
Da Ruína: A Volta por Cima do Fotógrafo
Capítulo 3
O silêncio no carro depois da minha confissão sobre Conrado e meu pai era denso e pesado, como um cobertor sufocante. Caio manteve os olhos na estrada, mas eu podia sentir seu desconforto. Seus leves movimentos no assento, o jeito como seus dedos tamborilavam no volante. Ele estava processando. Ele era gentil, sempre foi.
"Elisa, eu... sinto muito. Eu não sabia." Sua voz era baixa, cheia de um arrependimento genuíno. "Eu não deveria ter me metido."
Eu balancei a cabeça. "Tudo bem, Caio. Você não sabia. A maioria das pessoas não sabe."
Eu realmente não estava triste. Não mais. A dor crua, o choque, a traição — essas arestas afiadas há muito haviam se tornado cegas. O que restava era uma dor familiar, um membro fantasma de uma vida passada.
"Aconteceu há muito tempo", eu disse, quase para mim mesma. "Parece a história de outra pessoa agora. Uma história que li em um livro."
Caio não insistiu. Ele apenas dirigiu, navegando cuidadosamente pelo trânsito da cidade. O ar no carro permaneceu carregado, apesar da minha tentativa de indiferença. Ele claramente sentia o peso do meu passado.
Seus olhos se voltaram para a pasta de documentos que eu ainda segurava. Era a única coisa que eu não havia soltado.
"Então", ele disse, pigarreando, sua tentativa de mudar de assunto quase comicamente transparente. "Essa pasta. Era por isso que você estava no prédio da Justiça Federal? Resolvendo algo para o seu pai?"
Passei o dedo sobre o selo federal em relevo na capa. Era frio sob meu polegar. "Sim. O testamento dele. E algumas outras coisas."
"Ah." Caio assentiu lentamente. "Entendi."
Ele não perguntou o que mais. Ele sabia.
"Meu pai morreu no mês passado", eu disse, as palavras saindo secas. "Na prisão."
A cabeça de Caio virou em minha direção, seus olhos arregalados de surpresa novamente. "Oh, Elisa... sinto muito."
"Ele teve um derrame. Foi repentino. Encontraram-no em sua cela. Ele estava doente há um tempo, eu acho. Uma forma agressiva de câncer que só descobriram alguns meses atrás." Minha voz era monótona, recitando fatos, não sentimentos. "Ele pediu liberdade condicional por compaixão, mas era tarde demais. Ele não sobreviveu à burocracia."
Olhei pela janela. As luzes da cidade se transformaram em borrões de cor.
"Suas últimas palavras para mim, ao telefone, foram: 'Viva bem, Elisa. Viva livre. E nunca deixe aquele desgraçado vencer.'" Um pequeno sorriso sem humor tocou meus lábios. "Ele nunca perdoou Conrado pelo que fez."
Meu pai. Um criminoso, sim. Um golpista que construiu um império sobre mentiras. Mas para mim, ele sempre foi apenas "pai". O homem que lia histórias para eu dormir, que me ensinou a andar de bicicleta, que sempre me disse que eu poderia alcançar qualquer coisa. Ele nunca me culpou por nada. Ele sempre tentou me proteger de seu mundo, mesmo enquanto me puxava para dentro dele. Ele recusou visitas por anos, dizia ele, porque não queria que eu o visse daquele jeito. Ele não queria que eu carregasse esse fardo.
Uma pontada, aguda e súbita, perfurou a dormência. Uma tristeza passageira, rapidamente suprimida.
"É... complicado", eu disse, passando a mão pelo cabelo. "Minha história, quero dizer. Não é simples. Não é preto no branco."
Caio estendeu a mão e apertou meu braço gentilmente. "Estou aqui para ouvir, Elisa. Quando você estiver pronta."
Respirei fundo. "Talvez eu esteja pronta. É uma longa história, no entanto. Sobre como a filha de um notório criminoso de colarinho branco, que já foi casada com o agente da PF que o prendeu, acabou aqui. Com um jovem modelo em ascensão agindo como seu falso marido."
Caio sorriu, um flash de seu habitual jeito brincalhão. "Eu aguento uma longa história. Especialmente uma com reviravoltas tão suculentas."
Consegui retribuir com um leve sorriso. Eu estava pronta. Pronta para finalmente contar a história, não como uma vítima, mas como alguém que sobreviveu.
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