
Doce Flor de Jasmim
Capítulo 3
O celular alarmou mais uma vez me trazendo de volta para a minha realidade, já fazia duas semanas que o bendito e atraente vizinho havia se mudado para a casa da frente. Casa essa que eu costumava entrar algumas vezes quando queria ficar sozinha e que por muitas vezes quando pequena eu tinha brincado com meus amigos, essa casa tinha história até demais para contar! Me levantei da cama ainda sonolenta, andei no automático até o banheiro e ainda bocejando fui tirando a roupa. Hoje iríamos fazer o mercado do mês para o restaurante. Coloquei um short jeans desfiado, um blusão, um sapatenis, finalizei minha juba e pronto. Quem se arruma pra ir ao mercado? Pois é. Passei só um batonzinho e um rímel porque ninguém quer ver assombração de manhã cedo, mas se bem que ao nível das adolescentes brasileiras que acostumam ir ao lê cirque de manhã cedo, eu não assustaria muita gente. Saí do quarto ainda no automático, eu havia ido dormir quase duas da manhã encarando a bendita foto do desconhecido em minha câmera, o que isso quer dizer? Que tenho traços piscopatas. Isso mesmo. PISCOPATAS.
— Bom dia, dona Marilia. — Falei me encostando-se a pia e bocejando.
—Já ta pronta? — Minha mãe me encarou. — Que bom porque tem que dar tempo de passar na feira e pegar as melhores hortaliças.
—Hum. — Falei me espreguiçando e sentando-se à mesa.
— Tu foi dormir tarde, num foi? — Minha mãe falou colocando meu café. — Tu sabia que a gente ia ao mercado, Jasmim. Pois trate de acordar que hoje o dia vai ser rapidex.
— Tá mainha, tá. — Falei revirando os olhos. — Fala muito não que eu durmo.
—Tome. — Dona Marilia colocou o café em minha frente.
Tomei um gole e depois outro, checando o mito da cafeína, continuei com sono. Peguei meu celular e meus fones de ouvidos de lei, coloquei em minha bolsa de lado e segui minha mãe até o lado de fora. Quando vamos fazer mercado eu costumo não tomar café sólido, me sinto agoniada. Minha mãe tirou o carro da garagem e seguimos rumo ao mercado central. Quando chegamos ao mercado, coloquei minha musica, peguei a listinha do que eu preciso comprar e fui-me embora. Sim, eu e minha mãe temos listas separadas e nos dividimos no mercado pra ficar mais rápido. Sempre terminamos na mesma fileira. Peguei um carrinho e fui para minha missão com os fones no máximo. Estava na sessão de massas pensando em que espaguete escolher quando notei que o que minha mãe usa estava no alto. Isso é sempre absurdo porque com 1,54 eu sempre preciso pedir ajuda, olhei para a frente e não vi ninguém que pudesse me ajudar. Fiquei na ponta dos pés e tentei pegar, não consegui. Tentei novamente pulando, mas não consegui da mesma forma. Bufei. Respirei fundo e estava pensando em ir pedir ajuda a algum repositor quando um braço masculino passou diante de mim e pegou a massa.
— É essa? — O desconhecido falou atrás de mim, sua voz tinha um sotaque diferente capaz de fazer cócegas em meu estomago. Era um som grosso, porem rouco, e ao mesmo tempo suave.
—Oi... — Falei gesticulando o fone em meu ouvido e me virando para o desconhecido. — Eu acabei de gritar, eu sei. — Fechei os olhos assentindo para mim mesma.
—É essa? — Ele perguntou novamente.
— É... Obrigada. — Falei sem graça ao notar que era o meu novo vizinho. Seus olhos eram azuis da cor do oceano. Azuis questionadores, incisivos, misteriosos. A claridade de seus olhos refletia a escuridão de sua expressão fechada. Todo o seu rosto o dava um ar autoritário, questionador.
— Disponha. — Ele assentiu me encarou por alguns segundos e seguiu para os produtos da prateleira contrária.
