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Capa do romance Doce Flor de Jasmim

Doce Flor de Jasmim

Jasmim perdeu o pai militar aos cinco anos e agora, aos vinte e três, busca recomeçar. Seu foco é o restaurante da família, cuidar da mãe e estudar artes para ser fotógrafa. No entanto, seus planos mudam ao conhecer Meyer, o novo vizinho. O carismático alemão lidera um império de tráfico internacional sob a fachada de uma casa noturna. Entre o legado militar dela e o crime dele, surge uma conexão intensa. Poderá o amor unir dois mundos tão opostos e perigosos?
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Capítulo 2

*— Seja bem vinda de volta, meu amor. — Minha mãe falou ao me ver passar pela porta carregando uma mala.

— Obrigada, minha vida. Estava com tanta saudade! — Falei a abraçando de lado e passando para dentro.

— Sei que você vai se acostumar com as coisas, o restaurante está lindo! Eu sonhei com o dia em que você passaria por essa porta novamente. — Minha mãe disse com os olhos marejados.

— Eu também minha mãe, eu também! — Falei sorrindo.

— Vamos, vamos até o seu quarto. Está do jeito que você deixou! — Ela disse fungando e me guiando até o andar de cima. — Minha doce Jasmim, meu raio de Sol. Seu pai ficaria orgulhoso de você.

— Ele ficaria... — Falei ao entrar em meu quarto e vê-lo literalmente da mesma forma que deixei. Há sete anos. Eu estava feliz em voltar para casa.*

Eu tinha tudo para ser feliz, tudo e mais um pouco... Mas aos cinco anos deixei de ser como essas garotas que acreditam em meros contos de fadas. Eu acreditava nos livros e nessa coisa de ter um amor da sua vida, mas não acreditava que pudesse acontecer comigo. Com vinte e três anos, prestes a ingressar na faculdade de artes visuais para viver o meu sonho de fotografar belezas nos meros detalhes pelo mundo a fora, nascida na cidade de São Paulo e filha de Militar que serviu no exercito, eu estava finalmente no lugar que eu desejava. Todo o meu mundo virou de cabeça para baixo quando meu pai morreu em serviço quando eu tinha apenas cinco anos, minha mãe nunca deixou de ter os olhos brilhando ao falar o quanto ele era um ótimo esposo, carinhoso, gentil, um príncipe. Eles foram casados por oito anos. Apenas oito anos para fazer a mulher que ama, a pessoa mais feliz do mundo. Dona Marília – minha mãe – sempre foi uma mulher guerreira, dona de seu restaurante no centro de Holambra, cidade onde moramos. Eu amava meu pai com todas as minhas forças, e amava mais ainda vê-los cozinhando juntos quando ele estava em casa, mesmo que eu consiga me lembrar de apenas um ou dois momentos como este. Lembro-me como se fosse hoje desta história de amor contada por minha mãe com um olhar apaixonado e sofrido ao lembrar-se do seu falecido marido...

