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Capa do romance Cristal

Cristal

Criada em um orfanato, Cristal descobre suas origens em um povoado repleto de tradições rígidas. Obrigada a retornar para sua família biológica, ela enfrenta dificuldades para se adaptar e sente falta do amigo Simas. Com o apoio de Jonas, ela desafia normas locais em aventuras ousadas. Embora tema as punições severas da comunidade, Cristal logo percebe que as regras ocultam segredos obscuros, levando-a a questionar tudo o que lhe foi imposto.
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Capítulo 2

Quatorze anos depois...

Cristal acordou com o som de alguém pulando e, abrindo os olhos, constatou que era uma das crianças menores que estava em cima de uma outra cama perto dali. A menininha sorria para ela. A garota gemeu e virou para o outro lado, torcendo para dormir mais no único dia que podia.

- Ei... – Cristal quis ignorar aquela voz – Ei, Cristal. – mas seria impossível. Como sempre.

- O que foi? – ela sentou-se na cama olhando para o garoto na porta.

- Levanta daí, vamos. – o garoto insistiu parado na porta. Seus cabelos pretos estavam penteados e ele já estava trocado.

- Está bem. – Cristal concordou, irritada, levantando. Como sempre, também.

Ela atravessou entre as camas vazias e entrou no banheiro, que também estava vazio àquela hora porque todas as meninas já tinham levantado há bastante tempo. Cristal se trocou e depois olhou no espelho, tentando arrumar seu espesso cabelo enrolado que sempre acabava cheio de nós depois de dormir. Ela se mexia muito a noite toda, mudando de posição, e a quantidade de nós formados no dia seguinte indicavam o quanto a noite havia sido agitada.

Saiu do banheiro e encontrou o garoto ainda no mesmo lugar, mas a menininha que pulava na cama já tinha ido embora.

- Só um instante. – ela disse, arrumando a cama antes de sair.

- Você precisa dormir tanto no único dia que temos livre? – o garoto disse, irritado, quando finalmente os dois saíram para longe do dormitório feminino. Quando é que ele iria se acostumar com essa tradição?

- Mas é bem por isso, Simas. – Cristal sorriu para ele.

Os dois andaram lado a lado pela escadaria até o andar inferior, em direção ao refeitório. As velhas mesas de madeira estavam quase todas vazias, e as poucas ocupadas eram por funcionários do orfanato que sempre comiam depois das crianças.

- Cristal. – a voz da Srta. Olive, a responsável pelo refeitório, era dura, mas ao mesmo tempo aconchegante. – Outra vez dormindo até tarde?

- Dia livre! – Cristal ergueu as mãos em sinal de paz – Mas espero que ainda tenha café da manhã. – seus olhos eram suplicantes.

- Creio que sim. – Srta. Olive sorriu e apontou uma mesa – Vou ver o que posso arranjar.

Cristal se sentou com Simas bem na sua frente e bocejou. Gostava de dormir até tarde no único dia livre que possuíam, e dormiria mais se o amigo deixasse, mas ele nunca deixava.

- Olha o que eu fiz para você. – Simas passou uma folha com um desenho perfeito do rosto de Cristal.

- Nossa! – ela exclamou – Você está ficando cada vez melhor nisso. – Simas sorriu, corando ligeiramente.

Nesse momento srta. Olive trouxe o café da manhã: leite, café preto e pães. Depois de colocá-los na mesa, voltou a afastar-se. Cristal começou a comer em silêncio, estava completamente faminta.

- Em breve vou poder sair do orfanato sem supervisão. – Simas disse alegremente.

Em breve, ele completaria dezesseis anos e teria o direito de sair sozinho depois de todas as suas tarefas estarem realizadas, e precisaria retornar até as dezenove horas.

- Gostaria de poder ir também. – resmungou Cristal – Mas isso está longe de acontecer.

- Um pouco. – lamentou-se Simas.

Cristal havia completado quatorze anos há pouco tempo, o que significava que levaria praticamente mais dois anos para que também tivesse liberdade de circular sem acompanhante. O grande desejo das crianças do orfanato costumava ser esse, explorar coisas sem adultos em cima o tempo todo.

Depois do café, eles saíram pelas portas que levava para o grande jardim dos fundos. A maioria das crianças menores estava brincando ali em pequenos grupos. As maiores, que podiam sair, aproveitavam o dia de folga fora.

