
Divórcio: Seis Meses Depois
Capítulo 2
O envelope de papel pardo estava sobre a mesa da cozinha, um objeto estranho em meio à familiaridade do seu lar. Ana Lúcia o encarou por um longo momento, o coração batendo um ritmo ansioso contra suas costelas. O nome do remetente era de um escritório de advocacia que ela não reconhecia. Com as mãos trêmulas, ela rasgou o selo.
Dentro, havia um único documento. Um acordo de divórcio.
Seu fôlego ficou preso na garganta. Os termos eram claros, frios e precisos, detalhando a divisão de bens que ela nem sabia que estavam em discussão. Mas a parte que fez seu mundo parar foi a assinatura no final da página. Era a assinatura de seu marido, Marcos. E ao lado, uma data.
A data era de seis meses atrás.
Seis meses. Por seis meses, ele viveu ao seu lado, dormiu na mesma cama, beijou-a de bom dia, enquanto este documento existia, um segredo silencioso entre eles. A traição a atingiu com uma força física, deixando-a sem ar. Como isso era possível? Eles não haviam brigado. Não havia discussão, nem distância. A vida deles, para ela, era a mesma de sempre.
A memória a puxou para trás, para uma noite chuvosa, há dez anos. Eles estavam presos no carro, rindo, e Marcos pegou sua mão. "Ana, eu nunca vou te deixar", ele disse, seus olhos escuros e sérios. "Você é a minha vida. Meu começo e meu fim." As palavras, que antes eram o alicerce de sua existência, agora soavam como uma zombaria cruel. Cada promessa, cada momento de ternura, era agora uma mentira.
O som da porta da frente se abrindo a tirou de seu transe doloroso. Ela rapidamente escondeu o papel de volta no envelope, seu corpo tenso. Marcos entrou, sorrindo, o mesmo sorriso caloroso que ela amava.
"Querida, cheguei", ele disse, caminhando para lhe dar um beijo.
Ela se encolheu instintivamente. Ele parou, a confusão em seu rosto.
"O que foi?"
"Nada. Dia cansativo", ela mentiu, a palavra arranhando sua garganta.
Mais tarde naquela noite, enquanto fingia dormir, ela o ouviu ir para o escritório. A porta não estava completamente fechada. A curiosidade, uma necessidade desesperada de entender, a fez sair da cama. Ela se aproximou em silêncio, o chão de madeira frio sob seus pés.
A voz de Marcos era um sussurro baixo, mas cada palavra era clara como cristal.
"Sim, Isabela... Eu sei, meu amor. Só mais um pouco de paciência... Ela não suspeita de nada... O médico disse que o estado dela ainda é frágil, qualquer choque pode ser perigoso... Não, claro que não a amo. Ela é uma obrigação, um fardo que logo vou me livrar. Então seremos só nós dois."
Um fardo.
A palavra a atingiu. Não com dor, mas com um frio cortante. A tristeza que a sufocava começou a se transformar em algo diferente. Algo duro e gelado. A imagem de seu rosto carinhoso, de suas palavras doces, se sobrepôs à voz cruel que ela ouvia agora. A duplicidade dele era monstruosa.
Ela recuou da porta, o coração não mais batendo de dor, mas com uma pulsação lenta e pesada. Uma fúria fria e clara tomou conta dela. Ele a via como um fardo frágil. Ele e essa... Isabela. Eles a subestimaram.
De volta ao quarto, ela pegou o envelope. Não o rasgou. Não chorou. Com uma calma que a assustou, ela o dobrou cuidadosamente e o colocou no fundo de sua gaveta de joias, sob as lembranças do amor que ele havia matado. Aquilo não era mais um documento de divórcio. Era uma declaração de guerra. Ele queria se livrar dela. Pois bem. Ela desapareceria. Mas não como a vítima frágil que ele imaginava. Ela o faria se arrepender de cada mentira, de cada toque falso, de cada palavra de amor envenenada. A vingança seria sua única companhia agora.
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