*— Eu conheci seu pai quando minha mãe resolveu fazer uma faxina na casa de uma Senhora riquíssima que tinha um enorme jardim, na época morávamos na rocinha e pegávamos ônibus lotado para chegar até lá, era divertido ouvir as fofocas as cinco da manhã, era divertido pra mim... — Dona Marilia riu sentada no sofá perdida em pensamentos. — Para minha mãe era sempre um estresse, afinal, era exaustivo. Eu tinha dezesseis anos, e na madrugada anterior havia rolado tiroteio... Como a Senhora da casa sairia naquele dia e ela ficaria sozinha, resolveu que me levaria por medo de que rolasse tiroteio novamente e eu ficasse só em casa. Enquanto minha mãe fazia faxina eu resolvi andar um pouco pelo jardim e conhecer as belas flores que ali habitavam. Foi onde vi seu pai pela primeira vez, ele tinha dezoito anos na época. Lindo. — Ela abriu um sorriso... — Ele me perguntou meu nome e ficamos conversando, Pedro me apresentou cada espécie de planta que havia naquele lugar, eu perdi completamente a noção das horas ao lado dele, e quando nos despedimos, ele retirou uma flor Jasmim e me deu. Aquilo me fez ter borboletas no estomago. Entrei e fui ajudar minha mãe nas tarefas. Depois daquele dia a convenci de que poderia ser útil a ajudando nos finais de semana com a faxina. Ela deixou, e eu o Pedro conseqüentemente nos aproximamos mais, trocamos contato e começamos a namorar escondido, algumas vezes o Pedro ia me ver no colégio e saíamos para comer alguma coisa, ele foi meu primeiro homem. Só que nossos mundos eram completamente diferentes né! Eu fiz Enem e ingressei na faculdade de administração e o Pedro passou no concurso militar, ficamos dois anos sem nos ver e perdemos contato, foi uma partida dolorida demais e eu foquei somente na faculdade... Até que um dia está eu na faculdade completamente distraída, quando entra o Pedro que estava ali para um seminário sobre a importância do exercito brasileiro, na época por conta de toda a guerra que estava acontecendo entre facções e etc., esse seminário era útil em várias escolas e faculdades. Eu o reconheci na hora, ele veio até a mim após o seminário e conversamos. A partir disso ele passou a colocar crédito em meu celular para que pudéssemos voltar a trocar sms, conversávamos por chamada, já que naquela época não tinha redes sociais. E um dia como quem não quer nada, ele me pediu em casamento. O namoro naquela época não era tão simples, principalmente porque nossos mundos eram diferentes e nosso relacionamento não seria aceito, já havíamos tirado a prova no começo. Do dia pra noite ele me apresentou essa nossa casa aqui em Holambra e nos mudamos para cá dois meses depois, nos casamos no civil um dia antes de nos mudar, dinheiro compra certidão de casamento, simples assim, fugimos. — Ela riu.

— E minha vó? — Perguntei curiosa.

— Sua vó só ficou sabendo que eu iria embora quando apareci com a aliança no dedo. Avisando que havia casado com o Pedro e que de nada adiantaria mais ela dizer que não daria certo. Ela riu da minha cara, me abraçou e me desejou felicidades. Eu sabia que ela se comportaria daquela maneira, quem não aceitou foi a mãe do Pedro que como sabíamos que ela faria um inferno escolhemos essa casa longe dela.

— Que lindo, mãe! — Falei sorrindo.

— A aventura não para por ai, você havia me perguntado por que Jasmim, não foi? — Ela sorriu, eu assenti. — Escolhemos Holambra por ser a cidade das flores... E um detalhe muito importante é que quando engravidei de você meu desejo era sempre cheirar Jasmim. E então soubemos que seria uma menina. Deixamos para escolher seu nome no parto e quando seu pai colocou os olhos em você, ele disse: Doce como uma flor de jasmin e de alma livre como a Jasmine. Minha linda Jasmim. Assim você escolheu seu nome. — Minha mãe falou rindo.*

Mas nem sempre todas as histórias têm finais felizes, últimamente eu me importava apenas em ser e ver a felicidade da minha mãe. Ela era meu coração. Fotografar, cuidar de dona Marilia e trabalhar no restaurante dela, eram as únicas coisas que me importavam.

O alarme do meu celular tocou me mostrando que já eram seis e meia. Ainda de olhos fechados enfiei a mão debaixo do travesseiro pegando-o. Mais cinco minutos. Apertei em dispensar umas três vezes até não ter mais a opção de cinco minutos e eu ser obrigada a levantar. Eram seis e quarenta e cinco. Me sentei na cama ainda de olhos fechados e bocejei. Minha mãe costuma abrir o restaurante as oito e como ainda falta um mês para eu iniciar a faculdade, estou a ajudando. Abri os olhos me acostumando com a claridade; observei todo o quarto esperando minha alma voltar para o corpo e me levantei. Fui até o banheiro, mesmo sabendo que minha mente continuava na cama e me olhei no espelho. Eu parecia uma selvagem, minha juba cacheada deixava claro que eu precisava lavar e finalizar o cabelo. Sim. Eu tinha que acordar cedo para dar tempo de finalizar a juba cacheada que pendia sobre minhas costas, e isso já me deixava exausta só de pensar. Respirei fundo pronta para iniciar minhas obrigações matinais, afinal, eu não tinha muita escolha quanto a isso. E não, eu não gosto de tomar banho as sete de manhã, mas é algo obrigatório. Dona Marilia sempre me dizia que eu tinha o estomago de Magali, o humor da Monica, e a Higiene do cascão. Abri um sorriso ao lembrar da descrição perfeita da minha pessoa. Eu não posso mentir.