Continuei analisando, comparando e escolhendo meus produtos com um esforço máximo para não encará-lo, mas era meio impossível. Que gato! Ele estava com uma calça e camisa social de botão. Quem em São Paulo vai ao mercado às sete da manhã vestido como se fosse para uma festa social? Uau. Notei que o molho que eu queria comprar estava ao lado dele, eu não queria me aproximar, mas, era necessário. Eu estava começando a me odiar, ele é meu vizinho! Me aproximei e analisei algumas marcas de molho, encarando de soslaio sua cara confusa a minha frente.
— Posso te ajudar? — Falei o encarando. Falando mais baixo já que agora eu só estava com um fone.
—Han? — Ele me encarou, ainda com uma expressão confusa no rosto.
— Dá pra ver que precisa de ajuda. — Falei gesticulando para sua expressão.
— Ahh. Sim. — Ele assentiu desviando o olhar e chegou um pouco mais perto como se fosse contar um segredo. — Qual a diferença disso aqui, para isso aqui? — Perguntou apontando para um molho de tomate e um extrato a nossa frente.
— Ahh... — Eu sorri. — Eu também achava bem confuso. O molho — Falei apontando — já vem com alguns realçadores de sabor e algumas ervas, para um prato já preparado. Já esse aqui — Apontei para o extrato — É só o tomate diluído, caso você queira preparar algo mais sofisticado e tenha os temperos certos.
— Wie verruckt! — Ele resmungou.
— Hum? — Falei confusa. Que sotaque mais fofo!
—Ah não... — Ele umedeceu os lábios. — Ham... Que loucura. — Falou desviando o olhar.
— Quem? O que? — Falei não entendendo.
—Foi o que eu disse. — Pude ver um sorriso quase invisível tomar a linha de seus lábios. — Eu disse que loucura em alemão, força do habito. Mil desculpas.
— Ah sim, claro. Mas é loucura mesmo porque os dois podem ser usados para o mesmo propósito. Enfim, se precisar de mais alguma coisa é só me chamar. — Falei assentindo e desviando o olhar. Que idiota. — Claro que se preferir pode chamar alguém que trabalhe aqui. — Falei fazendo careta. — É... Xau.
— Ok. — Ele falou com uma expressão de quem estava se divertindo em me ver passando vergonha.
Eu peguei o meu carrinho e segui corredor à frente querendo enfiar minha cara no primeiro buraco que aparecesse. Não que buracos fossem comuns em mercados. Segui fileiras e mais fileiras pegando tudo que eu precisava. Estava andando por um dos corredores checando minha lista quando me bati nele. Coincidência dos infernos. O mundo no mercado e eu me bati especificamente nele!
— Aff. Me desculpe! — Falei, eu podia apostar que estava da cor de um pimentão. Segunda vergonha do dia.
— Tudo bem, eu quem não prestei atenção. — Ele falou apontando para o celular.
— Não, eu quem me perdi na lista. — Falei apontando para a lista.
— Eu te conheço. — Ele falou arqueando uma das sobrancelhas.
— De algumas fileiras atrás. — Falei apontando para trás.
— Não, da minha janela. A menina da câmera. — Ele falou estalando o dedo.
— Ah sim, somos vizinhos. — Falei assentindo.
— É. — Ele assentiu.
— Jasmim... — Minha mãe falou vindo atrás de mim. — Menina, tu me esqueceu foi? — Ela falou se aproximando.
— Claro que não, dona Marilia. — Falei revirando os olhos e ficando de lado para encará-la.
— Ah Oi. — Minha mãe falou para o vizinho novo. — Você é o filho da Giovanna, né?
— Mãe... — Sussurrei abaixando o olhar.
— Eu carreguei você no colo, continua lindo! — Minha mãe falou sorrindo agora ficando ao meu lado.
— Sim. — Ele assentiu com um sorriso educado. Que sorriso! — Obrigado!
— Como é seu nome mesmo? Faz tanto tempo! Aron, Are... — Minha mãe falou tentando se lembrar.
— Meyer. — Ele sorriu.
— Sei que não se lembra de mim, Meyer. Dona Marilia. Fale com sua mãe para ir almoçar no meu restaurante, por conta da casa pela volta dela. — Minha mãe falou animada.
— Restaurante? — Ele falou confuso.
— Ah sim, ela sabe onde é. Inclusive ela chegou a trabalhar lá por um tempo, fomos muito amigas. Você e a minha Jasmim corriam juntos na frente daquela casa, uma picula que só Deus. — Minha mãe falou rindo.
