Capa do romance Cinzas Sussurrantes

Cinzas Sussurrantes

8.9 / 10.0
Em Cinzas Sussurrantes, Asha infiltra-se no templo sagrado com o poder de ler memórias proibidas. Nesta fantasy romance, ela e o guerreiro Kael enfrentam conspirações imperiais. Leia esta adventure story e descubra se o fogo de Asha trará salvação ou ruína nesta fiction fantasy novel.
Resumo de Cinzas Sussurrantes
No império do fogo, Asha oculta sua voz e um dom proibido: ler memórias em cinzas. Enviada ao templo Ezen, ela consegue reviver segredos de guerras esquecidas. Ao lado de Kael, um guerreiro atormentado, ela explora sua linhagem em meio a conspirações e uma atração crescente. Entre rituais e fugas, Asha enfrenta um destino sombrio onde seu poder ameaça tudo. Nessa jornada de aventura e romance, as cinzas revelam verdades que podem salvar ou destruir o mundo.
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Cinzas Sussurrantes Capítulo 1

O amanhecer nas Colinas de Nareth não trazia esperança. Trouxe fumaça.

As montanhas queimavam silenciosamente ao longe, uma labareda perpétua que ninguém tentava apagar. Era o tributo ao Fogo Maior, diziam. Ninguém sabia quando começara. Ninguém se lembrava de um tempo sem fumaça.

Asha ajoelhou-se ao lado da cama da mãe, cujos suspiros eram tão frágeis quanto as cinzas que o vento carregava pela cabana. O rosto da mulher, murcho pela febre e pela idade, ainda era belo para Asha, não pelo que demonstrava, mas pelo que ela se lembrava: um riso forte, mãos que sabiam curar, uma voz que contava histórias perto do fogo.

"Você não precisa", sussurrou sua mãe. Seus lábios mal se moveram.

"Sim, mãe. Preciso." Asha pegou sua mão, trêmula e úmida. Ela havia aplicado compressas a noite toda, mas o calor não diminuía. Nem as ervas. Nem as orações. Nada era suficiente. "É a única maneira de nos salvar. De salvar você."

Sua mãe queria chorar, mas não tinha lágrimas. Apenas cinzas na garganta, como todos os outros em Nareth.

Lá fora, as trompas rituais começaram a soar.

Asha estremeceu.

"Eles estão chegando", murmurou sua mãe. Ela fechou os olhos. O sol mal espreitava por cima dos picos, mas a fumaça o tingia de vermelho-sangue.

Ela se pôs de pé, com mãos determinadas. Não era criança. Mas também não tivera tempo para ser mulher. A pobreza nas Colinas devorava os anos como brasas devoram lenha velha.

Ela pegou o manto marrom dos ofertantes. Não era bonito. Não era para ser. Mantos eram feitos para cobrir o corpo, apagar formas, anular identidades. O Fogo Maior não levava indivíduos. Levava cinzas humanas.

Sua mãe abriu os olhos com esforço. Ela ergueu uma mão ossuda, e nela segurava uma trança de cabelo. Velha. Marrom. Entrelaçada com fio de cobre.

"A fita da sua menina", disse ela. Sua voz era mais fumaça do que som.

Asha a pegou. Amarrou-a no pescoço. Sentindo uma queimadura invisível. Um peso incomensurável.

"Não se esqueça de quem você é. Mesmo que levem seu nome."

Asha não respondeu. Beijou a testa febril e foi embora. Não havia tempo para lágrimas.

Na praça, os aldeões já se reuniam. Cem jovens, todos com a idade exata, todos silenciosos. Filhos da fome, da fumaça, do medo.

Todos os anos, o Império enviava um de seus Guardiões para escolher um tributo. Um jovem. Ou uma jovem. Ninguém sabia por que eram levados. Alguns diziam que eram transformados em servos do fogo. Outros, que eram queimados vivos como oferendas para alimentar a chama sagrada que mantinha o mundo girando. Asha não acreditava em nenhuma dessas histórias. Ela acreditava em apenas uma verdade: quem partia, nunca mais voltava.

