
Corações Partidos, Vidas Recomeçadas
Capítulo 2
A escuridão se dissipou e uma luz ofuscante invadiu meus olhos, o cheiro de champanhe caro e perfume encheu o ar, um murmúrio de conversas elegantes zumbia ao meu redor.
Eu estava de pé, viva.
Meu coração, que tinha parado de bater no chão frio e sujo de um beco esquecido, agora batia forte contra minhas costelas, o tecido de seda do meu vestido roçava minha pele.
Olhei para minhas mãos, não havia mais a sujeira e o sangue, elas estavam limpas, com as unhas perfeitamente feitas.
Uma onda de choque percorreu meu corpo, não era um sonho, era real.
Eu tinha voltado.
Voltei para o dia do lançamento do "Prêmio Zênite da Moda", o dia em que tudo começou a desmoronar.
Meus olhos varreram o salão luxuoso e pousaram neles.
Clara, minha irmã gêmea, com um sorriso radiante, segurava o braço de Leonardo, meu namorado.
Leonardo, o promissor empresário que eu amava mais do que a minha própria vida.
Eles pareciam o casal perfeito, recebendo os cumprimentos dos convidados, brilhando sob os holofotes.
Um ódio gelado subiu pela minha espinha, tão intenso que me deixou sem fôlego.
Na minha vida passada, neste exato momento, eu estava me preparando para anunciar meu sacrifício.
Leonardo estava à beira da falência, afundado em dívidas fraudulentas que destruiriam sua carreira.
E eu, a tola apaixonada Sofia, decidi assumir toda a culpa.
Eu destruí meu nome, minha carreira como designer de moda em ascensão, para salvá-lo.
Eu esperava que ele me recompensasse com amor eterno, com lealdade.
Mas a recompensa foi uma traição que me destruiu.
Ele e Clara, minha própria irmã, me apunhalaram pelas costas.
Clara, que nasceu do mesmo útero que eu, unida a mim por um cordão umbilical que o destino se esqueceu de cortar completamente.
Ela usou meu sacrifício para roubar meu projeto mais valioso, o design que me colocaria no mapa, e se apresentou como a verdadeira mente por trás dele.
Ela se tornou a "pupila" de Ricardo Vargas, o magnata da moda que estava no palco naquele momento, o homem que ditava as regras deste mundo cruel.
Eu fui jogada na miséria, enquanto eles subiam ao topo sobre as ruínas da minha vida.
"Sofia, você está bem? Parece pálida."
A voz de Clara, doce como mel envenenado, me tirou do transe.
Ela se aproximou, seu rosto uma máscara de preocupação fraternal.
"Estou bem", respondi, minha voz fria, desprovida de qualquer emoção.
Escondi a fúria que fervia dentro de mim sob um véu de indiferença.
Desta vez, não haveria sacrifício.
Desta vez, não haveria perdão.
No palco, Ricardo Vargas, o magnata, ajustou o microfone, seu rosto severo e imponente silenciando a multidão.
"Bem-vindos ao Prêmio Zênite da Moda", sua voz grave ecoou pelo salão. "Esta noite, não celebramos apenas a moda, celebramos a ambição, a coragem e o talento que impulsionam nossa indústria."
Ele fez uma pausa, seus olhos examinando a plateia, como um imperador observando seus gladiadores.
"O prêmio deste ano é mais do que um troféu, é uma oportunidade única, uma parceria direta com o meu império, um caminho para a glória eterna."
Um murmúrio de excitação percorreu a multidão.
Todos queriam aquele prêmio.
Todos, exceto eu.
Eu já conhecia o preço daquela "glória eterna".
Clara apertou minha mão, seus olhos brilhando de cobiça.
"Você não está animada, Sofia? Este é o nosso ano! Juntas, nós podemos conseguir."
"Juntas", repeti, a palavra deixando um gosto amargo na minha boca.
Por trás de seu sorriso, eu via a inveja, a ganância, a mesma escuridão que me consumiu na vida passada.
Ela já estava planejando, já estava conspirando.
Mas a Sofia que ela conhecia estava morta.
A mulher que estava ali agora não tinha nada a perder e tudo a vingar.
A multidão aplaudiu quando Ricardo Vargas terminou seu discurso, o som era ensurdecedor, mas para mim, era apenas ruído.
Em meio à celebração, eu sentia um frio que vinha da alma, uma promessa silenciosa que fiz a mim mesma.
Eles me traíram, me humilharam, me destruíram.
Desta vez, eu faria o mesmo com eles.
Eu não queria apenas vencer.
Eu queria destruir o mundo deles, peça por peça, até que não sobrasse nada além de cinzas.
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