— Picula... — Ele sussurrou me encarando por alguns segundos. — Jasmim...
— Ham... Mãe, ele está com pressa. E a gente também. — Falei baixo a encarando.
— Ah claro, não vou te atrapalhar. Mas fico feliz de ver você enorme e saudável viu. — Minha mãe abriu um sorriso gentil que só dona Marilia sabe dar para conquistar as pessoas.
— Obrigado pela gentileza. Pode deixar que convencerei minha senhora a ir até seu restaurante. — Ele falou sorrindo.
— Minha senhora? — Repeti confusa, achei que não dava para ouvir.
— Mom... — Ele explicou. — Mãe. É que chamamos assim. Tenho que me acostumar com o termo mãe. — Outro sorriso discreto. Ele tem que parar de sorrir, se não meu coração pode acabar parando de bater.
— Entendi. — Assenti. — Enfim, desculpe mais uma vez, se vemos por ai. — Falei sem jeito.
— Se vemos por ai, Jasmim. — Ele assentiu me encarando. Definitivamente meu coração parou, como simplesmente falar meu nome poderia ser tão sexy?
— Ok Meyer. — Falei retribuindo seu olhar.
Nos encaramos por alguns segundos e logo fui despertada com minha mãe já lá na frente empurrando o carrinho. Saí do caminho dele e segui o meu. Uau. Uau. Uau. Estava bastante calor no mercado pela primeira vez na vida. Terminei o restante das compras junto com minha mãe e seguimos para o caixa, pagamos e fomos diretamente para o restaurante.
Tudo seguiu o mais normal possível, pela parte da manhã o movimento foi bastante tranqüilo então arrumamos tudo. Infelizmente a Mari acabou tendo que ir para casa porque não estava muito bem e eu fiquei como ajudante de cozinha. Preparei os temperos pra corte vendo que hoje eu almoçaria tarde. Estávamos a todo vapor quando os pedidos começaram a chegar. Minha mãe continuou fazendo a comida e eu terminei o tempero e fui montar os pratos para o Mario levar quando ele veio meio atordoado.
— Dona Marilia. É... Estão chamando a Senhora lá fora! — Mario falou sem jeito. Medo de ser despedido, talvez!
— O que houve, menino? — Minha mãe perguntou confusa.
— Eu não sei. Só pediram pra ver a dona do lugar. — Ele deu de ombros, também confuso.
— Se assuste não, meu filho. Mexa aqui que eu vou lá. — Ela falou apontando pra a panela do cozido.
Continuei montando os pratos imaginando ser mais um ou uma cliente dramática questionando alguma coisa. Coisa normal quando se trata de restaurantes.
— Filha, vem aqui. — Minha mãe entrou cinco minutos depois me chamando.
— Que foi, minha mãe? — Falei confusa.
— Só venha logo aqui, menina. — Ela falou fazendo gesto pra que eu a acompanhasse e saiu.
Eu a segui confusa. Quando cheguei ao salão, a vontade foi de querer voltar para dentro da cozinha. Imagine só: Eu estava com o vestido de recepcionista, com um avental por cima, toca num cabelo que quase não cabe dentro da toca, e toda desgrenhada. Na mesa estava Meyer e a mãe dele.
— Essa é aquela pequena sapeca? — A moça - acho que Giovanna - logo se levantou sorridente. — Mein Goott! Você está tão linda.
— Ah, obrigada. — Abri um sorriso gentil.
— Te carreguei no colo, você e o Meyer eram melhores amigos. Tu vivia fugindo pra minha casa. — Ela abriu um sorriso largo.
— Ah... — Falei sem jeito.
— Nós estamos imensamente felizes de ver vocês novamente. — Minha mãe falou. — Vamos marcar algo lá em casa.
— Deixe disso, eu te devo um jantar. Vamos jantar lá em casa hoje! — Dona Giovanna falou encarando minha mãe.
Eu fiquei ali de guarda, Meyer estava me encarando e eu senti que poderia realmente ficar mais vermelha do que já estava.
— Hoje? — Minha mãe falou pensativa. — Menina... — Não escutei o que minha mãe falou porque a Sol estava resolvendo alguma coisa na mesa próxima da nossa e eu parei pra prestar atenção.
