
Cristal
Capítulo 3
- Cristal. – Cristal se moveu levemente. Tinha certeza que era muito cedo para ir para a escola. – Cristal, acorde. – insistiu a voz, sussurrando firme. Ela abriu os olhos e percebeu que o quarto ainda estava um pouco escuro, mas tentou focar os olhos embaçados no rosto sério da diretora Adeline.
- Diretora? – perguntou, confusa.
- Fale baixo. – a diretora pediu, olhando as outras camas – Preciso que você se levante e venha comigo.
Era uma ordem e Cristal não hesitou. Saiu da cama meio cambaleante e seguiu a diretora para fora do dormitório silencioso, desceram as escadas e entraram na sala da diretoria. Lá dentro, a claridade das luzes acesas ofuscou seus olhos por um momento.
- Cristal, você tem uma visita. – Adeline anunciou apontando uma distinta figura sentada na cadeira de frente da escrivaninha da diretora.
Cristal não conseguiu falar nada diante da mulher vestida com um imenso vestido branco. Tinha longos cabelos lisos e escuros, de um brilho intenso, caindo pelas costas, e um meio sorriso nos lábios. Era como a mulher que tinha visto com Simas no dia anterior, uma das Damas que ela nunca tinha ouvido falar até então.
- Vou deixa-las a sós. – a diretora se retirou, fechando a porta ruidosamente. Cristal desejou que ela tivesse ficado ali dentro, como uma espécie de segurança.
A estranha se levantou e andou até estar diante de Cristal, que permanecia estática no lugar. A mulher tinha os olhos marejados, mas ainda sustentava aquele sorriso suave.
- Cristal, como você cresceu! – ela pousou as duas mãos em seus ombros.
- Eu conheço você? – perguntou, confusa.
- Claro que você não se lembra. – as mãos soltaram seus ombros – Meu nome é Morgana.
- Você é uma Dama? – perguntou Cristal, ainda pensando na história que Simas tinha contado.
- Já ouviu falar sobre nós? – Morgana parecia espantada.
- Meu amigo Simas me contou algumas coisas. – Cristal finalmente se moveu, um tanto desconfortável pela presença da estranha – Mas ele não sabe de nada. – acrescentou, preocupada que pensassem que Simas soubesse coisas demais – Apenas boatos.
- Entendo. – disse a outra apenas, sem dar muita atenção – Sente-se, Cristal. – Morgana ofereceu a cadeira que estivera antes e se sentou do outro lado da escrivaninha, no lugar da diretora Adeline. Era estranho ver outra pessoa ocupando aquele lugar.
- O que está fazendo aqui, senhora? – perguntou, se sentindo ainda mais desconfortável.
Morgana suspirou profundamente.
- Uma pergunta por vez. – ela se recostou na cadeira. – Sim, sou uma Dama. – Cristal não se lembrava mais de ter perguntado isso. – E você está aqui porque completou recentemente quatorze anos. – as duas se olharam. Cristal não entendeu o que isso tinha de relevante.
- Não compreendo. – murmurou.
- Ora, pensei que fosse concluir sozinha. – Morgana sorriu – Você é uma de nós, Cristal. É uma Dama.
- Eu o quê? – seus olhos se arregalaram – Não é possível, senhora. Eu cresci aqui no orfanato.
- E eu mesma te trouxe para cá. – a outra disse rapidamente – Além de uma Dama, também sou sua tia.
- Tia? – a voz de Cristal saiu aguda. Seu coração batia acelerado.
- Há inúmeras coisas que você precisa saber. – Morgana levantou da cadeira – Mas preciso que venha comigo.
Cristal se levantou lentamente, a ideia de ter uma família, fosse qual fosse, era absurda e difícil de acreditar. E era um pouco assustador se afastar do orfanato, que era tudo que conhecia.
- Por que agora? – perguntou – Por que não me quis antes?
O sorriso de Morgana se fechou numa expressão triste.
- Não foi assim que aconteceu. – sua voz era carregada de tristeza – Não pudemos ficar com você, e vou explicar tudo.
- O que quer dizer com “nós”? – Cristal se afastou da escrivaninha enquanto Morgana dava a volta.
- Você tem outra tia. – esclareceu – O nome dela é Matilda. – Morgana tentou segurar as mãos de Cristal, mas ela cruzou os braços. – Nós queríamos muito ficar com você, mas não era permitido. Por favor, venha comigo e vamos esclarecer tudo.
Nesse momento, a porta da diretoria se abriu e Adeline entrou:
- Está tudo bem? – olhou as duas rapidamente - As crianças já estão levantando, então seria bom Cristal pegar suas coisas.
As duas mulheres olharam para ela. Pela expressão da diretora, Cristal soube que ela já aguardava esse momento, sempre soube que viriam buscá-la, isso era certeza. Será que ela também sabia que tinha uma família em outro lugar?
Saiu, e rapidamente foi até o dormitório reunir seus poucos pertences na mala. Erguendo o colchão, pegou os desenhos que Simas lhe fazia e os embalou junto, sem conseguir olhá-los. Algumas crianças a olhavam com curiosidade, mas ninguém perguntou nada enquanto ela fechava a mala e se afastava do quarto.
- Vamos. – disse a diretora ao pé da escada – Ela está te esperando lá fora. – apontou a porta pela qual Cristal deveria sair.
Cristal seguiu sem acreditar que estava indo embora do orfanato sem poder se despedir de ninguém. Quando estava atravessando os portões da frente, lançou um último olhar ao único lar que conhecia.
A visão lhe partiu o coração. Em uma das janelas, Simas a observava com a expressão mais desolada que ela já vira. A mão do garoto tocou o vidro e ficou parada lá, como se tentasse tocá-la.
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