
Da Ruína: A Volta por Cima do Fotógrafo
Capítulo 2
O mundo fora do prédio da Justiça Federal parecia barulhento demais, brilhante demais, depois da calma forçada lá dentro. A figura de Conrado, encolhendo no retrovisor, finalmente desapareceu quando viramos uma esquina. Foi um suspiro visual que eu nem sabia que estava segurando.
Caio olhou para mim, os nós dos dedos brancos no volante. Ele tinha visto tudo.
"Então, 'marido', hein?", ele disse, um sorriso irônico tocando seus lábios. Ele sempre foi bom em quebrar a tensão.
Inclinei a cabeça para trás no assento. "Simplesmente saiu."
"Simplesmente saiu?" Ele riu, um som genuíno e caloroso. "Foi como assistir a um mergulho perfeitamente executado. Nota dez."
Ele olhou para mim novamente, seu sorriso desaparecendo um pouco. "Ele parecia ter visto um fantasma, Elisa."
"E viu." Minha voz era neutra.
"Ele ficou nos observando o tempo todo, sabia?" Caio diminuiu a velocidade para um sinal vermelho. "Como se não conseguisse desviar os olhos. Quem era aquele cara?"
Fechei os olhos por um momento. O nome ainda tinha gosto de cinzas.
"Conrado Keller."
Caio pisou no freio com um pouco de força demais, fazendo o carro dar um solavanco. Ele soltou um assobio baixo. "Conrado Keller? O Conrado Keller? O queridinho da PF? Aquele que eles chamam de 'o assassino silencioso' por desvendar aqueles casos impossíveis de colarinho branco?"
Eu assenti, meus olhos ainda fechados. "Ele mesmo."
"Espera, então esse é o cara que... meu Deus, Elisa. Ele trabalhou no caso Lacerda, não foi? Ele era o agente principal, o que derrubou... espera. Lacerda. Seu sobrenome. Não pode ser." A voz de Caio era uma mistura de incredulidade e horror crescente.
"Vai com calma, Caio", eu disse, meus olhos ainda fechados. "Você vai fazer a gente ser parado."
Ele me ignorou, sua voz ganhando velocidade. "O caso Lacerda! Foi gigantesco. Notícia nacional por meses. O magnata financeiro, o esquema Ponzi... qual era o nome dele mesmo? Sr. Lacer...da? Era seu pai, não era?"
Abri os olhos e olhei para frente. O trânsito estava engarrafado.
"Sim", eu disse. "Ele era meu pai."
O queixo de Caio caiu. O carro atrás de nós buzinou. Ele mal notou.
"E o Keller... foi ele quem o prendeu. Certo? Tipo, levou o crédito pessoal pela prisão?"
Virei a cabeça para olhá-lo. Seu rosto era uma máscara de choque.
"Ele não apenas o prendeu, Caio", eu disse, minha voz vazia. "Ele se casou com a filha dele primeiro."
Caio ficou em silêncio por um longo momento. Ele finalmente arrancou no sinal, mas seu olhar continuava se voltando para mim. Ele estava tentando processar. Tudo aquilo.
"Ele se casou... com você?", ele finalmente conseguiu dizer, sua voz mal um sussurro.
"Sim", confirmei, a palavra como uma lápide. "Ele se casou comigo."
"E então ele prendeu seu pai?" O horror estava de volta em sua voz.
"No dia do nosso casamento", esclareci.
O carro se encheu de um silêncio pesado, quebrado apenas pelo zumbido do motor e pelo ruído distante da cidade. Caio agarrou o volante com tanta força que os nós de seus dedos ficaram brancos novamente. Ele não sabia o que dizer. Não havia nada a dizer.
Ele olhou para mim, depois desviou o olhar rapidamente. O peso daquela informação parecia pressioná-lo. Eu podia ver as perguntas se formando em sua mente, mas ele não ousava perguntar. Ainda não.
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