
Dois Corações, dois tempos, um amor.
Capítulo 3
Laura estava de pé. Ou pelo menos tentava. As pernas tremiam e a cabeça ainda latejava. Aquele homem alto, bonito demais para ser real, continuava parado diante dela com uma capa estendida, esperando que ela a aceitasse.
Ela não se moveu.
- Você quer que eu me cubra... por quê? Porque minhas pernas estão à mostra?
Edward manteve a expressão serena.
- Não é apenas isso. Está escuro, está sozinha, e... é perigoso.
- Perigoso é confiar em um completo estranho! - ela deu um passo para trás, afundando a bota na lama.
Ele não se aproximou. A capa ainda erguida como um gesto de boa vontade.
- Se preferir, posso ir embora. Mas seria uma irresponsabilidade da minha parte. Não sei de onde veio, mas pelo estado em que está... claramente não pertence a esse lugar.
Ela arregalou os olhos. A frase. Era parecida com a que lera no celular momentos antes.
"Você não pertence a esse lugar".
- Quem te mandou? - perguntou num tom quase desesperado. - Isso é algum tipo de loucura? Uma pegadinha?
Ele franziu o cenho.
- Ninguém me mandou. Apenas estava cavalgando.
Laura balançou a cabeça. Sentia-se suja, gelada, e com raiva. Raiva do frio, da dor, do vestido novo imundo e, principalmente, daquele homem que agia como se estivesse num teatro vitoriano.
Ela cruzou os braços sobre o peito.
- Eu não vou com você. Me deixe em paz.
- Não é seguro ficar sozinha à noite nessa estrada. - ele falou, mais firme. - Há animais. Há homens. E você... está claramente confusa.
- Agradeço a preocupação. Agora vá.
Edward hesitou por um momento, e então deu um passo para trás, erguendo as mãos, entregando-se à decisão dela.
Foi nesse momento que o som de rodas surgiu ao longe, e uma carruagem elegante se aproximou. Era pequena, puxada por um único cavalo, com uma luminária pendendo de um dos lados.
Quando se aproximou e parou, Laura viu um jovem de talvez dezoito anos sentado à frente, com a rédea nas mãos, e uma garota menor ao seu lado - cabelos em tranças e expressão curiosa.
O rapaz arregalou os olhos ao vê-la. A boca entreaberta, como se tivesse acabado de ver uma pintura renascentista, viva, com as pernas à mostra.
- Oh, Deus do céu... - ele sussurrou, arregalando ainda mais os olhos. - É um anjo? Uma ninfa? Uma... pecadora?
A irmã estapeou o ombro dele.
- Pare de olhar!
Edward deu um passo à frente, imponente.
- Mantenha os olhos baixos, rapaz. Não é apropriado. Ela precisa de ajuda, não da sua saliva.
- Eu só... pensei que talvez... pudesse ajudar. Temos lugar na carruagem, se quiserem...
- Está tudo sob controle. - Edward cortou seco. - Voltem à cidade. Digam a sua mãe que estou descendo com uma visitante e que ela está... desorientada.
- Sim, senhor. - o jovem assentiu rapidamente, e deu uma última olhada de canto de olho para Laura antes de virar o rosto, corando. - Boa noite, madame. A senhora é... muito diferente.
A carruagem seguiu, deixando poeira e silêncio no ar.
Laura olhava para Edward, a capa ainda entre os dedos.
- Você é um tipo de... chefe aqui?
- Eu sou apenas alguém com bons modos. E recursos. Tenho uma casa perto da trilha. Lá há abrigo. Calor. E, se desejar, um médico.
Ela hesitou. A raiva ainda queimava, mas o frio começava a dominar tudo. Os dedos estavam dormentes. A cabeça girava.
- Você pode me levar até esse médico. Mas... sem me tocar. E sem tirar os olhos de mim.
Edward sorriu de leve.
- Jamais faria diferente.
Ela respirou fundo... e aceitou a capa.
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