Depois das minhas obrigações matinais feitas, saí do banheiro como um gato escamado depois do banho de toalha e morta de frio, ainda enrolada fui até a varanda do meu quarto pegar uma blusa, notei que havia uma movimentação estranha na casa de frente para minha. A casa que ninguém nunca havia morado desde que me conheço por gente, sempre a chamei de casa assombrada e brinquei no quintal dela que fica nos fundos com minhas amigas quando era criança, a casa que me rendeu muitas fotos e um lugar seguro para onde eu sempre corria quando queria ficar sozinha. Parei para analisar a cena como uma linda espiã demais, por trás da janela, claro! Havia um caminhão de mudança na frente... Por que raios alguém se muda às sete da manhã? Me obriguei a sair dos meus devaneios malucos e fui me vestir. Saí do quarto ainda com a toalha na cabeça e fui até a cozinha, dona Marilia já estava acordada aprontando nosso café da manhã. É lei de toda mãe raiz acordar com o canto dos galos, nem que seja só pra bater panela e acordar o restante da casa!

— Bom dia, dona Marilia! — Falei me aproximando e beijando sua testa.

— Bom dia. — Ela falou empolgada em preparar seu café quentinho. A gente tinha uma cafeteira de enfeite, mas minha mãe diz que no coador sempre sai mais gostoso e insiste em continuar fazendo assim.

— Será que vai ter um único dia em que a Senhora vai se permitir acordar um pouco mais tarde? — Perguntei sorrindo com a idéia de minha mãe dormindo até as dez da manhã.

— Nunca. Quando a gente acorda tarde é como se perdesse o dia! — Ela falou. — Sem falar que a gente tem muita coisa pra fazer no restaurante.

—Tá bom, entendi. — Falei assentindo porque mãe sempre tem razão e nem adianta tentar argumentar.

— Ahhhh filha, coloca o lixo lá fora pra mim, por favor? O caminhão vai passar daqui a cinco minutos e falta pegar o do banheiro. — Ela falou alarmada.

— Pode deixar! — Falei.

Corri para o banheiro para pegar o lixo e juntar com todos da casa, o caminhão do lixo passa todos os dias as sete e vinte na vizinhança, esse é o momento de jogar tudo fora, pois dona Marilia tem toque de juntar lixo na varanda. Peguei os quatro sacos e fui até o lado de fora da casa com minha lindíssima toalha na cabeça. Eu estava ali me sentindo faminta quando um carro preto de gente milionária entrou na rua e parou na casa da frente. Dele desceu o motorista - coisa de gente chique - e abriu a porta traseira. Um jovem que aparentava ter seus vinte e quatro anos, de pele branca e cabelos morenos penteados para trás não tão curtos, mas não tão longos... Seus olhos estavam escondidos por um óculo escuro e ele vestia uma calça com um sobretudo por cima embora fosse notável sua camisa de gola alta. Quem se veste assim em pleno sol de São Paulo? Eu percebi que estava o encarando como uma louca quando o carro do lixo buzinou tomando a frente da minha vista.

— Bom dia, dona Jasmim. — Um dos garis me cumprimentou.

— Bom dia Marcos. Tá bem? — Falei sorrindo.

—Tô bem e aí? — Ele falou pegando os sacos de lixo da minha mão.

— Estamos bem. — Falei ainda sorrindo. — Bom trabalho ai para vocês! — Falei acenando para os outros.

Quando o carro do lixo saiu da minha frente o garoto já não estava mais lá, apenas o carro estacionado e o caminhão de mudança. Olhei aos arredores disfarçando, claro, e entrei.

— Oh mãe... — Gritei quando já estava chegando à cozinha.

— Que é menina? — Minha mãe veio ao meu encontro.

— A senhora já viu que temos vizinho novo? — Falei deixando meu lado fofoqueira tomar conta.

—Tu me gritou pra falar isso? Uma hora dessas, você vai me matar do coração. — Ela falou colocando a mão no coração dramaticamente.

— Deixe de drama, Dona Marilia. A senhora viu ou não viu? — Perguntei agora indo até a cozinha atrás dela.

— Vi, vi. É a dona da casa. Chegou com os galos. — Minha mãe falou colocando as torradas na mesa.

— E essa casa tinha dono? — Falei agora pegando as xícaras e colocando na mesa.

