
Divórcio: Apenas o Começo
Capítulo 3
O gerente do hotel, cujo nome era Sr. Almeida, ficou visivelmente pálido com a menção da polícia. Ele olhou para a porta por onde Maria da Graça tinha saído e depois para mim.
"Senhora, por favor, vamos resolver isso com calma. Chamar a polícia pode gerar um escândalo, o que não seria bom para ninguém, nem para o hotel, nem para a sua família."
"Um escândalo já foi criado, Sr. Almeida. A partir do momento em que seus funcionários permitiram que meus convidados consumissem o que quisessem sem um controle, e a partir do momento em que itens do hotel desapareceram sob sua vigilância."
Eu peguei meu celular.
"O hotel tem câmeras de segurança, certo? Nos corredores, nas saídas. Quero acesso às gravações das últimas 12 horas. Especialmente as que mostram os hóspedes dos quartos de onde os itens sumiram."
A postura do gerente mudou. Ele não era um homem mau, apenas fraco, e percebeu que tinha sido cúmplice, mesmo que por omissão, de um golpe. E agora, a vítima estava reagindo de uma forma que ele não esperava.
"Vou verificar o que posso fazer", ele disse, já pegando seu próprio telefone e se afastando para um canto da sala para fazer uma ligação.
Enquanto ele falava baixo e rápido, eu liguei para o meu pai. Expliquei a situação de forma resumida. Ele não gritou, não se desesperou. Apenas disse, com sua voz calma de sempre:
"Não pague um centavo a mais, Ana Paula. Deixe que eles façam o que quiserem. Estamos a caminho."
Desliguei e senti uma onda de alívio. Eu não estava sozinha.
Carlos Eduardo me ligou em seguida. A voz dele era um misto de irritação e súplica.
"Ana, o que você está fazendo? O gerente acabou de ligar para minha mãe dizendo que você quer chamar a polícia! Você quer nos envergonhar no dia do nosso casamento?"
"A vergonha não é minha, Carlos. É da sua mãe e dos seus parentes ladrões. Onde você está?"
"Estou com a minha família. Eles estão furiosos. Minha mãe está passando mal."
"Que conveniente", respondi, seca. "Diga a ela que a polícia vai querer falar com ela em breve. Talvez ela melhore subitamente."
"Você não pode fazer isso!", ele gritou. "É a minha mãe!"
"E eu sou sua esposa. Ou era, até alguns minutos atrás. Você fez sua escolha, Carlos Eduardo. Agora lide com as consequências."
Desliguei na cara dele. Meu coração doía, mas a raiva era maior. A decepção era um gosto amargo na minha boca. O homem com quem eu tinha me casado não existia. Ele era apenas uma marionete nas mãos da mãe.
O Sr. Almeida terminou sua ligação e se aproximou de mim.
"Senhora, a gerência geral autorizou que eu lhe mostre as imagens. E eles também me instruíram a resolver isso da forma mais discreta possível. O hotel reconhece que houve uma falha em nossos procedimentos."
"Ótimo. Então vamos começar a resolver."
Fomos para a sala de segurança do hotel. Em uma parede cheia de monitores, vimos a verdade em preto e branco. Tios, primos e amigos de Carlos Eduardo saindo dos quartos com sacolas suspeitas. Um primo, em particular, foi flagrado por uma câmera no corredor de serviço, tentando carregar a TV de 32 polegadas enrolada em um lençol.
Era tão absurdo que chegava a ser cômico.
O Sr. Almeida ficou vermelho de vergonha e raiva.
"Isso é inaceitável."
"Concordo", eu disse. "Agora, sobre a conta. Eu pago os cinquenta mil que faltam do contrato original. O resto, vocês cobram de quem consumiu e de quem roubou. Tenho certeza que a Sra. Maria da Graça tem o endereço de todos eles."
Ele assentiu, derrotado.
"Sim, senhora. O hotel vai arcar com o prejuízo e tomar as medidas cabíveis contra os responsáveis. A senhora não deve mais nada."
Foi uma vitória, mas pequena. O problema maior ainda estava por vir.
Quando voltei para a suíte, meus pais e minha melhor amiga, a Júlia, já estavam lá. Minha mãe me abraçou forte, sem dizer nada. Júlia segurou minha mão. Meu pai foi direto ao ponto.
"Onde eles estão?"
"Ainda no hotel, provavelmente no lobby, planejando o próximo ataque."
Nesse exato momento, a porta da suíte se abriu com um estrondo. Maria da Graça entrou, seguida por Carlos Eduardo e uns dez parentes. Todos com cara de poucos amigos.
"Então a putinha decidiu criar um problema?", ela gritou, apontando um dedo ossudo para mim.
Meu pai se colocou na minha frente.
"Respeito com a minha filha, senhora."
Maria da Graça riu na cara dele.
"Respeito? Vocês nos devem duzentos e cinquenta mil reais! E agora, por causa dessa sua filha mimada, o hotel nos acusou de roubo! Fomos humilhados!"
"Vocês se humilharam sozinhos", retrucou Júlia.
A polícia do hotel, dois seguranças uniformizados, chegou logo atrás, chamados pelo Sr. Almeida, que observava a cena de uma distância segura.
A situação era caótica. Gritos, acusações. Carlos Eduardo tentava acalmar a mãe, que parecia possuída.
No meio da confusão, um dos tios de Carlos gritou:
"Essa dívida é do casal! Se ela não pagar, o Carlos Eduardo paga! E como eles casaram com comunhão de bens, o que é dela é dele!"
O silêncio caiu por um instante.
Era esse o plano. A fraude, a extorsão, e agora, a armadilha legal. Eles queriam transformar a dívida fraudulenta em uma dívida conjugal, para que eu, ou minha família, fôssemos forçados a pagar para proteger o patrimônio.
Maria da Graça sorriu, um sorriso vitorioso. Ela achava que tinha ganhado.
Mas eu olhei para Carlos Eduardo. O homem que deveria me proteger, que deveria estar ao meu lado. Ele olhava para o chão, incapaz de me encarar. Cúmplice. Fraco. Patético.
"A dívida não existe mais", eu disse, com a voz clara e alta, para que todos ouvissem. "O hotel admitiu o erro e vai cobrar dos verdadeiros responsáveis. E quanto à comunhão de bens..."
Eu tirei a aliança de ouro branco do meu dedo. O símbolo do nosso amor, agora apenas um pedaço de metal frio.
Caminhei até Carlos Eduardo e coloquei a aliança na mão dele, fechando seus dedos sobre ela.
"Pode ficar. Eu quero o divórcio."
O queixo de Maria da Graça caiu. A expressão de Carlos Eduardo era de puro pânico.
A guerra tinha sido declarada. E eu não ia perder.
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