
Ele Enxergou Minha Alma, Não Minhas Cicatrizes
Capítulo 3
Ponto de Vista de Celina:
Os sussurros me seguiram, mesmo nos corredores estéreis do hospital. "Você viu o que Jeremias Chase disse sobre a esposa dele?" "Tão triste, uma mulher perdendo a cabeça assim." "Pobre Helena, o que ela deve ter passado." Suas palavras, como pequenas agulhas, picavam as feridas abertas da minha alma. Meu corpo era uma tapeçaria de dor, cada hematoma um testamento da brutalidade de Jeremias. Minha mente, no entanto, era uma paisagem fria e clara de determinação.
Assinei os papéis de alta eu mesma, minha mão ainda rígida, mas firme. Ninguém veio me buscar. Ninguém ligou. Meu marido rico, o homem que uma vez me prometeu o mundo, me abandonou para me curar sozinha.
Enquanto eu caminhava pelo longo corredor, uma voz familiar veio de uma porta aberta. Helena. E Jeremias. Meus pés, como se possuídos, me levaram para mais perto. Pela fresta da porta, eu o vi, segurando a mão de Helena, sua cabeça baixa, sussurrando palavras suaves. O rosto dela, embora ainda machucado, estava radiante.
"Helena, meu amor, sinto muito por tudo que Celina te fez passar", murmurou Jeremias, sua voz grossa com uma ternura que eu nunca tinha realmente ouvido dirigida a mim. "Ela nunca te mereceu. Você é a única para mim. Sempre foi."
Helena sorriu, um pequeno sorriso de conhecimento. "Eu sei, Jeremias. Estaremos juntos agora, não é? Assim como sempre deveríamos ter estado. Sem mais obstáculos."
"Sem mais obstáculos", ele ecoou, e então a beijou, um beijo longo e apaixonado que roubou o ar dos meus pulmões. "Celina foi apenas um meio para um fim. Um mal necessário pelo dinheiro. Você, minha querida, você é meu verdadeiro destino."
As palavras me cortaram, afiadas e precisas, deixando uma ferida aberta. Um meio para um fim. Mal necessário. Seu verdadeiro destino. Todo esse tempo, eu fui um peão, um recipiente para sua ambição. A traição foi tão profunda, tão absoluta, que arrancou os últimos vestígios da minha esperança.
Eu tropecei para trás, um soluço engasgado escapando dos meus lábios. O corredor do hospital ficou embaçado. Eu me virei e corri, o baque rítmico dos meus passos dolorosos ecoando no corredor vazio. A chuva caía lá fora, espelhando a tempestade em meu coração. Eu andei sem rumo, a água fria encharcando minha fina camisola de hospital, me gelando até os ossos. Cada gota de chuva parecia uma lágrima, lavando os últimos resquícios do meu amor ingênuo.
Eventualmente, me encontrei de volta à casa que não era mais minha. Os seguranças haviam partido, mas a porta da frente estava aberta, um convite zombeteiro. Entrei, meus passos pesados, e encarei os destroços da minha vida. Minhas roupas ainda estavam em pilhas espalhadas, meus pertences jogados ao acaso em caixas. Peguei uma fotografia da minha avó, seu sorriso caloroso um contraste gritante com a realidade fria ao meu redor. Era tudo o que me restava.
Comecei a empacotar o pouco que restava que era verdadeiramente meu. Alguns livros, um suéter gasto, o pequeno medalhão que minha mãe me deu. Meu corpo gritava a cada movimento, mas eu superei a dor, alimentada por uma raiva fervente.
Caí no chão, o esgotamento finalmente me vencendo. O mundo girou e, então, misericordiosamente, a escuridão me reivindicou mais uma vez.
Quando acordei, não estava mais no hospital estéril ou na minha casa arruinada. Eu estava em um pesadelo. Água. Água fria e escura pressionava por todos os lados. Eu estava em uma caixa de vidro gigante, um caixão transparente. Minha respiração falhou, um medo primitivo me dominando. A água estava subindo lenta e firmemente.
