
Ele achou que eu aguentaria calada
Capítulo 3
Clara Matos POV:
A chuva finalmente diminuiu para uma garoa suave. Paguei meu café e empurrei a pesada porta de vidro, o ar frio e úmido um choque bem-vindo aos meus sentidos. Ao pisar na calçada escorregadia, um carro familiar parou no meio-fio logo à frente.
Um Audi preto e elegante. O carro de Bruno.
Meu coração disparou. Ele saiu, mas não estava olhando para mim. Estava abrindo a porta do passageiro. Isabela Ferraz surgiu, uma visão em um trench coat creme, seus cabelos ruivos capturando a luz sombria.
Bruno finalmente me viu. Não havia surpresa em seus olhos, nem culpa. Apenas uma irritação fria e direta. Ele achou que eu o tinha seguido.
Ignorei-os, focando em desbloquear o aplicativo de carro no meu celular. A última coisa que eu queria era outra cena. Ao descer do meio-fio para atravessar a pequena rua lateral em direção ao meu carro, meu salto prendeu em uma pedra portuguesa irregular.
Uma dor aguda e lancinante subiu pelo meu tornozelo. Gritei, tropeçando, meu celular caindo no asfalto molhado.
Bruno não se moveu. Ele observou, o rosto impassível, enquanto eu lutava para me equilibrar, meu tornozelo latejando em protesto.
Ele se virou, disse algo para Isabela e então entrou no mesmo café de onde eu acabara de sair. Ele passou por mim, seu perfume caro uma presença fantasma no ar úmido, como se eu não fosse nada mais que uma estranha, um obstáculo inconveniente na calçada.
Apoiei-me em uma parede de tijolos, mordendo o lábio para não gritar enquanto ondas de dor pulsavam do meu tornozelo. Estava inchando rapidamente. Eu não conseguia colocar nenhum peso sobre ele.
Um minuto depois, Bruno saiu do café segurando dois copos fumegantes. Ele caminhou até mim, sua expressão indecifrável.
"Vamos", disse ele, a voz ríspida e impaciente. Ele não perguntou se eu estava bem. Não ofereceu ajuda. Ele ordenou.
"Eu não pedi para você esperar", eu disse com os dentes cerrados, tentando me levantar.
Ele ignorou meu protesto. Com um suspiro frustrado, ele colocou os copos no teto do carro, abaixou-se e me pegou nos braços antes que eu pudesse resistir. Seus movimentos eram eficientes e impessoais, como se estivesse carregando uma carga.
Ele me depositou no banco do passageiro, bateu a porta e entrou no lado do motorista. Ele me entregou um dos copos. Era café puro. A preferência dele, não a minha. Empurrei-o de volta para o porta-copos sem uma palavra.
O silêncio no carro era denso e sufocante. No banco de trás, Isabela pigarreou.
"Ah, Bruno, estou me sentindo um pouco enjoada", disse ela, a voz suave e delicada. "Você sabe como eu fico."
Instantaneamente, todo o comportamento de Bruno mudou. "Certo, claro", disse ele, a voz suavizando com uma preocupação que fez meu estômago revirar. "Eu esqueci. Igual àquela vez que fomos para aquele chalé em Campos do Jordão, lembra? Você ficou verde o caminho todo."
"Mas você cuidou de mim", ela murmurou, e eu pude ouvir o sorriso em sua voz. "Você sempre cuidou."
Eles caíram em uma reminiscência fácil, seu passado compartilhado um clube quente e exclusivo do qual eu era deliberadamente excluída. Senti-me como uma intrusa no carro do meu próprio marido, uma estranha ouvindo uma conversa particular.
Passamos pelo antigo Jardim Botânico, sua cúpula de vidro brilhando na chuva. Minha garganta se apertou. Ele me levou lá no nosso primeiro encontro. Ele me disse que era seu lugar favorito na cidade, um santuário tranquilo. Ele me beijou pela primeira vez sob a figueira imponente na estufa tropical. Eu havia guardado aquela memória, apegando-me a ela como prova de que ele, em algum momento, sentiu algo real por mim.
Agora, ouvindo ele e Isabela falarem sobre suas viagens de faculdade e memórias compartilhadas, uma percepção doentia surgiu. Ele não havia compartilhado seu santuário comigo. Ele me levou a um lugar que já era sagrado para eles. Eu era apenas uma visitante em uma memória que não era minha.
Minha mente brilhou com uma centena de outras instâncias. O clube de jazz que ele amava, a livraria vintage que frequentava, a marca específica de vinho que sempre pedia. Alguma daquelas coisas era nossa? Ou eu estava apenas vivendo no eco de uma vida que ele já havia vivido com ela?
Devo ter cochilado, a dor e o esgotamento emocional finalmente me sobrecarregando. Quando acordei, estávamos estacionados na entrada da nossa casa. O banco de trás estava vazio. Isabela tinha ido embora.
Bruno estava olhando para o meu tornozelo inchado. "Você torceu de propósito?", ele perguntou, a voz baixa e acusadora. "Isso foi algum tipo de teatro para chamar atenção, Clara?"
O absurdo de suas palavras, o narcisismo puro e absoluto, fez algo dentro de mim quebrar.
"Sim, Bruno", eu disse, minha voz pingando um sarcasmo que eu não sabia que possuía. "Claro. Eu me machuquei intencionalmente na remota chance de você se dignar a notar minha existência. Meu mundo inteiro gira em torno de chamar sua atenção, você não sabia?"
"Não seja ridícula."
"Eu não sou a ridícula aqui", retruquei, virando-me para encará-lo completamente. "Você quer saber o que é ridículo? Acreditar por um segundo que eu preciso de você. Eu era uma arquiteta excelente antes de te conhecer, e serei uma arquiteta excelente depois que você se for."
Um brilho perigoso entrou em seus olhos. "Isso é um desafio?"
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