— Claro que tem. — Minha mãe fez uma careta. — Giovanna. Veio morar ai logo quando eu me casei com seu pai. Mas foi embora quando você era pequenina ainda. Nem deve se lembrar. Você chegou a brincar com o filho dela e tudo. Mas quando ele fez um ano, ela foi embora com o pai do menino, um gringo lindo viu. — A fofoqueira que habita em minha mãe contou empolgada.

— Hum. — Esbocei sem abrir a boca. — O que faz uma pessoa voltar pra São Paulo depois de mais de vinte anos morando na gringa? — Ironizei.

— Deixe de besteira, ta achando que lá fora é conto de fadas? — Minha mãe riu.

— São Paulo é que não é. — Falei quando sentamo-nos à mesa.

Tomamos nosso café da manhã enquanto eu ficava pensando naquele jovem que vi sair do carro, será que ele era o garoto que eu havia brincado quando pequena? Eu poderia ir lá dar um Oi com essa desculpa, ou não.

— Oh linda, eu não gostaria de atrapalhar sua cachola fértil, mas temos que correr e você ainda está de toalha na cabeça. — Minha mãe falou balançando a mão na minha frente.

— Aff, já tinha esquecido. — Bufei. Engoli meu café e corri para o quarto pra finalizar a juba.

Meu cabelo sempre foi tão independente quanto eu, quando liso chega a bater na cintura, mas quando enrolado dá nas costas, amo ele todo definidinho, mas haja paciência pra finalizar. Peguei o creme nas carreiras, abri o pote sobre a pia do banheiro e tome-lhe fitar cabelo.

— Boraaaa Jasmim! — Minha mãe já estava gritando na porta do quarto.

— Tô indo, mainha! — Gritei de volta. Fechei o creme, lavei as mãos e saí quarto a fora. Coloquei correndo meu vestido de recepcionista, passei um batom nude rápido e calcei minha sapatilha.

Quando saí do quarto minha mãe já estava do lado de fora tirando o carro da garagem, peguei a chave no chaveiro e saí fechando as portas com tudo ao ouvir minha mãe buzinando impaciente.

— São oito da manhã, dona Marilia, pelo amor de Deus. — Falei correndo até o carro.

Entrei e coloquei o cinto, quando ela já estava dando a ré eu me lembrei que havia esquecido o celular.

— Pare, pare, pare. — Falei batendo a mão na testa.

— O que foi dessa vez, filha de Deus? — Minha mãe me encarou retada.

— Meu celular, esqueci meu celular. — Falei bufando.

Desci do carro novamente.

— Filha, já são sete e cinqüenta e cinco. — Minha mãe falou me encarando pela janela.

— Faz assim, vá na frente. — Falei fazendo sinal com a mão pra ela ir e virando as costas.

— E tu coisa linda? — Ela gritou do carro.

— Vou andando, Dona Marilia. É ali. Daqui a dez minutos chego lá, vá logo! — Apontei pra rua. — Vá linda, vá! — Falei sabendo que as oito a gente já deveria estar com tudo pronto para abrir. Minha mãe é bem pontual e o restaurante não é longe, moramos a uma rua do centro. Chegaria tranqüila em dez minutos, inclusive várias vezes eu vinha andando pra casa só pra gastar perna.

— Tá, ta. — Ela falou dando a ré. — Te amo. — Gritou do carro e foi embora.

Eu peguei a chave e abri a casa tudo de novo, entrei e fui até meu quarto pegar meu celular e fones de ouvido, eu não era ninguém sem esses dois apetrechos. Aproveitei e peguei o kindle também, adoro ler um pouco no meu horário de almoço. Peguei uma bolsa de lado e saí da casa trancando tudo novamente. Já do lado de fora, enfiei o kindle e as chaves dentro da bolsa, coloquei os fones blueetoth no ouvido e joguei os cabelos por cima para disfarçar. Nunca se sabe quando os donos vão aparecer né! A honra de morar no Brasil é saber que você compra e tem a possibilidade de dar de presente pros donos. Eu estava entretida escolhendo a musica que iria escutar – A Thousand Miles – quando o garoto apareceu ao lado de fora conversando com o motorista do caminhão de mudança. Nossa. O encarei de soslaio sem tirar completamente os olhos do celular, ele pareceu ter me notado por alguns instantes, mas logo voltou a prestar atenção na conversa do motorista. Eu coloquei o celular no peito, o esconderijo do Brasileiro, e segui meu caminho. Como costumo acreditar que sou uma artista quando estou andando e escutando musica, iniciei meu show particular.

