãe encolhe os ombros em completa decepção.

— Vamos esquecer o Cadu, por favor! Sei que a senhora dará um jeito. É uma Albuquerque, esqueceu-se? — Tento consolar sua dor sufocando a minha.

— Paula, quais opções temos? Rapazes disponíveis para príncipe, por favor. — Ela estala os dedos sentando-se à mesa, como quem pede o cardápio do dia a um garçom. Essa mulher é impressionante.

Paula, por outro lado, congela assim que estende a mão para pegar uma taça de champanhe ao qual Martinha traz numa bandeja.

— Opções? Bem... em se tratando da sua filha nada social aqui. — Retruca referindo-se a mim e suspira pesado. — Lamento, mas não temos muitas.

— Quem são as opções Paula, por favor?! — Elenina massageia as têmporas e eu me pergunto: O que estou fazendo aqui mesmo?

— Tem o... o... — Paula estala os dedos como se tentasse lembrar de alguém.

— O?

— Michael.

— O bolsista?

— Mãe?! — Repreendo-a. Michael é meu melhor amigo e ganhou uma bolsa em nossa escola depois de ter participado de uma competição de matemática. Tudo bem que seus pais não são herdeiros, trabalham suado para dar o melhor para o filho, mas desprezá-lo por ser bolsista?

— Não, ele tem uma queda por você. Não quero dar esperanças ao pobre coitado. Classe média demais. Pula. Próximo.

Inacreditável.

— Temos o Rodolfo.

— O Rod? — Digo em espanto, pois nem mesmo ele aceitaria. Rod intitula-se pansexual e aceitar ser meu príncipe diante do que chamamos de circo é enjaular-se como atração principal do espetáculo. — Ele não aceitaria. Próximo.

— Inclusive todos nas rodas comentam a respeito das roupas que ele vem usando. Amei a tendencia que ele vem ditando, inclusive pensei nele para uma entrevista à revista. A coitada da Verônica tem evitado nossos chás desde o evento da escola. — Minha mãe refere-se ao dia que Rod escandalizou a todos chegando na escola com o uniforme transformado no melhor estilo crossdresser em protesto às roupas que a direção vinha nos obrigando a usar.

Torci para que ele conseguisse mudar o pensamento arcaico daquelas pessoas, mas ele ganhou uma belíssima suspensão e seu pai, fazendo parte do conselho estudantil, deve ter desembolsado um belo montante em doações para que ele não fosse expulso.

Um ponto importante sobre minha mãe. Ela é editora chefe de uma das maiores revistas de moda do país. Neta de um dos barões do café, Elena Albuquerque é herdeira não só do título, mas de inúmeras fazendas cafeicultoras e vinícolas aqui e fora do país. Atualmente tudo sendo gerido pelo conglomerado que se tornou a Aleiros.

Seus doces olhos verdes me salvaram aquele dia no hospital. Assim que abri os olhos naquele quarto e deparei-me com duas lagoas verdes cristalinas e profundas, tive a sensação de ter sido arrebatada.

— Bem, nos sobra o Caio. — Minha irmã puxa-me daquele quarto inóspito ao qual me encontrava e solta a bomba de maneira afetada. Ela está gargalhando por dentro e eu sou a chacota.

— Caio? Caio Velasques? — Repito o nome junto ao sobrenome para me certificar que de fato a informação é real e não ouvi errado.

— A culpa é toda sua e da sua roda social restrita. — Ela dá de ombros e eu engulo em seco por me ver em um beco sem saída, senão aceitar ter por “príncipe” o mauricinho mais porra-louca de São Paulo.

O que eu fiz para merecer isso? Ok, a culpa é minha que nunca fui de muitos amigos, nem de rodas sociais. Talvez, olhando por essa ótica eu mereça.

Mas, pensando bem, até que isso me traz uma certa... satisfação. Caio Velasques é cunhado do meu amado irmão e eles se odeiam. Posso me aproveitar da situação.

— Ok, aceito o Caio. — Respondo no meu melhor tom, como quem acaba de fechar um negócio.

— Perfeito, vou agora mesmo ligar para Alicinha Velasques. Ela ficará encantada com a honra. — Minha mãe falta saltitar com meu aceite inconsequente.

— Já que tudo está decidido, vou para o meu quarto e vocês decidam todo o resto.

— Como assim vai para seu quarto, Gabriela? Seu vestido chega daqui a alguns minutos.

— Dona Elena... ¬— Dirijo a ela meu melhor sorriso. — Eles estão atrasados e aqui, temos uma infinidade de empregados que podem ir até o segundo andar chamar-me assim que a equipe da estilista chegar. Tenho certeza de que eles terão prazer em lhe obedecer. — Debocho e saio buscando meu refúgio. Preciso pôr para fora as lágrimas engolidas naquela sala antes que elas me sufoquem.

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