Cristal e Simas circularam o orfanato, andando lentamente, até que chegaram ao imenso portão da frente. Pararam ali, entre as grossas grades de ferro, e ficaram olhando para a rua. As pessoas passavam do lado de fora sem olhar muito para o casarão que era o orfanato, e isso não espantava nem Cristal e nem Simas, que haviam crescido ali e estavam habituados a serem meio invisíveis.

- Olha. – sussurrou Simas como se falasse um segredo – São elas.

Cristal olhou através das grades para onde ele apontava e viu uma mulher com uma menina mais nova.

Ambas vestiam um comprido vestido que ia até os pés, o da mulher era branco e o da menina, que devia ter pelo menos uns cinco anos a mais que Cristal, era amarelo.

- O que tem elas? – perguntou, sem entender.

- São duas Damas. – explicou Simas – Elas moram nos limites do povoado, não sei bem o que fazem, mas protegem eu acho.

- O que isso quer dizer? – Cristal estudou com os olhos as duas silhuetas que se moviam em silêncio pela rua. As pessoas acenavam com a cabeça em sinal de respeito quando passavam, mas mantinham certo distanciamento.

- Você não conhece? – Simas parecia perplexo – Damas são uma espécie de protetoras, dizem que elas tomam uma aprendiz para si. – especulou enquanto as duas figuras estavam entrando em uma loja – Eu soube que elas costumavam viver misturadas com a gente, mas então houveram muitas pessoas que quiseram fazer parte.

- O que aconteceu? – Cristal olhou para Simas, mas o garoto ainda tentava espiar.

- Elas se exilaram para os limites do povoado e passaram a aceitar apenas herdeiras. – ele concluiu.

- São só mulheres? – Cristal perguntou franzindo a testa. Como teriam herdeiras?

- Claro que não. – Simas riu, aparentemente pensando a mesma coisa – Os homens são chamados de Senhores. E antes que me pergunte, eu não sei o papel de cada um deles. – na verdade tudo que ele sabia era obtido através de pedaços de conversas que ouvia dos garotos mais velhos, antes que o percebessem por perto e mandassem sair.

Cristal suspirou e então observou, novamente, as duas figuras que agora saiam da loja. Elas carregavam uma sacola e andavam em absoluto silêncio do outro lado da rua. Foi então que a mulher mais velha ergueu o olhar e pareceu avistar Cristal. Cristal deu um passo para trás, saindo de perto das grades de ferro, surpresa.

- Ela me olhou? – perguntou perplexa.

- Pareceu. – Simas respondeu, igualmente espantado.

Os dois andaram para longe do portão e sentaram num banco gasto de madeira.

- Mas para onde elas se exilaram? – Cristal perguntou pensando nos vestidos longos das duas mulheres.

- Acho que ninguém sabe. – Simas respondeu olhando para o rosto de Cristal, mas ela não percebeu. Estava pensando sobre as coisas que ele acabara de falar e se perguntando o motivo de nunca ter ouvido falar disso.

O resto do dia foi se passando da forma como costumavam se passar os dias livres no orfanato, mas dessa vez Cristal parecia mais distante do que o de costume. Muitas vezes Simas percebeu que ela não estava ouvindo o que ele falava, mas não teve coragem de reclamar com a amiga.

Quando começou a escurecer, os moradores mais velhos começaram a voltar e se reunir no refeitório para o jantar. Cristal e Simas se sentaram juntos numa mesa no canto, como faziam há anos.

Enquanto a comida era servida, a diretora Adeline andava por entre as mesas conferindo se todos estavam presentes. Seu olhar era sempre sério e penetrante. Cristal se perguntou, como sempre fazia quando a via conferir, o que aconteceria se algum deles algum dia não respeitasse o toque de recolher.

- Não vejo a hora de poder passar algumas horas fora. – comentou Simas, ainda animado com a ideia.

- Eu também não veria. – suspirou Cristal, pensando nos dois anos que ainda faltavam.

Depois do jantar, as crianças começaram a se retirar para os dormitórios aos poucos. Quase os últimos a sair, Cristal e Simas andaram lentamente pelas escadas.

- Então vejo você amanhã. – disse Cristal indo para seu lado dos dormitórios.

- Até amanhã. – Simas respondeu, hesitando parado no topo da escada, observando enquanto ela se afastava.

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