“Eu sou Estefani, em meu crosfox, eu vou sair, vou viajar, me divertir, não vou ficar mais te esperando porque agora eu sou demaissss...” A musica na versão brasileira é muito melhor.

Segui perdida em meus pensamentos até o centro de Holambra, uma caminhada de apenas dez minutos. Cheguei à frente do restaurante encarando as portas de vidro com a grande placa escrita: Doce Jasmim. Sim, o restaurante tem o meu nome, é ser importante demais, né? Entrei indo diretamente para a cozinha.

— Cheguei. — Avisei a minha mãe.

— Tá, vai pra recepção. — Ela falou.

Minha mãe tem o restaurante dela desde que se casou com meu pai! Era o sonho dela fazer gastronomia, mas na época de minha vó isso não dava dinheiro, então a pedido da mãe ela fez administração, o que hoje se tornou muito útil com o restaurante, mas logo após o casamento ela fez o curso de gastronomia que tanto queria por incentivo do papai. Minha mãe é incrível na cozinha, os melhores pratos vêm dela, aqui servimos de tudo, mas o sucesso mesmo é sempre as sobremesas doces. O ambiente é acolhedor e sofisticado ao mesmo tempo, com toda a mobília e decoração em marrom amadeirado; armário de amostras de bebidas com todo tipo de bebida possível, embora o que saia mais por aqui seja o famoso café da dona Marilia, com gosto de casa. Sem falar no cheiro de Jasmim que impera o ambiente, minha mãe costuma passar sempre a essência de Jasmim antes de abrir, e logo na recepção e em alguns pontos específicos, pequenos jarros com Jasmim decoram o ambiente. Temos um publico considerável pelo fato de servirmos para todos os públicos abrindo as oito e fechando às nove da noite. Tendo no cardápio: Café da manhã, almoço, sobremesa e janta. Minha mãe é a cozinheira chefe, mas conta com a ajuda da Marileide – ela detesta este nome, por isso sempre chamamos de Mari. – Eu trabalho na recepção sempre recepcionando a todos que chegam e quando está um pouco devagar também atendo os pedidos, mas temos os garçons que são o Mario e a Solange – que gosta de ser chamada de Sol.

Logo os três chegaram e iniciamos nosso trabalho tranquilamente. Eu amo trabalhar no doce Jasmim, sinto um pouco do meu pai neste lugar. Ele amava cozinhar junto com minha mãe, e sempre foi a favor que ela abrisse este restaurante e por isso ela abriu, para tê-lo um pouco mais. O cheiro desse lugar me remete a minha casa, e eu nunca fui tão feliz como sou quando estou aqui dentro, me lembro de correr com meu pai por este lugar e de cozinharmos juntos quando eu nem sabia fazer nada, apenas comer. Com o inicio da faculdade ficou acordado que eu faria as aulas a noite e trabalharia com ela durante o dia. Para o turno da noite podemos contratar uma aprendiz já que é só das seis as nove. Como minha faculdade é a Unicamp e fica em Campinas, eu posso ir e voltar de carro. Tudo programadinho até os últimos detalhes.

O dia foi bastante produtivo e correu até mais rápido do que esperado, inclusive para mim que tinha tempo para ouvir todas as fofocas do bairro. A melhor parte de trabalhar em restaurante é que você escuta todo tipo de fofoca, embora hoje em dia eu veja mais pessoas no celular do que conversando, mas ainda há aqueles que vão até lá para fofocar durante o horário do almoço, ou para falar mal do trabalho, é o que eu mais escuto. Na hora do almoço peguei meu prato e resolvi comer na porta dos fundos, porta essa que dava para um beco que inclusive também dava para a porta dos fundos do galpão aqui do lado e para o tonel onde colocamos os lixos ao final do expediente. Eu amava ficar deste lado nos tempos livres porque aqui a calmaria reina e não fica ninguém.

— Já ouviu a última? — Mari veio até a mim.

— O que? — Perguntei já ansiosa pela fofoca.

— Vai abrir uma casa noturna nesse galpão aqui do lado. — Ela falou em tom baixo tentando esconder a empolgação.

— Era realmente só o que me faltava! — Falei revirando os olhos.

— Isso é demais! — Ela falou agora mostrando sua animação.

— Exato. Zoada demais, incômodo demais! — Falei a encarando com uma careta.