— Por que não se senta e almoça conosco.? — Dona Giovanna disse.
— Ah, não posso. — Minha mãe falou pesarosa.
— ...Não Senhor, peço mil desculpas... — Sol dizia.
—Claro que pode. — Encarei minha mãe. — Mãe, é seu horário de almoço. Retire a touca e sente-se para almoçar. Eu tomo conta de tudo.
— Não, filha... — Minha mãe falou ainda pensativa.
— Não é um pedido, dona Marilia. — A encarei. Minha mãe vivia enterrada no restaurante e era horário de almoço, custava nada. — Me dê aqui seu avental e sua touca. Vamos.
— Vamos Marilia, escute sua filha. — Giovanna abriu um sorriso largo.
— Tá, ta bom. — Minha mãe falou sorridente. Tirou a toca e o avental e me entregou.
—...Sim, Senhora. Eu realmente não prestei atenção... — Sol falou na mesa ainda próxima.
— Com sua licença... — Falei para dona Giovanna. — Foi um prazer te conhecer, novamente.
— Sim, claro. — Ela sorriu pra mim e assentiu permitindo que eu saísse.
Fui até o canto, tirei a touca e o avental, guardei rapidamente e voltei para a mesa em que Sol estava com problema.
— Posso ajudar em alguma coisa? — Perguntei me aproximando.
— A garçonete trouxe o pedido errado. Eu pedi que não colocasse pimenta e ela adicionou pimenta. — A mulher falou furiosa.
—Sim, realmente foi culpa minha. — Sol falou agora me encarando..
— Ah não, eu quem peço desculpas, Senhora. Ela assumiu um posto que não era dela por alguns segundos e vejo que isso gerou um impacto negativo para ambas as partes. Te peço mil perdões. Me passe o pedido. — Pedi a Sol a cadernetinha e dei uma olhadinha. — Pronto. Eu mesma irei até a cozinha e pedirei que refaçam este pedido e trarei uma sobremesa especial por conta da casa. Sei que não irá reparar o dano, mas é o mínimo. — Abri meu sorriso carismático de cliente sempre tem razão.
— Ah sim, muito obrigada. Sei que acontece, é normal. — A cliente falou com um sorriso no rosto. — Irei aguardar.
— Ok. Iremos só recolher este pedido e trazer outro em no máximo dez minutos. Muito obrigada pela compreensão. — Falei.
Sol recolheu o pedido e voltamos para a cozinha. Mario até que estava dando conta do recado do lado de dentro.
— Cadê dona Marilia? — Ele perguntou.
— No horário de almoço. — Falei encarando o relógio. — Falando nisso, pode ir almoçar.
— Tem certeza? — Ele me encarou.
— Claro, eu dou conta.
Ele assentiu, tirou o avental e foi. Eu fui até o lado de fora e chamei a Sol.
— Você monta os pratos e eu vou atender, quando o Mario voltar pode ir almoçar. — Falei pra ela em tom baixo e discreto. — Toma cuidado com a pimenta ta. — Falei rindo.
— Ok. — Ela assentiu. — Mas ela pediu com pimenta. — Resmungou.
— Eu sei. Ignora. — Falei rindo.
Ela riu e entrou na cozinha. Eu saí. Fui até a mesa onde minha mãe estava sentada com o Meyer e a Giovanna. Ela parecia estar se divertindo, me deu gosto de vê-la assim.
— Desculpe-me pela intromissão. — Falei ao chegar perto da mesa com o caderninho. — Já decidiram o que vão pedir?
— Ah, vou deixar que a recomendação venha da parte da chefe. — Dona Giovanna falou encarando minha mãe.
— Ah, como eu poderia lhe recomendar? Não posso! Fico envergonhada. — Minha mãe falou sorridente.
— Então deixe-me ajudá-la, dona Marilia. A gente está com o prato do dia que é um cozido espetacular feito agorinha por uma chefe espetacular! — Falei abrindo um sorriso amistoso.
— Uau. Faz tanto tempo que eu não como um cozido, ótimo, vou querer! — Ela falou empolgada.
— E a Senhorita? — Encarei minha mãe.
— Eu não acredito que você está me atendendo. — Minha mãe falou fazendo uma careta.
