
Doce Vingança: O Amargo Traidor
Capítulo 2
O cheiro doce de chocolate e baunilha preenchia cada canto da "Doce Cacau" , minha confeitaria. Era meu refúgio, o lugar onde a dor se transformava em arte, onde a tristeza virava açúcar. Mas naquele dia, nem o aroma mais doce conseguia disfarçar o amargo que subia pela minha garganta.
Dona Zilda, minha sogra, sentou-se em uma das mesas cor-de-rosa, com a barriga de seis meses de gravidez bem à mostra. Aos sessenta anos, ela exibia a gravidez como um troféu, um milagre divino que todos deveriam admirar e, principalmente, servir.
"Cacau, querida, você não vai me trazer um copo d'água? O bebê está me deixando com uma sede terrível."
Continuei limpando o balcão de vidro, sem sequer virar o rosto para ela. Minha voz saiu fria, cortante.
"A confeitaria está fechada para a família. Se quiser água, a cozinha da sua casa fica a dois quarteirões daqui."
O silêncio que se seguiu foi pesado. Dona Zilda ofegou, um som teatral que ela dominava com perfeição.
"Maria da Graça! Que desaforo é esse? Depois de tudo que eu fiz por você, é assim que me trata? Grávida, carregando o seu cunhadinho no ventre?"
Eu me virei lentamente, o pano de limpeza ainda na minha mão. Olhei diretamente para a barriga dela e depois para seu rosto chocado.
"Seu filho. Não meu cunhado. E eu não te devo nada."
Dona Zilda levou a mão ao peito, a expressão de dor se aprofundando. Ela sabia exatamente o que fazer. Seus olhos se encheram de lágrimas e ela gritou em direção à porta da confeitaria, onde meu marido, Bruno, a esperava do lado de fora.
"Bruno! Bruno, meu filho, venha aqui! Sua esposa está tentando me matar de desgosto! Ela quer que seu irmãozinho morra de sede!"
Bruno entrou apressado, o rosto vincado de preocupação. Ele olhou de mim para a mãe, a confusão e a exaustão evidentes em seus olhos. Ele era um homem bom, gentil, mas estava preso no meio de um furacão.
"Cacau, o que está acontecendo? É só um copo d'água. Por que tratar minha mãe assim?"
A voz dele era mansa, apaziguadora, mas por baixo havia uma nota de acusação. Ele sempre tentava consertar as coisas, sempre pedia para eu ter paciência.
"Ela não é uma inválida, Bruno. E eu não sou empregada dela", respondi, minha voz sem emoção.
"Pelo amor de Deus, ela está grávida! É uma gravidez de risco! Você não tem coração? O médico disse que ela precisa de cuidados, de repouso. Eu pensei que você poderia ajudar, fechar a confeitaria por uns meses e cuidar dela. Eu te pago um salário, se for o caso."
A menção de dinheiro foi a gota d'água. Senti uma onda de fúria subir, tão quente que minhas mãos tremeram. Eu me aproximei dele, meu rosto a centímetros do seu.
"Você quer me pagar? Para cuidar da mulher que…" Eu parei, engolindo as palavras que queriam sair. Não ali. Não na frente dela.
Sem pensar, dei um tapa forte no braço dele, um ato de pura frustração.
"Nunca mais me ofereça seu dinheiro para fazer uma coisa dessas. Leve sua mãe daqui. Agora."
Dona Zilda, vendo a briga física, viu sua oportunidade. Ela se levantou com dificuldade e correu para a rua, gritando para quem quisesse ouvir.
"Socorro! Me ajudem! Minha nora me agrediu! Ela está tentando me expulsar de casa! Uma pobre velha grávida!"
Os vizinhos, sempre curiosos, começaram a sair de suas casas. Janelas se abriram. Cochichos se espalharam pela rua como fogo em mato seco. Em minutos, um pequeno grupo se formou na calçada, olhando para dentro da minha confeitaria com olhos julgadores. A vergonha e a raiva lutavam dentro de mim.
Bruno, vendo a cena, tentou me puxar para o fundo da loja, para longe dos olhares. Sua voz era um sussurro desesperado.
"Cacau, por favor, para com isso. O que deu em você? Você não era assim. Desde que você perdeu o bebê, você virou outra pessoa."
As palavras dele me atingiram. Ele ousou mencionar meu filho. Meu filho perdido.
"Não fale do meu filho", sibilei, a voz carregada de uma dor que ele nunca entenderia.
Ele interpretou mal minha dor, como sempre. Achou que era apenas luto. Ele abriu a carteira, tirou um bolo de notas e estendeu para mim.
"Tome. Compre o que quiser. Um vestido novo, sapatos. Apenas… seja boazinha com a minha mãe. Por favor."
Olhei para o dinheiro na mão dele, depois para o seu rosto. Era como se ele estivesse tentando comprar minha alma, meu silêncio, minha dignidade. Com um movimento rápido, peguei o bolo de dinheiro e o joguei no chão.
"Eu não quero seu dinheiro sujo."
Ele ficou chocado. A rejeição o enfureceu. Seu rosto se contorceu de raiva. Ele olhou ao redor, seus olhos pousando em um delicado bolo de três andares que eu tinha acabado de decorar para um casamento. Era uma obra de arte, coberto de flores de açúcar que levei dias para fazer.
Num acesso de fúria, ele caminhou até o bolo e o empurrou do balcão.
O bolo se espatifou no chão em um silêncio ensurdecedor. Creme, massa e flores de açúcar destruídas. Meu trabalho, minha paixão, reduzidos a nada.
"Se você não vai cuidar da minha mãe, então talvez você deva ir embora", ele rosnou, a voz cheia de veneno. "Volte para o buraco de onde você veio. Talvez assim você aprenda a dar valor a uma família de verdade."
Eu olhei para os destroços do bolo, para o rosto furioso do homem que eu um dia amei, e para a multidão de vizinhos que agora assistia ao show em silêncio. Uma frieza tomou conta de mim. A dor deu lugar a uma resolução de aço.
Apontei para a porta.
"Saia. Você e ela. Peguem suas coisas e saiam da minha casa. E nunca mais voltem."
Minha casa. A casa que Bruno, o verdadeiro Bruno, tinha comprado para nós. Aquele homem na minha frente não era mais o meu marido. Ele era um estranho. E eu iria descobrir o porquê.
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