
Doce Vingança: O Amargo Traidor
Capítulo 3
Naquela noite, a casa estava silenciosa, mas a tensão era palpável. Bruno e Dona Zilda não foram embora, claro. A casa era legalmente de Bruno, e eles sabiam disso. Eles ficaram, transformando meu lar em um campo de batalha.
A fome apertou meu estômago. Fui para a cozinha e comecei a preparar algo para mim. Peguei ovos, queijo e pão. Enquanto a frigideira esquentava, o cheiro de ovos mexidos se espalhou pela casa.
Dona Zilda apareceu na porta da cozinha, o nariz se contorcendo. Ela me observou colocar os ovos fumegantes em um prato.
"Você vai comer tudo isso sozinha?", ela perguntou, a voz melosa escondendo a demanda. "Seu pobre marido trabalhou o dia todo, ele deve estar faminto. E eu preciso me alimentar bem por causa do bebê."
Ignorei-a completamente. Sentei-me à mesa da cozinha e comecei a comer, saboreando cada garfada como se fosse a refeição mais deliciosa do mundo. Eu a ouvi bufar de indignação.
Logo depois, Bruno entrou, atraído pelo cheiro. Ele olhou para o meu prato, depois para o fogão vazio.
"Cacau, você não fez nada para nós?", ele perguntou, a incredulidade em sua voz.
Engoli a comida lentamente antes de responder.
"A cozinha está livre. Se estão com fome, cozinhem."
"Mas você cozinhou para você!", ele protestou. "Não custava nada fazer um pouco a mais."
Dona Zilda começou a choramingar no fundo. "Ela quer nos matar de fome, meu filho. É isso."
Eu olhei para Bruno, um sorriso frio nos lábios.
"Sabe, eu preferiria dar essa comida para um cachorro de rua do que para vocês dois. Pelo menos o cachorro seria grato."
A expressão de Bruno endureceu. O insulto o atingiu.
"Já chega, Cacau! Eu não vou mais tolerar essa sua atitude. Se você não consegue respeitar minha mãe, a avó do seu futuro cunhado, então talvez não haja mais lugar para você nesta casa! Eu quero o divórcio!"
Era uma ameaça vazia, e nós dois sabíamos. Divorciar-se de mim significaria dividir os bens. A confeitaria, a casa. Tudo que o verdadeiro Bruno tinha construído. Este homem, este impostor, não queria perder o controle do patrimônio. Ele recuou assim que as palavras saíram de sua boca, percebendo o erro tático.
Ele suspirou, tentando uma abordagem diferente.
"Olha, vamos fazer um acordo. Eu sei que você está chateada. Eu vou contratar uma cuidadora para a mamãe. Uma profissional. Assim você não precisa se preocupar com ela. Tudo que eu peço é um pouco de paz nesta casa."
Parecia uma solução, uma trégua. Mas eu sabia que era apenas uma nova estratégia. Concordei com um aceno de cabeça, sem dizer uma palavra. Eu queria ver até onde a farsa deles iria.
No dia seguinte, uma mulher chamada Lúcia chegou. Ela era uma cuidadora de meia-idade, com um rosto simpático e mãos firmes. Mas em poucas horas, ficou claro qual era seu verdadeiro papel. Dona Zilda a usava como um megafone para suas queixas.
Enquanto eu trabalhava na confeitaria, ouvia a voz de Lúcia flutuando da varanda da casa, conversando alto com os vizinhos que passavam.
"Coitadinha da Dona Zilda. A nora não lhe dá um pingo de atenção. Ontem à noite, nem comida fez para a pobre senhora grávida. Tive que esquentar uma sopa enlatada para ela. Um absurdo!"
Dona Zilda sentava-se ao lado dela, suspirando e fazendo cara de mártir, alimentando Lúcia com mais mentiras para espalhar pela vizinhança. Minha reputação estava sendo destruída, tijolo por tijolo, e elas estavam adorando cada momento.
Uma tarde, eu estava no meu quarto, organizando algumas caixas. Em uma delas, encontrei o pequeno baú de madeira onde guardava as coisas do meu bebê. As roupinhas que nunca foram usadas, o sapatinho de lã que eu mesma tricotei, a primeira imagem do ultrassom. Eu o abri, e a dor me atingiu como um soco no estômago.
Dona Zilda apareceu na porta, observando-me com seus olhos de falcão.
"O que é isso?", ela perguntou.
"Nada que te interesse", respondi, fechando o baú rapidamente.
Seus olhos brilharam com uma malícia repentina.
"São as coisas daquele bebê que você perdeu, não é? Que pena. Mas sabe, agora que meu netinho vai nascer, ele vai precisar de roupas. Seria um desperdício deixar essas coisas guardadas. Você deveria dá-las para mim. Para o filho de verdade do Bruno."
O ar saiu dos meus pulmões. A audácia. A crueldade. Ela queria que eu desse as únicas lembranças do meu anjo para o filho dela.
Levantei-me, o baú de madeira pressionado contra meu peito como um escudo.
"Você nunca vai tocar nestas coisas", eu disse, a voz tremendo de raiva contida. "Nunca. Saia do meu quarto."
Ela sorriu, um sorriso vitorioso. Ela tinha conseguido o que queria. Tinha me provocado, me ferido mais uma vez.
"Mulher egoísta. Nem mesmo na morte do seu filho você consegue pensar nos outros."
Ela se virou e saiu, deixando-me sozinha com minhas memórias profanadas e uma certeza que queimava como ácido no meu peito. Aquela mulher não era apenas cruel. Havia algo muito mais sombrio por trás de seus olhos. E o homem que se passava por meu marido era seu cúmplice.
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