— Ué, mas o maior prazer que os filhos têm no mundo é um dia poder servir aos pais. É o meu maior prazer, Dona Marilia. — Falei abrindo um sorriso amoroso.
— Tá bom, vou querer o mesmo. — Ela falou sorrindo pra mim. Minha mãe tem o sorriso mais lindo que eu já vi na vida. É o sorriso de uma mãe feliz.
— E para você? — Encarei Meyer que tirou sua atenção de algo do outro lado do restaurante e me encarou.
— Ah não, eu não costumo almoçar. Só vim mesmo para acompanhar minha Senhora. — Ele falou umedecendo os lábios. — Mas obrigado.
— Você bebe? — Perguntei o encarando.
— Hum... Sim, sim. — Ele deu uma olhada no cardápio novamente.
— O que é isso? — Ele apontou para algo no cardápio, eu me aproximei para ver o que era. Próxima até demais.
— Sangria. — Falei o encarando, me afastei ajeitando a postura.
— Sangria... É bom? — Ele perguntou.
— Eu amo. — Falei sorrindo. — Tem que experimentar nem que seja uma vez na vida. A bebida contém uma mistura de vinhos com algumas frutas. É um sabor excêntrico e único.
— Vou querer. — Ele assentiu.
— Ok. Anotado. — Falei anotando o pedido. — Já volto.
Andei um pouco entre as mesas cumprimentando clientes rotineiros, verificando se estava tudo certinho e voltei para a cozinha. Peguei os pratos já montados para entrega e voltei para o lado de fora. Fui entregando um a um, sorrindo carismaticamente e desejando boa refeição. Amo o sorriso de satisfação dos clientes. Amo os elogios e reconhecimento. Minha mãe sempre trabalhou duro no restaurante e saber que os clientes reconhecem nosso esforço me deixa muito satisfeita com o meu trabalho. Fui indo e voltando da cozinha para o salão algumas vezes com pratos e outras com o caderninho pronta para servir ou atender. Vi que o Meyer me encarava algumas vezes e eu não consegui desviar o olhar. Ele era bastante enigmático, nas vezes em que notei seu sorriso para a conversa das duas mulheres empolgadas era sempre educado, mas sua expressão estava sempre fechada, misteriosa, isso me deixava com mais vontade de descobrir o que tanto ele queria esconder. E como diz nosso filosofo Matheuzinho: O golpe ta ai, cai quem quer! E que golpe viu. Peguei os pratos montados de minha mãe e de Giovanna e levei até a mesa.
— Aqui está. Já trago sua bebida. Vocês, belas damas, querem beber algo? — Perguntei.
— Água com gás com limão e gelo. — Minha mãe falou.
— Vou querer o mesmo. — Dona Giovanna apoiou.
— É para já. — Falei sorrindo.
Fui até a cozinha preparar a bebida juntamente com o Mario. Agora era a vez da Sol almoçar. Terminei e voltei para o salão com os três copos na bandeja.
— Aqui está. Sintam-se á vontade para me chamar, caso precisem de mais alguma coisa. — Falei colocando os copos na mesa.
— Obrigado. — Meyer falou.
— Não deixe de me dizer o que achou. — Falei sorrindo. — Espero que goste!
—Ok. — Ele assentiu
— Jasmim! — Dona Sandra me chamou na outra mesa. Cliente da casa.
— Com sua licença. — Assenti e me retirei.
Fechei a conta da dona Sandra, me despedi com um sorriso e volte sempre e aproveitei para encerrar outras contas no local. O tempo foi passando rápido e logo o Meyer e dona Giovanna foram embora e minha mãe voltou para o expediente. Eu fui almoçar ás quatro da tarde, mas estava me sentindo muito bem por ver minha mãe parada conversando como uma adolescente empolgada.
Já eram nove e meia quando finalmente conseguimos encerrar o expediente e se despedir do último cliente, aproveitando o feche do sorriso que minha mãe deu o dia todo, pedi que ela fosse descansar que eu mesma terminaria de limpar e fecharia o restaurante. Ela relutou, mas acabou cedendo. Eu estava carregando todo o lixo até o tonel quando notei uma movimentação ao lado de fora da porta dos fundos da suposta casa noturna. Aquele beco estava movimentado pela primeira vez. Nenhum dos lados do beco tinha saída, apenas uma grade do lado do meu restaurante que ficava sempre de cadeado e só era aberto por nós quando os garis vinham buscar o lixo.