— E você é chata demais! — Ela riu. — Finalmente um lugar pra se divertir quando a gente sair daqui.

— É, quando você sair daqui porque eu estarei na faculdade, neném! — Falei.

— Aff, verdade. Mas tem os finais de semana. — Ela falou piscando.

— Vai trabalhar vai, dona Marileide. — Falei dando língua pra ela.

— Jasmim! — Ela bufou. — Se me chamar assim na frente de alguém, juro que mato você.

— Ai não terá ninguém pra ir à casa noturna no final de semana. — Ri.

— Ahhh! Então você vai. — Ela bateu palminhas.

— Eu não disse isso. Só espero que não seja essas revoadas brabas.

—Que seja um baile funk, amém. — Ela disse, piscou e se retirou.

— Essa garota não presta. —Resmunguei ainda rindo.

Voltei para o meu mundinho com meu fone de ouvido, terminei meu almoço e li um pouco no kindle para aproveitar minha hora de descanso. Geralmente temos duas horas e dá tempo de eu ir até em casa, tomar banho, fazer algo e voltar. Mas eu sempre deixo que minha mãe vá e descanse um pouco e fico tomando conta de tudo, raramente decido ir. Depois do almoço voltei para o expediente e continuei seguindo pelo restante do dia. No final da noite o movimento tinha sido bom e eu estava extremamente cansada. Ao fecharmos, limpamos tudo, jogamos o lixo fora e seguimos para casa. Quando chegamos, eu desci na frente da porta e minha mãe foi colocar o carro na garagem, abri a casa e entrei. Tomei um banho, tomei café enquanto dona Marilia assistia a novela das onze e depois fui direto para o meu quarto. Coloquei meu fone de ouvido e peguei meu kindle... Eu estava lendo um livro chamado: Um desconhecido em minha vida onde uma garota de programa estava prestes a perder sua vida e era salva por um atraente desconhecido, o livro me pegou de uma forma surpreendente e a leitora sabia como abordar o tema sem pesar o enredo. Me sentei em minha poltrona e comecei a ler ao som de Clau...

Já estava empolgada na metade da leitura quando notei que já estava prestes a dar meia noite e eu precisava dormir se quisesse acordar cedo no outro dia. Desliguei meu kindle e resolvi olhar um pouco a lua, o céu estava lindíssimo e suas estrelas brilhavam ao máximo, o que me pareceu ser uma boa idéia para uma ótima foto. Entrei, peguei minha câmera e voltei para a minha varanda. Liguei a câmera e mirei a minha frente para ajustar o foco quando o notei através das lentes, ele estava sentado na janela com seus fones enormes e rosto virado para a lua com um caderno na mão, parecia estar pensando em desenhar ou escrever alguma coisa. Seu ângulo era perfeito. E antes que eu pudesse me controlar, capturei uma foto sua, ele parecia uma miragem com camiseta e bermuda de pano. Estava completamente perdido em pensamentos. Mirei na lua e tirei uma foto daquela noite estrelada, agora eu tinha mais duas fotos para admirar e completar meu álbum físico, eu amo imprimir as fotos e guardar, um dia quero fazer uma exposição de pequenos detalhes... Quando estava desligando a câmera vi que ele me notou, me encarou, meu olhar encontrou o seu e de lá não saiu por alguns segundos. Olhos escondidos pela escuridão da noite e pela minha miopia. Eu senti que queria morar naquele olhar, era questionador, misterioso, ao mesmo tempo carente. Ele estava triste. Eu sabia decifrar as expressões faciais e corporais pelos mínimos detalhes. E ele estava realmente triste. Senti vontade de abraçá-lo, ele desviou o olhar do meu e encarou seu caderno voltando a se perder em seu mundo. Eu voltei a encarar minha câmera, liguei de volta, e quando vi já estava tirando outra foto sua. Na tela, seu sentimento transbordava. Era como um segredo, pedindo que alguém o revelasse, era essa a sensação que a sua foto me passava. A sensação de uma tela em branco que pedia para ser desenhada, ou um desenho abstrato que pedia para ser entendido. Voltei para dentro do quarto e me joguei na cama, mexi em meu celular por alguns minutos e logo apaguei de cansaço. Alguns dias eu era agraciada pela insônia, mas nesse em especial, eu estava tão cansada que a insônia passou longe me deixando o paraíso dos lençóis macios.

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