
Ele achou que eu aguentaria calada
Capítulo 2
Clara Matos POV:
Na manhã seguinte, eu estava sentada em frente à minha melhor amiga, Juliana Lopes, em um café tranquilo no Itaim. O vapor que subia da minha xícara de café pouco fazia para aquecer o frio que se instalara no fundo dos meus ossos.
Juliana, uma advogada de família com uma mente tão afiada quanto seu blazer bem cortado, mexia seu latte, o olhar fixo em mim. "Você está falando sério", disse ela. Não era uma pergunta.
"Tão sério quanto um infarto."
Ela se recostou, sua expressão uma mistura de choque e algo que parecia suspeitamente com alívio. "Clara, eu vi você amar esse homem como se ele fosse um deus. Você planejou toda a sua carreira em torno da dele, entrou na firma dele para apoiá-lo, decorou sua casa exatamente de acordo com o gosto estéril e minimalista dele. Você aprendeu a gostar de café puro porque ele gosta."
"Eu cansei, Ju", sussurrei, as palavras parecendo finas e inadequadas. "Estou incrivelmente cansada de tentar."
Então eu contei o resto. "Ela voltou."
Eu não precisei dizer o nome. Os olhos de Juliana endureceram instantaneamente. Ela sabia. Claro que ela sabia.
Isabela Ferraz. O nome tinha sido uma ferida que nunca cicatrizava na minha pele por cinco anos. Uma infecção constante e de baixo grau no meu casamento. Bruno era obcecado por privacidade, uma fortaleza de senhas e arquivos bloqueados em seu computador, seu celular era território proibido. "Eu preciso do meu espaço, Clara", ele dizia se eu sequer olhasse para uma notificação em sua tela.
No entanto, suas antigas contas de redes sociais da faculdade, aquelas para as quais ele alegava ter esquecido as senhas, eram uma galeria pública de seu tempo com ela. Fotos deles se beijando, legendadas com piadas internas que eu nunca entenderia. Ele me fez sua esposa, mas a manteve como sua história pública.
A ferida se aprofundou. Lembrei-me da primeira vez que ele me levou ao seu restaurante italiano favorito, no Bixiga, insistindo que eu provasse o nhoque. "É o melhor que você vai comer na vida", ele prometeu. Foi só mais tarde, quando vi uma foto dele e de Isabela naquela mesma mesa, um prato vazio de nhoque entre eles, que percebi que ele não estava compartilhando seu prato favorito comigo; ele estava revivendo uma memória com ela.
Ele passou cinco anos comigo, tentando recriar uma vida que teve com outra pessoa. Eu não era sua parceira; eu era uma substituta, uma atriz fantasma na reencenação de seu próprio passado. Ele não apenas me negligenciou; ele tentou ativamente me apagar, me moldar em uma forma que se encaixasse no vazio que ela havia deixado.
"Vou preparar a papelada até o final do dia", disse Juliana, sua voz firme, me puxando da espiral de memórias dolorosas. "Você tem certeza, Clara? Depois que dermos entrada, não tem volta. Você sabe como ele é. Ele vai lutar contra você."
"Eu sei", eu disse. "Ele vai ver isso como um desafio à sua autoridade, não como o fim de um relacionamento."
Juliana me avisou sobre ele desde o início. "Ele te olha como se você fosse um quadro lindo que ele acabou de comprar", ela disse depois do nosso casamento. "Não como a mulher sem a qual ele não consegue viver." Eu não ouvi. Acreditei que o amor era algo que se podia construir, que minha paciência e devoção seriam eventualmente suficientes.
"Sabe", eu disse, olhando pela janela enquanto o céu começava a escurecer, "é como todo mundo te diz que o fogão está quente. Mas você não entende realmente o que 'quente' significa até tocar nele."
Uma chuva forte começou de repente, a água batendo contra as grandes janelas do café, borrando o mundo lá fora. Alguns minutos depois, o noivo de Juliana, um homem gentil e amável chamado Marcos, apareceu com um guarda-chuva.
"Pensei que você pudesse precisar disso", disse ele, entregando-o a ela antes de beijar suavemente sua testa. "Pronta para ir?"
"Quase", disse ela, seus olhos se suavizando ao olhá-lo. "Clara, precisa de uma carona?"
O carinho fácil entre eles, o cuidado casual e impensado, era um contraste gritante com as transações calculadas do meu próprio casamento. Bruno e eu não tínhamos isso. Tínhamos agendas e obrigações. Tínhamos um endereço e um sobrenome em comum, mas nossos corações residiam em cidades diferentes.
"Não, estou bem", eu disse, forçando um sorriso. "Vou esperar a chuva diminuir."
Eu os observei sair, abraçados sob o único guarda-chuva, uma imagem perfeita de parceria. A pergunta ecoou em minha mente, uma que eu vinha afastando por anos. Por que era tão difícil para Bruno me amar? Eu não era inteligente o suficiente? Não era bonita o suficiente? Não era... o suficiente?
A chuva escorria pelo vidro, como lágrimas em um rosto frio. E então, a resposta me atingiu com a força de um golpe físico, tão simples e tão devastadora.
Não era sobre mim. Eu poderia ter sido a mulher mais perfeita do mundo. Não teria importado.
Ele simplesmente não me amava o suficiente. E nunca amaria.
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