— Jasmim. — Mario me achou do lado de fora. — Posso falar com você um minutinho?
— O que você ainda tá fazendo aqui? É hora de ir pra casa, descansar. — Falei sorrindo.
— Eu sei, eu sei. — Ele sorriu.
— O que houve? Precisa de alguma coisa? — Falei o encarando se aproximar.
— Queria conversar contigo. Esse final de semana, no sábado é minha folga. Você sabe. — Ele falou sem jeito. — Eu pensei, sei lá, se a gente não poderia fazer alguma coisa junto.
— Mario... — Falei desviando o olhar. — Não vai rolar.
— Ah Jasmim, é só uma saída. — Ele falou colocando a mão no bolso.
— Você sabe. — Falei pausando para encarar os riquinhos que haviam saído da porta do fundo. Ele. O Meyer e mais dois homens vistoriando o beco. Ele me encarou por alguns segundos.
— O que eu sei? — Mario falou se aproximando um pouco mais.
— Sabe que não vai rolar. — Falei dando um passo pra trás agora voltando minha atenção pra ele.
— Por quê? — Ele me encarou.
— Porque não, Mario. Peço desculpas mais uma vez se acabou soando algo com aquele beijo. Mas eu estava bêbada.
— Eu sei, eu sei, Jass. — Ele falou assentindo. — Eu só estou te chamando pra sair e não pra me beijar de novo. Somos amigos. — Ele falou revirando os olhos.
— Mesmo? Você só quer minha amizade? — Perguntei arqueando uma das sobrancelhas.
— Eu quero o que você quiser me oferecer. Você só está disposta a oferecer amizade, então não tenho muita escolha quando não quero te perder. — Ele deu de ombros. — Sem falar que as meninas também vão. Meu amigo vai dar uma festa, vai ser legal.
— Tá, ta. — Falei sorrindo. — Prometo que vou pensar. Agora me deixe terminar aqui e vá pra casa, não pagamos adicional ou hora extra. — Falei gesticulando pra que ele fosse embora.
— Quer ajuda? — Ele perguntou apontando pros lixos.
— Não. Desvio de função. — Falei fazendo careta.
— Besta. — Ele riu.
— Vai logo menino, vai ficar tarde e tua baixada é perigosa. — Falei.
— Tá, até amanhã. — Ele falou. Virou-se e foi embora.
Notei que os caras conversavam alguma coisa com o Meyer, eles falavam em outra língua então não dava para entender muita coisa. Apertei play em minha música e continuei jogando meu lixo fora. Como era resto de comida, eu fazia questão de sempre separar os sacos para no final da noite saber o que colocaria para os cachorros que sempre vinham buscar do outro lado da grade. Verifiquei o saco e deixei por último. Quando terminei de jogar tudo, peguei o saco me aproximando da grade.
— Psi.Psi.Psi. — Fui chamando os gatinhos daquela região e também os cachorros. Os caras que estavam conversando pararam pra me encarar por um momento e voltaram a falar algo entre si. Eles precisavam se esforçar mais para me fazer ter medo de algum ali, e o Meyer estava na roda então continuei o que estava fazendo. Logo os bichinhos foram aparecendo com seus rabinhos abanando, passei o saco pela grade e abri jogando o resto de comida no chão em dois pontos diferentes para que todos pudessem comer. Me levantei e fiquei um pouco olhando aquela cena, depois me virei para voltar pra dentro. Meyer me encarava de soslaio e eu percebi. Continuei meu caminho e logo entrei.
Fechei o restaurante e aumentei meu fone de ouvido no máximo ao som de Hit do Ano – Jorge & Mateus – e segui meu caminho imaginando meu filme de romance. Estava tão entretida que nem vi quando um carro preto parou diante de mim. Eu já estava analisando minhas possibilidades de fuga quando vi o vidro de trás abaixar me revelando alguém conhecido.
— Quer uma carona? — Meyer falou me encarando quando parei retirando um dos fones.
— Você quase me matou de susto. — Falei. — Sabe que são apenas dez minutos, né? — Falei.
