
Do Bode Expiatório à Justiceira
Capítulo 2
O meu casamento terminou no dia em que o meu sogro, Miguel, morreu.
Ele caiu da escada.
Quando cheguei ao hospital, ele já estava na morgue.
A minha sogra, Sofia, agarrou o meu braço com força, as suas unhas a cravarem-se na minha pele.
"Onde estavas? O teu marido ligou-te o dia todo, porque é que não atendeste?"
A sua voz era rouca e cheia de acusação.
Eu olhei para o meu telemóvel. O ecrã estava partido e escuro. Tinha-o deixado cair enquanto corria para o hospital.
"Eu estava no metro, o meu telemóvel ficou sem bateria. O que aconteceu?"
"O que aconteceu?" ela repetiu, a sua voz a subir uma oitava. "O teu sogro morreu, é isso que aconteceu! E tu, a sua nora, só apareces agora!"
O meu marido, Pedro, afastou-a suavemente.
"Mãe, para com isso. A Lúcia não sabia."
Ele virou-se para mim, os seus olhos vermelhos e inchados.
"O pai estava a tentar trocar uma lâmpada na escada. Ele escorregou."
A sua voz falhou.
"A ambulância demorou muito tempo a chegar. Ele... ele não resistiu."
Eu senti um nó na garganta. Miguel sempre tinha sido bom para mim, muito melhor do que a Sofia. Ele era o pilar daquela família.
Nesse momento, a minha cunhada, Clara, aproximou-se, a chorar nos braços do seu marido, Tiago.
"A culpa é toda dela!" Clara gritou, apontando para mim. "Se ela estivesse em casa, o pai não teria subido àquela escada! Ele só foi trocar a lâmpada porque a Lúcia se queixou da escuridão no corredor!"
Fiquei paralisada.
Era verdade. Na semana passada, eu tinha mencionado casualmente que a luz do corredor estava a piscar e que era um pouco perigoso. Miguel disse que tratava disso.
Eu nunca pensei que uma observação tão simples pudesse levar a isto.
"Clara, isso não é justo," eu disse, a minha voz a tremer. "Eu não lhe pedi para fazer aquilo."
"Não pediste?" Clara libertou-se de Tiago e veio na minha direção. "Tu vives na nossa casa, não pagas renda, e ainda te queixas! Se não fosses tu, o meu pai ainda estaria vivo!"
Pedro pôs-se entre nós.
"Clara, já chega! Não é altura para isto."
"Não é altura?" ela gritou. "O nosso pai está morto, e tu ainda a defendes? Pedro, tu és cego?"
Sofia interveio, o seu rosto contorcido de dor e raiva.
"Ela tem razão, Pedro. Desde que esta mulher entrou na nossa família, só trouxe desgraça. O teu pai estava perfeitamente bem antes de ela se queixar da lâmpada."
Olhei para o Pedro, à espera que ele me defendesse, que dissesse que era um acidente terrível, que a culpa não era de ninguém.
Mas ele apenas olhou para o chão, em silêncio.
O seu silêncio foi a resposta mais clara de todas.
Naquele momento, no corredor frio e estéril do hospital, com o cheiro a desinfetante no ar, eu percebi que o meu casamento tinha acabado. A morte de Miguel não foi a causa, foi apenas o gatilho que expôs as fissuras que já lá estavam.
Para eles, eu seria sempre a intrusa, a causa de todos os problemas.
E o meu marido, o homem que prometeu amar-me e proteger-me, nunca estaria verdadeiramente do meu lado.
Você pode gostar





