
DUAS ALMAS SOFRIDAS
Capítulo 2
Maya Feliciano
Quando o policial disse que o meu pai tinha se envolvido em um acidente de carro e que ele não sobreviveu, todo o meu mundo caiu. Ele era um homem maravilhoso, que sempre lutou para conseguir dar uma vida melhor, tanto para mim, como para minha mãe.
Foram dias difíceis, após o sepultamento, sentamos e fomos ver quais as providências teríamos que tomar. Verificamos as contas e descobrimos que tudo o que meu pai ganhava era colocado dentro de casa. Não tinha nenhuma reserva guardada e o que recebemos com a sua morte, apenas nos manteve por um mês. Tínhamos que procurar um trabalho.
Minha mãe era formada em enfermagem. Quando ela se casou com meu pai, ele pediu que ela parasse sua carreira, por causa dos plantões que muitas vezes ia por noite adentro.
Ela só concordou quando engravidou de mim, e, como teve problemas na gravidez, decidiu que não queria ter outros filhos. Meu pai era caminhoneiro, fazia apenas viagens curtas e não ficava fora de casa por muito tempo. Eu estava me preparando para prestar vestibular, seria minha grande chance de entrar numa faculdade pública aqui na minha cidade.
Pretendo prestar vestibular para o curso de Economia. Sempre gostei de estudar e com a ajuda do meu professor, pude compreender melhor essa parte dos números. Apenas assim poderia conseguir um emprego na área para ajudar a minha mãe com as despesas de casa. Por enquanto, não tenho experiência para arrumar algo na minha área, mas a oportunidade que tiver já estará valendo.
Minha mãe conseguiu um emprego de cuidadora. Irá cuidar de um senhor de 80 anos, pois os filhos preferem pagar alguém a tomar conta de seu próprio pai. Infelizmente, o horário que ela vai trabalhar é muito puxado, quase doze horas por dia, então, eu terei que estudar e trabalhar e, ainda cuidar da casa.
— Bom dia, filha. Está animada para hoje?
— Bom dia, mãe. Estou um pouco nervosa, preciso muito passar nessa prova. Não temos dinheiro para uma faculdade particular, essa também será minha chance para melhorarmos de vida.
— Vai dar tudo certo. Eu tenho certeza de que você irá conseguir.
— Deus a ouça, mãe.
— Venha tomar seu café, tem que estar bem alimentada.
— Obrigada, mãe.
Não foi fácil, mas dei o melhor de mim, e tenho certeza de que conseguirei passar.
Saí daquela sala com muita esperança. De volta para casa, resolvi andar um pouco para espairecer. Quando chego perto de um grande mercado, que tinha pouco tempo de inaugurado, vejo que tem uma vaga de caixa. Sei que nunca trabalhei, mas mesmo assim vou tentar. O não eu já tenho, vou correr atrás do meu sim.
— Boa tarde! Senhor, eu gostaria de saber sobre a vaga de caixa.
— Você tem experiência?
— Não senhor, mas eu tenho muita força de vontade e consigo aprender rápido. Eu estou precisando muito de um emprego.
— Vamos fazer um teste, no período de uma semana. Quero ver como você se sai. Se realmente é capaz, mesmo sem experiência.
— Muito obrigada! Prazer, meu nome é Maya.
— Muito prazer Maya! Sou Vagner, um dos gerentes.
— Tenho duas vagas, uma para o período da manhã e outra para o período da noite. Com qual você deseja ficar?
— Se não for pedir muito, eu gostaria de ficar com vaga da manhã, pois acabei de fazer vestibular e se tudo der certo irei começar a faculdade à noite.
— Por mim tudo bem. Então, te vejo amanhã às oito horas, não se atrase.
— Não me atrasarei, e, desde já agradeço a oportunidade. O senhor não irá se arrepender.
Fui para casa muito feliz, pelo jeito as coisas iriam melhorar. Agora, tanto eu, como minha mãe, conseguimos um emprego. Portanto, só falta passar no vestibular para a minha vida ficar perfeita.
Não via à hora da minha mãe chegar e contar a novidade. Só queria que meu pai estivesse aqui, apesar de já ter passado seis meses de sua morte, eu ainda tenho pesadelos com o dia da sua morte. Sei que minha mãe chora quase todas as noites, eu a escuto do meu quarto. Muitas vezes eu vou até ela e apenas a abraço, não consigo dizer nada, porque nessa hora, nada que se diga vai diminuir a dor.