— Sei. Mas dez minutos pra quem trabalhou duro o dia todo pode ser muito. — Ele deu de ombros.
— Obrigada pela iniciativa. Mas eu gosto de caminhar, ajuda a pensar na vida. — Eu disse sorrindo.
— Entendi. Posso andar com você? — Ele perguntou me encarando.
— Sério? — Falei arqueando uma das sobrancelhas.
— Sério. — Ele disse agora abrindo a porta do carro.
— Tudo bem. — Dei de ombros.
— Lass mich wissen, dass ich einem Jasmim folge. — Ele falou para o motorista.
A porta do carona se abriu e um segurança desceu do carro. Ele suspirou.
— Es ist nicht erforderlich. — Ele falou na direção do segurança.
— wisse, dass ich verpflichtet bin, dich zu begleiten. — O segurança respondeu o encarando. Eu daria tudo para entender a conversa.
— Zehn Schritte entfernt. Privatsphäre. — Meyer falou apontando para o chão. — Ok. Vamos. — Ele falou me encarando.
— Ok. — Falei.
— O que você está escutando? — Ele apontou para o meu fone.
— Ah. Quer escutar? — Tirei do bolso o outro fone e o ofereci.
— Obrigado. — Ele aceitou e colocou no ouvido.
Para o meu azar eu estava escutando Arranhão de Henrique Juliano. Ele colocou as mãos nos bolsos e seguimos andando calados. Na verdade, ELE seguiu calado porque é impossível ouvir essa musica e não cantar.
Alguns momentos eu o flagrei me olhando de canto com um sorrisinho quase imperceptível, aquilo me fez sorrir. Quando chegamos em frente á minha casa ele retirou o fone que estava usando e me entregou.
— Bom, muito obrigada por me acompanhar até aqui. — Falei pegando o fone em sua mão.
— Eu quem agradeço pela companhia. — Ele falou olhando agora além de mim e voltando a me encarar. — Raramente consigo fazer algo que não seja dentro daquele carro.
— Hum, sempre que quiser pode me usar como desculpa. — Eu sorri. — Para caminhar, claro. — Falei desviando o olhar. Me usar? Oi?
— Ok então. — Ele sorriu. Um sorriso gentil. Educado. Atraente. MEU DEUS. — Mach's gut!
— Vou acabar fazendo aula de alemão uma hora dessas. — Resmunguei brincando.
— A gente se vê. — Ele riu, um riso rouco e gostoso de ouvir. Assenti. Ele se virou pronto para atravessar a rua. — Seria uma boa idéia, se precisar de um professor... — Ele se virou novamente sorrindo e voltou a caminhar para sua casa.
Levei alguns segundos para me recompor e entrei em casa. UAU. UAU. UAU. Eu precisava respirar, ele havia levado todo ar dos meus pulmões com aquele último sorriso.
— Demorou! — Dona Marilia gritou da cozinha. — Eu já estava ficando preocupada.
— A senhora e seus dramas. — Revirei os olhos como se ela pudesse me ver.
— Estava conversando com o Meyer? — Minha mãe falou agora aparecendo em meu campo de visão.
— Quantos olhos a Senhora têm? — Eu falei não conseguindo esconder o sorriso.
— Hum. Eu conheço essa cara. — Minha mãe abriu um sorriso mais largo que o meu! — Lindo ele né? Gentil, educado. Um príncipe perfeito. — Ela cantarolou a última frase.
— Não, dona Marilia. Não comece! — Falei agora indo diretamente para o meu quarto.
— Eu estou mentindo? — Ela parou na porta do meu quarto e perguntou. — Vai dizer que você também não notou essa beleza gringa na casa vizinha? Tão perto! E aqueles olhos que carregam um oceano inteiro de perfeição? — Ela falou a última frase dramaticamente
Aquilo me fez rir, eu amava o jeito como minha mãe me tratava, ela era sempre minha melhor amiga. Talvez a distância nos fizesse se reconhecermos mais como amigas do que como mãe e filha.
— Não, não vi. — Gritei indo para o banheiro. Sorri quando finalmente fechei a porta ficando comigo mesma. QUE BELEZA GRINGA. QUE OLHOS. PUTA MERDA!
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