Através do vidro, eu o vi. Jeremias. Ele estava do lado de fora, um sorriso cruel torcendo seus lábios, me observando, seus olhos desprovidos de emoção. Predador e presa. Meu sangue gelou, uma certeza arrepiante se instalando em mim. Ele pretendia me matar.
"Jeremias! O que é isso?", gritei, minha voz abafada pelo vidro grosso. O som foi engolido pela água que subia.
Ele se inclinou para mais perto do vidro, sua voz distorcida, mas audível. "Você causou dor a Helena, Celina. Ela está chateada. E você me humilhou. Você precisa aprender uma lição."
"Helena mentiu!", gritei, pressionando minhas mãos contra o vidro. "Verifique as câmeras! Eu nunca a toquei!"
Ele riu, um som áspero e sem humor. "Você acha que eu me importo com a verdade? A sua verdade? Você é uma desgraçada venenosa e ingrata, Celina. E você tocou no que é meu."
Ele fez um sinal. Um segurança se aproximou, carregando um saco grande. Meus olhos se arregalaram de horror quando ele o desamarrou. Cobras. Dezenas delas, se contorcendo, sibilando. Ele as jogou na água comigo.
O pânico, frio e absoluto, me dominou. A água estava na altura da cintura agora, as cobras se enrolando em minhas pernas, seus corpos escamosos roçando minha pele. Eu gritei, um som gutural de puro terror, batendo contra o vidro. Uma delas me mordeu, uma picada aguda, depois outra. Minha pele se arrepiou, meu sangue parecia gelo.
"Vou chamar a polícia!", gritei, minha voz rouca, lágrimas escorrendo pelo meu rosto.
Jeremias simplesmente balançou a cabeça, seu sorriso inabalável. "Ninguém vai te ouvir, Celina. E mesmo que ouvissem, quem acreditaria na ex-esposa 'mentalmente instável'?" Ele fez uma pausa, seus olhos brilhando com um prazer doentio. "Pense nisso como uma amostra do que está por vir. Um lembrete de quem você realmente é."
Ele se virou, um monarca frio e indiferente deixando seu súdito condenado. A porta se fechou com um clique, mergulhando a sala em quase escuridão. Apenas o brilho fraco do tanque cheio de água iluminava meu inferno vivo. As cobras deslizaram para mais perto, suas presas encontrando apoio em minha carne trêmula. A dor era excruciante, mil pequenas picadas, cada uma uma nova onda de agonia.
Minha mente, em seus momentos finais de clareza, voltou ao dia do nosso casamento. Seus votos. "Eu te protegerei, te estimarei, te amarei, até que a morte nos separe." Mentiras. Tudo mentiras. Ele era a morte. Ele era o assassino.
A água alcançou meu peito. Meu corpo, fraco das surras anteriores, estava falhando. Eu lutei, me debati, mas as cobras estavam por toda parte. Meus pulmões queimavam. Minha visão escureceu. A última coisa que ouvi foi o deslizar, a última coisa que senti foi a água fria se fechando sobre minha cabeça.
De repente, um solavanco. Eu estava sendo puxada para fora. Arfadas. Tosses. Meu corpo estava no chão frio, tremendo incontrolavelmente.
"Levem-na para a sala de isolamento", a voz de Jeremias, distante e desapegada, chegou aos meus ouvidos. "Três dias. Sem comida, sem água. Deixe-a pensar no que fez."
Sala de isolamento. Eu estava vagamente ciente de ser arrastada, meu corpo raspando no concreto áspero. Uma porta bateu, me mergulhando na escuridão completa. O fedor de decomposição, de algo morto há muito tempo, encheu minhas narinas. Tentei me levantar, me orientar, mas minhas pernas cederam. Eu caí, minha mão pousando em algo duro e irregular. Osso. Osso humano. Um grito rasgou minha garganta, mas foi engolido pela escuridão sufocante.
Três dias. Três dias de terror, de sede, de fome. Três dias imaginando os restos esqueléticos sob meus dedos trêmulos. Perdi a noção do tempo, da realidade. Minha mente se fragmentou, meu corpo desidratado e quebrado. Eu flutuava dentro e fora da consciência, a escuridão minha única companhia.
Você pode gostar





