
Do Bode Expiatório à Justiceira
Capítulo 3
O funeral foi três dias depois.
Eu vesti-me de preto, uma figura silenciosa no meio da família enlutada.
Ninguém falou comigo.
Sofia e Clara sentaram-se na primeira fila, a receber as condolências. Elas choravam alto, os seus corpos a tremer de dor.
Pedro estava ao lado delas, o seu rosto uma máscara de exaustão. Ele olhou para mim uma vez, um olhar vazio que não continha qualquer conforto.
Durante a cerimónia, o padre falou sobre como Miguel era um bom homem, um marido e pai dedicado.
As minhas memórias dele eram de gestos simples. Ele a dar-me uma chávena de chá quente quando eu chegava a casa tarde do trabalho. Ele a arranjar a minha bicicleta sem que eu pedisse. Ele a piscar-me o olho quando a Sofia fazia um comentário maldoso.
Lágrimas silenciosas escorreram pelo meu rosto. Eu não estava a chorar apenas pela sua morte, mas também pela perda do único aliado que eu tinha naquela casa.
Depois do funeral, voltámos para casa em silêncio.
A casa parecia vazia, fria. A ausência de Miguel era palpável.
Sofia sentou-se no sofá favorito dele, a abraçar uma das suas almofadas.
"Temos de falar," disse ela, a sua voz sem emoção.
Pedro, Clara e Tiago sentaram-se à sua volta. Eu fiquei de pé perto da porta, a sentir-me como uma estranha.
"O teu pai deixou um testamento," Sofia continuou, olhando diretamente para o Pedro. "Ele deixou tudo para mim e para vocês, os filhos."
Ela fez uma pausa, e depois os seus olhos encontraram os meus.
"Lúcia, tu não és mencionada."
Eu assenti. Não esperava ser. Eu não queria nada deles.
"Acho que é melhor saíres," disse a Clara, a sua voz cortante. "A tua presença aqui só nos magoa."
"Clara..." Pedro começou, mas a sua voz era fraca.
"Não, Pedro. Ela tem de ir," Sofia interveio, a sua voz firme. "Esta é uma casa de luto. Não precisamos de lembretes do que aconteceu."
Um "lembrete". Era isso que eu era para eles. Não uma nora, não um membro da família. Apenas um lembrete vivo da sua perda.
Eu olhei para o Pedro.
"Pedro?"
Eu queria que ele dissesse alguma coisa. Qualquer coisa. Que dissesse que eu era a sua esposa, que o meu lugar era ao seu lado.
Ele evitou o meu olhar.
"Mãe, talvez possamos falar sobre isto mais tarde."
"Não há nada para falar," disse Sofia, levantando-se. "A decisão está tomada. Podes arrumar as tuas coisas, Lúcia. Podes ficar até ao fim de semana."
A sua generosidade era esmagadora.
Eu não disse mais nada. Virei-me e subi as escadas para o quarto que partilhava com o Pedro.
O quarto parecia diferente. As minhas coisas pareciam deslocadas.
Abri o armário e comecei a tirar as minhas roupas. Dobrei-as metodicamente, colocando-as numa mala que encontrei no fundo do armário.
Cada peça de roupa era uma memória. O vestido que usei no nosso primeiro encontro. A camisola que ele me deu no Natal.
Agarrei na camisola, o tecido macio contra os meus dedos. O cheiro dele ainda estava lá.
A porta abriu-se e o Pedro entrou.
Ele ficou a observar-me em silêncio por um momento.
"Lúcia, não precisas de fazer isto agora."
"A tua mãe disse que eu tinha até ao fim de semana," respondi, sem olhar para ele. "Estou apenas a começar mais cedo."
"Ela não está a pensar bem. Ela está de luto."
"E tu?" perguntei, finalmente virando-me para o encarar. "Qual é a tua desculpa, Pedro?"
Ele passou a mão pelo cabelo, um gesto de frustração que eu conhecia bem.
"O meu pai acabou de morrer. O que é que tu queres que eu faça?"
"Eu quero que sejas o meu marido! Eu quero que me defendas! Eu quero que digas à tua mãe e à tua irmã que a morte do teu pai foi um acidente trágico, não a minha culpa!"
A minha voz subiu, cheia da dor e da raiva que eu tinha reprimido.
"Tu achas que é fácil para mim?" ele retorquiu, a sua própria voz a aumentar. "A minha mãe está destroçada! A minha irmã está destroçada! Elas precisam de alguém para culpar!"
"E esse alguém sou eu?"
O meu coração partiu-se.
"Então é isso. Eu sou o vosso bode expiatório. O saco de boxe para a vossa dor."
"Não foi isso que eu disse."
"Não precisaste de dizer. O teu silêncio disse tudo."
Fechei a mala com um clique alto. O som ecoou no silêncio tenso entre nós.
"Eu vou-me embora hoje, Pedro."
"Lúcia, por favor..."
"Não. Acabou. Eu não posso viver numa casa onde sou odiada. E não posso estar casada com um homem que permite que isso aconteça."
Peguei na mala e caminhei em direção à porta.
Ele não se moveu para me impedir.
Parei na ombreira da porta e olhei para trás uma última vez.
"Adeus, Pedro."
Ele apenas ficou lá, a observar-me ir embora.
Você pode gostar