Vou fazer o jantar e organizar a casa, não quero que ela faça nada quando chegar. Sei que sempre vem muito cansada e mesmo assim ainda quer deixar tudo limpo.
Depois de tudo arrumado, vou até meu quarto tomar um banho, tirar o cansaço. Após o banho, vou até a cozinha fazer o jantar, irei fazer macarrão ao molho branco, que era a comida favorita do meu pai.
Depois de tudo pronto, vou assistir televisão enquanto espero minha mãe chegar, coisa que não demora muito.
— Boa noite, mãe!
— Boa noite, filha. Nossa que cara boa, isso quer dizer que você foi bem na prova, acertei?
— Eu acho que sim, mas não é por isso que estou radiante. Eu consegui um emprego naquele supermercado novo, que inaugurou há pouco tempo. Ainda não fui contratada, vou ficar em experiência por uma semana, mas vou me esforçar muito para conseguir a vaga.
— Essa é uma ótima notícia, mas e aí como foi a prova? Você acha que foi bem?
— Eu tenho certeza que sim.
Jantamos e conversamos muito, coisa que não fazíamos com frequência, pois ela sempre chegava cansada e falava o mínimo possível, mesmo quando estava de folga era igual, já que eu sempre estava estudando. Acho que ela se sente sozinha, assim como eu. Mais tarde quando fomos dormir, já estava me sentindo bem e com muita esperança de que daquele dia em diante, tudo seria diferente e, assim, acabei pegando no sono.
Minha segunda-feira começou muito bem. Fui trabalhar e gostei muito de tudo que aprendi, as pessoas foram muito legais comigo. Para uma novata, até que me saí muito bem. E assim se passou a semana.
No dia em que terminaria minha experiência, fui chamada até o escritório do gerente. Ele me disse que eu me saí muito bem, que estava contratada e que deveria trazer meus documentos no outro dia para entregar ao RH. Nem acreditei. O trabalho não era fácil, tinha que prestar muita atenção para não dar troco errado e também tinha muito cliente que se achava esperto em passar notas falsas. Em apenas uma semana, já tinha recebido duas. Assim, foram se passando os dias, e a ansiedade de saber o resultado das provas estava me matando.
Quando o dia chegou, eu não tive coragem de ir verificar se meu nome constava na lista. Como tinha uma colega, que também tinha prestado na mesma faculdade, pedi para ela verificar se meu nome estava na lista.
— Maya Feliciano, seu nome está bem aqui. Você conseguiu — disse com um sorriso. — Vamos estudar na mesma faculdade!
— Você jura que eu passei? Não está brincando comigo não, né Ester?
— Eu jamais faria isso com você. Não é porque nos conhecemos a tão pouco tempo que seria louca de fazer uma brincadeira dessas.
— Eu passei! Nossa minha mãe vai ficar muito feliz. Agora sim, minha vida irá mudar.
Eu não tinha como demonstrar como eu estava feliz. Finalmente minha vida estava caminhando muito bem, estava empregada e tinha conseguido passar na faculdade.
— Boa noite, mãe!
— Boa noite, filha. Que sorriso é esse, o que aconteceu?
— Eu consegui mãe! Eu consegui passar na faculdade.
— Eu sabia que você ia conseguir! Estou muito feliz por você, seu sonho está se realizando.
— Sim mãe, agora tudo vai dar certo. Depois de dois anos eu já posso fazer estágio em uma empresa, exercendo a minha profissão. No começo não irei ganhar muito, mas quando estiver formada, o salário será melhor e poderemos até pensar em mudar dessa casa para um lugar melhor.
— Você nunca deixa de sonhar Maya? Essa casa foi a única coisa que seu pai deixou, mesmo não sendo num lugar melhor, é só isso que temos. Não estou dizendo que no futuro não possamos mudar, mas não quero pensar nisso agora. Vamos esperar você se formar e aí sim, quando você estiver ganhando o seu tão sonhado milhão, a gente conversa novamente.
— Mãe, eu sei que essa casa é tudo que temos e sei que foi nesse lugar que meu pai gastou todas suas economias, mas não pode me julgar por querer te levar para uma região melhor. Sabe que esse bairro não tem só pessoas boas, tem as ruins também, mas tudo bem. Como você mesmo disse, eu vou parar de sonhar por enquanto e quando eu estiver ganhando bem, nós vamos nos mudar.
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