E se ela oferecesse, sua família recebia pão. Ervas. Carvão. Medicina. Por um ano inteiro.

Não foi um sacrifício.

Foi uma barganha.

As trombetas cessaram. Uma coluna de fogo cruzou o céu como uma ferida flamejante. E do céu desceu a figura do Guardião.

Ele era alto, imponente, trajando vestes negras com detalhes em cobre. Seu rosto estava coberto por uma máscara de obsidiana. Sem boca. Sem olhos. Sem alma.

Ele caminhou sem falar. Os anciãos da aldeia curvaram-se até tocarem a terra. O Guardião parou diante dos jovens. O ar ficou denso. A temperatura subiu como se o sol tivesse se posto repentinamente.

Um por um, ele olhou para eles. Ou assim parecia. Embora ninguém soubesse o que havia por trás daquela máscara. Alguns diziam que os Guardiões não eram mais humanos. Que haviam sido consumidos pela memória do fogo.

Quando ele chegou ao meio da fila, Asha deu um passo à frente.

"Eu me ofereço", disse ele. Sua voz cortou o ar como uma faca. Não tremeu. Ela não hesitou.

O Guardião parou. Lentamente, levantou a mão e apontou para ela.

As pessoas exalaram em uníssono. Murmúrios. Silêncio. Suspiros.

Asha foi tomada.

Ela não sabia se sentia alívio ou tristeza. Apenas caminhou, seguindo-o. As pedras estavam quentes sob seus pés descalços. Ela não se virou para olhar para trás. Se o fizesse, ela se estilhaçaria.

O Guardião estendeu uma esfera de fogo à sua frente. Ela flutuou. Ela vibrou. E sem dizer uma palavra, ele a empurrou para dentro.

Asha cruzou o limiar flamejante. Não houve dor. Apenas um clarão, um zumbido profundo e um vazio no estômago.

Quando abriu os olhos novamente, não estava mais em Nareth.

Ela estava nas entranhas do Império.

O ar estava pesado, cheio de resina e fumaça adocicada. Eles estavam em uma câmara subterrânea, iluminada por veios de magma que corriam pelas paredes como rios vivos. Células de obsidiana flutuavam no ar, vibrando com uma linguagem que ela não entendia.

O Guardião atravessou uma ponte de pedra, e ela o seguiu. Seu corpo começou a suar, seu coração batia forte. Mas ela não conseguia falar. Não deveria perguntar.

No final da ponte, três figuras a aguardavam. Duas mulheres com rostos cobertos por véus carmesim e um velho com a pele queimada, os olhos como brasas apagadas.

"Esta é a ofertante", disse uma das mulheres, como se estivesse lendo um verso antigo.

O Guardião assentiu e se retirou sem dizer uma palavra.

Asha ficou sozinha diante deles.

"Nome", ordenou o velho.

Ela abriu a boca, mas lembrou-se das palavras da mãe. E fechou os lábios.

"Silêncio, então", disse o velho. "Você será classificada como "F-921."

F. Para fogo. Ou para oferenda. Ou para esquecimento.

Asha não protestou. Ela não tremeu. Ela era forte. Devia ser.

As mulheres a despiram de sua túnica. Lavaram seu corpo com cinzas perfumadas e marcaram suas costas com um símbolo brilhante que ela não conseguia ver. Doeu. Mas ela não gritou.

Ela recebeu uma roupa nova: linho escuro e uma coleira de ferro. Sem adornos. Sem alma.

Naquela noite, ela dormiu em uma cela de pedra. Com outras três jovens. Nenhuma falou. Todas tremeram.

Asha não.

Ela pensou em sua mãe. No pão que chegaria à cabana. Nas ervas que aliviariam sua febre.

Ela achou que aquele sofrimento tinha um significado.

Lá fora, a chama eterna queimava no topo do Templo da Lembrança.

E Asha, a filha da fumaça, estava começando a entender o que significava ser uma memória viva.

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