
Divórcio: Apenas o Começo
Capítulo 2
O casamento tinha acabado há menos de uma hora, mas o cheiro de flores e festa já tinha sido substituído pela tensão no ar.
Estávamos na suíte presidencial do hotel de luxo, um lugar que deveria ser o cenário do início do nosso "felizes para sempre".
Em vez disso, era o palco de um pesadelo.
O gerente do hotel, um homem de terno impecável e sorriso forçado, segurava um tablet na minha frente.
Na tela, um número que me fez piscar várias vezes.
Duzentos e cinquenta mil reais.
"Desculpe, deve haver algum engano", eu disse, minha voz saindo mais calma do que eu me sentia. "O pacote que fechamos era de cem mil. Já pagamos a metade. O restante seria pago hoje."
Ao meu lado, meu recém-marido, Carlos Eduardo, parecia pálido. Ele não olhava para o gerente, nem para a conta. Olhava para a mãe dele.
Maria da Graça, minha sogra, estava sentada em uma poltrona de veludo como se fosse um trono. Ela abanava o rosto com um leque, um sorriso de desprezo nos lábios.
"Engano? Que engano, querida?", ela disse, com uma voz doce e venenosa. "Tudo que está aí foi consumido. Ou você esperava que meus parentes, que vieram de tão longe para prestigiar seu casamento, ficassem com sede?"
Ela riu, um som desagradável que ecoou no silêncio tenso.
O gerente pigarreou, claramente desconfortável.
"Senhora Ana Paula, a conta extra refere-se ao consumo de bebidas importadas, pratos especiais que não estavam no menu contratado, e... alguns outros itens."
"Que outros itens?", perguntei, sentindo um frio na barriga.
O gerente deslizou o dedo na tela, mostrando uma lista detalhada.
Mini-geladeiras dos quartos de hóspedes, esvaziadas. Toalhas, roupões, talheres de prata, pequenos objetos de decoração. Até mesmo um dos televisores de 32 polegadas de um dos quartos estava na lista como "desaparecido".
"Isso é um roubo", eu disse, olhando diretamente para Maria da Graça.
Ela deu de ombros, sem se abalar.
"São apenas lembrancinhas, nora. Uma forma de agradecer pela festa maravilhosa. Além disso, a família do noivo sempre leva um agrado, é tradição."
"Tradição? Levar uma televisão do hotel é tradição?", minha voz subiu uma oitava.
"Não seja exagerada. Alguém deve ter se confundido. Mas a conta das bebidas é real. E como você é a noiva, a esposa, a conta é sua."
Carlos Eduardo finalmente se mexeu. Ele se aproximou de mim, colocando a mão no meu ombro.
"Ana, querida, não vamos brigar por causa disso. É só dinheiro. A gente paga."
"A gente paga?", repeti, incrédula, me afastando do toque dele. "Carlos, você está ouvindo o que sua mãe está dizendo? Eles saquearam o hotel e estão tentando nos fazer pagar por isso e por um consumo absurdo que não autorizamos!"
"Não fale assim da minha mãe!", ele respondeu, o tom subindo. "Ela só queria que todos se divertissem."
Eu ri, um riso sem humor.
"Divertir? Isso não é diversão, é fraude."
Virei-me para o gerente.
"Eu não vou pagar por isso. Vou pagar os cinquenta mil restantes do nosso contrato. O resto é problema de vocês com os hóspedes que causaram esse prejuízo."
O gerente engoliu em seco. Ele olhou de mim para Maria da Graça, que o encarava com um olhar duro. Ele parecia ter medo dela.
"Senhora, a reserva principal está no seu nome e no do seu marido. Legalmente, vocês são os responsáveis por todas as despesas geradas pelos seus convidados."
"Então chame a polícia", eu disse, cruzando os braços. "Vamos ver o que eles acham dessa 'tradição' de levar TVs como lembrancinha."
Maria da Graça se levantou. Ela caminhou lentamente até mim, seu rosto a centímetros do meu. O perfume dela era forte e enjoativo.
"Escute aqui, sua garotinha mimada", ela sussurrou, para que só eu ouvisse. "Você vai pagar essa conta. Vai pagar cada centavo. Pense nisso como um complemento do dote que seu pai deu, que, convenhamos, foi bem medíocre. Se não pagar, eu vou transformar sua vida em um inferno. E o primeiro passo será contar para toda a sociedade como a família da noiva é caloteira e mesquinha."
Ela se afastou, sorrindo de novo.
"Carlos Eduardo, meu filho, vamos embora. Deixe sua esposa pensar com calma. Ela é uma mulher inteligente, vai tomar a decisão certa."
Ela pegou o filho pelo braço e o arrastou para fora da suíte, sem sequer olhar para trás. Os parentes dela, que esperavam no corredor, riram e cochicharam enquanto passavam por mim.
Fiquei sozinha na suíte presidencial, o cheiro de vitória deles preenchendo o ar.
O gerente continuava ali, parado, segurando o tablet com a conta de um pesadelo.
Ele olhou para mim, a expressão mudando de nervosismo para uma espécie de pena.
"Eles me disseram que a senhora arcaria com tudo. A Sra. Maria da Graça me garantiu isso ontem."
Então era um plano. Um plano premeditado para me humilhar e extorquir minha família.
Eu respirei fundo. A mágoa e o choque estavam dando lugar a uma raiva fria e clara.
Eles não sabiam com quem estavam mexendo.
"Pode deixar a conta aí", eu disse ao gerente, minha voz firme. "Eu não vou a lugar nenhum. E pode avisar à segurança para não deixar a senhora Maria da Graça ou qualquer parente dela sair do hotel com bagagens suspeitas. Eu vou ligar para a polícia agora mesmo."
O sorriso de pena do gerente desapareceu. Ele me olhou com um novo respeito.
Ele percebeu que a briga estava apenas começando.
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