
Divórcio: Seis Meses Depois
Capítulo 3
No dia seguinte, Ana Lúcia começou a se mover. Sua dor se transformou em um motor silencioso e eficiente. O primeiro passo era apagar Ana Lúcia, a esposa de Marcos. Ela usou um computador público em uma biblioteca para pesquisar. Horas de leitura em fóruns obscuros a levaram a um contato. Um nome, um número. Alguém que poderia criar uma nova identidade, apagar a antiga. Era caro, perigoso. Ela não hesitou. Transferiu uma parte significativa de suas economias pessoais, um fundo que vinha guardando secretamente para uma emergência. A ironia era amarga.
Quando Marcos chegou em casa naquela noite, ela o cumprimentou com um sorriso. Um sorriso que não alcançava seus olhos, mas ele, em sua arrogância, não percebeu.
"Você parece melhor hoje", ele comentou, colocando uma maleta na cadeira.
"Apenas cansada ontem", ela respondeu, a voz suave e controlada. Por dentro, cada célula do seu corpo gritava. Manter a calma na presença dele era uma tortura, um exercício de autocontrole monumental.
Ele se aproximou e tocou seu rosto. "Eu me preocupo com você."
A hipocrisia de seu gesto era tão palpável que ela quase engasgou. Ela observou seus olhos, procurando qualquer vestígio de culpa, mas não encontrou nada. Apenas a mesma falsa preocupação que ele provavelmente exibia para o mundo. Ele era um ator talentoso, e ela havia sido seu público mais devoto.
No sábado, ele disse que tinha uma "reunião de emergência" no hospital. Ela sabia que era mentira. Uma hora depois que ele saiu, ela pegou um táxi. Deu ao motorista o endereço de um dos restaurantes mais caros da cidade, um lugar que Marcos sempre dizia ser "pretensioso demais". Uma intuição fria a guiou.
Ela se sentou em um café do outro lado da rua, usando óculos escuros e um chapéu. E então ela os viu. Marcos e uma mulher. A mulher era mais jovem, com cabelos loiros brilhantes e um sorriso que parecia permanentemente fixado em seu rosto. Isabela. Ela ria de algo que Marcos dizia, tocando seu braço de uma forma possessiva e familiar.
O clímax de sua vigilância dolorosa veio quando Marcos se inclinou sobre a mesa, pegou a mão de Isabela e a beijou. Seus lábios se moveram, e mesmo à distância, Ana Lúcia pôde imaginar as palavras. Promessas. As mesmas promessas que ele sussurrou para ela em noites escuras. O mundo pareceu inclinar-se, a visão turva por um instante. Era uma coisa ouvir a traição pelo telefone; era outra, completamente diferente, testemunhá-la em tecnicolor, uma performance pública de sua humilhação.
Ela permaneceu ali, imóvel, até que eles se levantaram para sair. Quando passaram perto da vitrine do café, ela pôde ouvir um fragmento da conversa deles.
"... você sabe que eu estaria com você agora se não fosse pela saúde dela", Marcos dizia em um tom baixo e conspiratório. "O médico foi muito claro. Precisamos ir com calma. Não quero que a culpa de qualquer coisa que aconteça com ela recaia sobre nós."
A desculpa. A mentira conveniente que o pintava como um cuidador relutante, preso a uma esposa doente. A raiva em seu peito era como um veneno lento, queimando qualquer resquício de amor ou tristeza que ainda pudesse existir. Ele não estava apenas a traindo. Ele estava usando sua suposta fragilidade como uma arma, como um escudo para sua própria covardia. Ela pegou o celular e digitou uma mensagem para o contato anônimo. "Comece o processo. O mais rápido possível."
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